LUIZE VALENTE

Correr e escrever são exercícios constantes na vida da jornalista, roteirista e escritora Luize Valente. Os verbos, contudo, não se misturam em seu dia a dia. Desde que deixou a cobertura de acontecimentos internacionais na Globonews, em 2016, ela não corre para escrever, nem escreve correndo. Agora, a pressa só se justifica para ajudar as pessoas que têm fome; afinal, quem tem fome, vocês sabem…

Um fogão aumentou a chama da solidariedade da jornalista. Pouco antes da quarentena, Luize havia comprado um novo e, ao doar o velho, conheceu o Favela Solidária. Sensibilizada, ela juntou-se à irmã Patrícia e conseguiram apoio de Bráulio Ferreira, do Mercado Afonso Celso, para criar uma campanha de arrecadação de cestas básicas para ajudar o projeto que contou com o apoio do JB em Folhas.

– A adesão e a mobilização foram surpreendentes. Começamos postando nas redes sociais e em grupos de WhatsApp. O pessoal do bairro foi muito participativo, mas a gravação de imagens do resultado da captação a cada etapa, mostrando as cestas, foi fundamental para aumentar o alcance da iniciativa. Logo no segundo vídeo, conseguimos doações de pessoas de outros estados e até de outros países – observa ela, surpreendida pela força do boca a boca virtual.

Depois de 21 semanas, foram distribuídas 1270 cestas e 350 kits de limpeza, somando cerca de nove toneladas de alimentos. A campanha perdeu fôlego, mas ainda continua, embora o foco da jornalista agora seja ajudar a zeladora de um prédio no entorno da praça Pio XI a conseguir comprar uma casa própria para ela e os filhos. Além de doações em dinheiro, Luize conseguiu a adesão de Solange Casotti, viúva do artista plástico Guilherme Secchin e também moradora do JB, que doou uma gravura dele para ser rifada. Os 40 números logo se esgotaram e o sorteio acontecerá no dia 1/10, durante a Live in JB, mas ainda falta arrecadar metade do valor necessário para a compra da casa. Quem quiser contribuir, só precisa mandar uma mensagem via Instagram ou Facebook de Luize Valente.

A ligação de Luize com o bairro é muito anterior à pandemia. Ela nasceu no Leblon, e mudou-se com a família para a Saturnino de Brito, em 1978. Há cerca de 30 anos, ela mora no edifício Irebel, mix dos nomes de seus avós Irene e Abel, que construiu o prédio, como contou em entrevista à coluna Meu JB, em 2015.

– Adoro o JB. Apesar de parecer somente um bairro de passagem para quem não mora aqui, ele guarda lugares tranquilos, com muitas áreas verdes. Sem falar no clima de interior, ideal para quem tem bicho – observa a moradora.

No começo da quarentena, Luize correu dentro do próprio apartamento, onde criou um circuito varanda-escritório-sala-quarto, percorridos durante uma hora. Como nunca gostou de dar volta na Lagoa, preferindo correr no Parque Lage, a retomada das ruas foi na praça Pio XI, dando cerca de 30 voltas em uma hora. Aos poucos, o raio foi se ampliando e, hoje, é possível vê-la correndo, à noite, pelas ruas Itaipava, Abade Ramos, Nina Rodrigues, Benjamin Batista e Nascimento Bitencourt. Sair do bairro é mesmo coisa raríssima para ela, que costuma fazer tudo a pé. Se antes da pandemia já prestigiava o comércio local, agora tem concentrado suas compras na vizinhança, incluindo o mercadinho Afonso Celso, o hortifrúti Rede Varejão e a padaria Grano & Farina.

O amor pelo bairro, porém, não se mistura com seu trabalho, uma vez que seus livros são, em sua maioria, romances históricos. Desde o lançamento de seu primeiro livro, em 2012, ela aprendeu que as coisas têm um tempo certo para acontecer.

– Sem conhecer ninguém no mercado editorial, liguei para a Record e pedi o e-mail de Luciana Villas-Boas. Me apresentei, enviei o pdf e a resposta veio somente oito meses depois. Devo muito a ela – confessa a autora de “O segredo do oratório”, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e baseado em documentário feito com Elaine Eiger, premiado seis anos antes.

Luize tem consciência que a ansiedade não ajuda nada no métier de escritora e destaca que o mais importante é trabalhar o texto: “Já ter um livro no mercado não é garantia de nada. Não tem uma fórmula, eu escrevo o que gostaria de ler”, admite ela, que costuma realizar viagens de pesquisa para embasar suas narrativas, misturando personagens fictícios a fatos históricos.

O romance de estreia foi lançado na Holanda em 2013, mas foi o lançamento de seu segundo livro, “Uma praça em Antuérpia”, em Portugal, que firmou o nome da autora no mercado internacional, a partir de 2016. Foi nessa época que percebeu que a internacionalização de sua carreira de autora era incompatível com o jornalismo televisivo, que acabou sendo deixado de lado após 25 anos. Seu terceiro livro, “Sonata para Auschwitz”, encontrou o mercado europeu mais aberto e o título já foi lançado na França e na Itália e, em breve, em países como Polônia e Albânia.

A experiência internacional chamou ainda mais a atenção da autora ao fato de o Brasil não ter política cultural forte como a de outros países: “É importante fazer vários projetos e apostar neles sem saber se vão acontecer”, observa Luize, cujo lançamento mais recente é “Do tempo em que voyeur precisava de binóculos” (2019), seu primeiro livro de contos.

Atualmente, Luize está trabalhando em um roteiro de ficção e em um romance histórico sobre a Inquisição, cujo título provisório é “Confraria das Oliveiras”. Para ela, o tema é mais do que oportuno diante da atual desvalorização dos livros e da cultura, de uma maneira geral, além da discussão em torno de uma maior taxação das publicações:

“Os livros são a base do processo de educação. Adoraria vê-los fazer parte da cesta básica”, atesta.

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