ANA CAROLINA FERNANDES


Se tem alguém que é a Cara do JB, esse alguém é a fotógrafa Ana Carolina Fernandes. Filha de um jornalista e de uma professora, ela nasceu na casa da família na rua Engenheiro Alfredo Duarte, correu o mundo com seu olhar atento, mas seu porto seguro continua sendo aqui.

As memórias são muitas e vão desde os tempos do colégio Souza Leão – quando a meninada fazia fogueira e descia a rua Maria Angélica de skate ou carrinho de rolimã – à constante invasão de macacos prego nas residências atualmente, passando pelos churrascos e pelo barracão do Suvaco do Cristo, que, bem no início, reunia-se em sua casa. Ana Carolina lembra da loja de doces Ondinha; da Quadra, de equipamentos de som; e da loja Bom Desenho, que funcionou até cerca de cinco anos atrás. Sem falar da papelaria da infância, o Bazar Velasquez, do Seu Morgado, que até hoje mantém uma loja de material de construção em parte do antigo endereço e continua vendendo fiado a antigos clientes como ela.

Ana Carolina é saudosista, mas dá valor a lugares e pessoas que contribuem para manter o ambiente agradável do bairro, como o porteiro Fábio, do prédio onde tem apartamento na Praça dos Jacarandás, ou o clássico Jorginho, do bar Rebouças, que já foi eleito melhor garçom do Rio de Janeiro.

– Gostava muito do Le Pain du Lapin, agora a livraria Janela está cumprindo o papel de ponto de encontro da região – observa.

Reconhecida no meio da fotografia documental, Ana Carolina trabalhou nos principais jornais do Rio e de São Paulo até decidir dedicar-se a suas próprias pautas. A cobertura de manifestações nas ruas – seja as de 2013 ou a dos Gilets Jaunes, na França – é uma herança do trabalho nas redações. A mais recente foi a Vidas Negras Importam, em frente ao Palácio Guanabara, em maio. A quarentena diminuiu suas saídas, que agora são no máximo duas por semana. As mais recentes foram para cobrir a manifestação organizada pela ONG Rio de Paz, em homenagem aos 100 mil mortos pela COVID-19, na praia de Copacabana, e o evento de reabertura dos principais pontos turísticos do Rio de Janeiro, anunciada no Corcovado pelo Padre Omar, irreconhecível com os equipamentos de proteção individual. (fotos abaixo)

– Como estou morando com meu pai, de 99 anos, tomo todas as precauções necessárias. Na volta da rua, deixo roupa e equipamentos na varanda, que virou ponto de higienização. Só falta lavar os cabelos com água sanitária – exagera ela, que já fez teste de COVID-19 e cuida de sua alimentação com alho cru, gengibre e produtos da Feira Orgânica, de sábado, na pracinha ao lado de igreja de São José.

Sem ser para trabalhar ou ir ao supermercado, Ana Carolina destaca que as primeiras vezes que saiu foi para ir dar um mergulho na Prainha, quando isso foi liberado; e para abraçar uma árvore no JBRJ: “Sempre fiz isso, a energia é muito boa”, garante ela, que, mesmo sentindo falta de um cinema, não pretende ir tão cedo.

Há mais de dez anos, a fotojornalista vem trabalhando de forma independente, colaborando com vários jornais, revistas e agências de notícias e dedicando-se a seus próprios projetos e interesses, em busca de uma vida mais tranquila. Antes da quarentena, juntou-se ao coletivo PictoRio, criado no final de 2019 para levar imagens do Brasil para o mundo; e, mais recentemente, ao COVID Latam, que reúne profissionais de 16 países da América Latina, sendo nove homens e nove mulheres. Para este último, destaca sua foto da escultura de areia do Cristo Redentor, de máscara, na praia de Copacabana com um barco à vela e uma gaivota ao fundo.

Apesar de tudo, a pandemia tem sido produtiva para Ana Carolina. Ela aguarda o resultado da convocatória do evento Foto em Pauta, que reúne vários festivais de fotografia, para o qual enviou o ensaio “Silêncio ao redor”, com fotos em casa e na praia. Em junho, dentro do projeto Quarentena Books, lançou o livro “Cinderela”, com suas fotos de travestis tiradas entre 2011 e 2017 e com renda revertida para ajuda ao combate da COVID-19. Além deste, fotógrafa já lançou “Prainha”, de 2019, e os coletivos “Blocos de Rua do Carnaval do Rio” em 2012 e “As Donas da Bola” em 2014.

Com olhar sempre atento, Ana Carolina registrou o beijo de um casal de máscara na feira da Frei Leandro recentemente (foto ao lado). No entanto, quando questionada sobre a possibilidade de um livro sobre o Jardim Botânico, ela diz que não tem nenhum plano para isso:

– Prefiro as lembranças que estão escritas no livro da memória. Nenhuma foto que eu possa fazer hoje retratará a imagem das pessoas e dos lugares que eu guardei – admite.

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