VIZINHOS – A DIFÍCIL ARTE DA CONVIVÊNCIA

A vida em sociedade, especialmente nas grandes cidades, exige uma dose elevada de respeito e resiliência. A máxima de que o direito de uma pessoa acaba quando começa o de outra não pode ser esquecida nunca; entretanto, no dia a dia, não é isso que costumamos vivenciar.  Há quem pense que vizinho é uma questão de sorte.  Tem vizinho que é tranquilo, tem aqueles que prestam atenção em tudo, para o bem e para o mal.  E tem também os que são tranquilos até a hora que esgota a paciência.

Alguns moradores da rua Lineu de Paula Machado se viram nessa situação de esgotamento, devido a problemas com o prédio comercial Pulse, inaugurado no começo de 2020. Além de terem tido que lidar com a construção do edifício por mais de um ano, eles ainda sofreram com uma obra na Drogaria Venâncio, que era feita de madrugada.  Por 15 dias, o estabelecimento tirou a paz da vizinhança, que procurou o síndico do Pulse para tentar solucionar a questão de maneira pacífica. Como nada foi resolvido, entraram em contato direto com o estabelecimento, mas tampouco tiveram sucesso. Irritada com a falta de retorno da farmácia, a professora Valéria Real chegou a lançar uma campanha de boicote à Venâncio nas redes sociais. “Foi uma forma de pressionar o estabelecimento a cumprir a Lei do Silêncio”, justifica.

Moradora do mesmo prédio de Valéria na Lineu, a advogada Márcia Prado acredita que o barulho forte de máquina tenha sido amplificado graças a um vão entre o prédio novo e o delas. Para Márcia, é importante conferir o que diz a lei para obras em prédios comerciais:

– É preciso saber se realmente existe uma legislação para isso, já que o Pulse está em uma área mista, cercado de prédios residenciais – observa, com prudência.

João Cabral, síndico profissional do Pulse, explica que após às 20h é permitido fazer obra; porém, sem barulho.

– O problema é que os estabelecimentos contratam empreiteiros que, com o prazo apertado e para fazer valer o orçamento, acabam não respeitando o horário estabelecido – alega.

Procurada pelo JB em Folhas, a drogaria enviou a seguinte resposta, por meio de sua assessoria de imprensa: “A Venâncio informa que barulhos – e consequentes incômodos – provocados pela reforma na loja do JB aconteceram dentro do horário previsto em lei”.

Já é tradição no bairro criar alarde quando começa uma nova construção ou reforma de algum imóvel para fins comerciais.  Na rua Abade Ramos, isso não foi diferente.  Moradores do entorno ficaram preocupados com a chegada da escola montessoriana Meimei, que iniciou uma grande obra em setembro de 2019. Devido a pendências na documentação, a obra foi interrompida em novembro, ficando parada até maio, quando as exigências legais foram cumpridas.

Segundo o diretor da escola Hegel Braga, as atividades foram retomadas em 15 de maio, seguindo os protocolos de segurança e higiene em vigor referentes à COVID-19. Ele afirma que, a pedido de Daniela Ribeiro, síndica profissional de um dos prédios vizinhos, os engenheiros responsáveis pela obra se reuniram com a arquiteta perita Bárbara Loureiro, a fim de dirimir todas as dúvidas a respeito do projeto:

– Em junho foi feita uma reunião, onde foram apresentados todos os documentos referentes às autorizações dos órgãos IPHAN, IRPH, CMERJ, CET-Rio e SMU. A perita mostrou-se satisfeita e, depois disso, não fizeram mais nenhum contato com a nossa equipe – afirma Hegel.

Apesar da reunião, a síndica gostaria de poder analisar cuidadosamente a documentação e vem tentando, sem sucesso, ter acesso ao processo junto à Gerência de Licenciamento e Fiscalização – Lagoa.

– Acreditamos que uma escola desse porte impactará negativamente toda a região, aumentando a circulação de carros e o barulho numa rua tranquila como a Abade Ramos – observa Daniela.

Mas nem tudo são espinhos. A jornalista Gabriela Javier mantém uma ótima relação com os outros moradores de seu prédio, na praça Pio XI.  Durante a pandemia, ela ganhou ovos de um vizinho que foi passar um tempo na serra e bolo de aniversário de outra vizinha, que a presenteou também com agrião orgânico. Por sua vez, ela doou um mouse sem fio para outro morador, que estava precisando.

– Mantemos um bom relacionamento e nos unimos sempre que é preciso, como aconteceu com um filhote de gambá resgatado por um vizinho.  Nos revezamos no monitoramento do bichinho para que ele não fosse comido pelos gatos da rua – explica Gabriela, que reside há mais de cinco anos da Pio XI.

Na mesma boa sintonia, vivem Guto Miranda e Guido Gelli, designer e engenheiro, respectivamente. Vizinhos de porta na rua Oliveira Rocha, um tem a chave do apartamento do outro para casos de emergência.  Foi graças a isso que Guido conseguiu salvar móveis e objetos do amigo, quando entrou água na casa, durante um temporal, em fevereiro deste ano.

– Eu estava viajando quando recebi a ligação do Guido avisando que a minha casa estava sendo inundada. Ele e a família entraram e fizeram um mutirão, tirando água com o rodo, impedindo que o estrago fosse maior – lembra o designer que já conheceu a família desde que os filhos, hoje adultos, estudaram juntos no Tabladinho.

Para quem acha que morar em casa é um paraíso por não ter vizinhos diretos ou síndico para reclamar, esquece detalhes como lidar com xixi e côco de cachorro em frente à porta ou árvores do terreno ao lado que avançam sobre o seu, que além de sombra e folhas caídas, podem causar acidentes e prejuízos. E ainda tem gente que joga lixo pela janela (latas de cerveja, copos e até pedaços de linguiça!). Sim, isso acontece!

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