QUARENTENA ZEN

Varrer o quintal, dar aula de yoga ou de tai chi kung, cozinhar, meditar, assistir a filmes e séries. Assim a pandemia vai passando para Luís Igreja, terapeuta corporal, diretor de teatro e audiovisual, e um dos curadores da sessão Despertar, do LivMundi, que acontece de 3 a 9 de outubro, em formato totalmente on-line e gratuito.

Índio, como Luís Igreja é conhecido, está lidando bem com o isolamento social, vivenciado com a esposa Paula Gribel e os dois filhos adolescentes do casal. “Às vezes, fico até sem graça de dizer que, de uma certa maneira, estou curtindo esse momento caseiro, com tempo para cuidar da casa e da família, com a natureza à minha volta”, confessa ele, que, com raras exceções, saiu de casa nesse período: “Somente para surfar cedinho ou no final de tarde com os meninos ou para uma pedalada até a praia, mas nessa última me assustei com o número de pessoas, inclusive sem máscara”.

– Logo no início, propus que nós quatro pegássemos uma folha em branco e escrevêssemos tudo o que achava que precisava ser feito em casa para a gente viver bem. Funcionou como um exercício mesmo, cada um colocou suas ideias. Isso ajudou muito a organizar nosso dia a dia – observou.

A família na cozinha

A vida profissional mistura-se com a pessoal, sempre ao lado de Paula, com quem compartilha a casa e a Aldeia de desenvolvimento, que engloba terapias integrativas, yoga, arte, cursos, vivências e meditação como caminhos de cura. Como todo mundo, Índio levou um susto inicial com a interrupção abrupta da vida como ela era.

– Jamais havia imaginado dar aula e atender de maneira virtual, mas quando vi que as pessoas estavam em descompasso, corri pro Insta para falar com elas e convocá-las a mexer o corpo, se cuidar. Logo, o perfil da Aldeia cresceu e eu me vi fazendo lives quatro vezes por semana. Depois de quatro meses, acabei sentindo necessidade de passar as aulas pro Zoom para poder ver quem estava do outro lado – conta ele, que, da noite para o dia, literalmente, implementou um aulão no sábado sem intervalo.

Aula de yoga no Zoom

Em sua avaliação, a experiência tem sido ótima, trazendo para perto amigos que moram longe. Outra vantagem das aulas virtuais sobre as presenciais destacada por Índio é que, em dias de chuva, ninguém aparecia e agora, on-line, não falta ninguém: “É importante olhar pra vida buscando novos caminhos diante do que se apresenta”, reflete o morador do Horto.

Formado em cinema, Igreja trabalha desde 1989 com técnicas corporais ligadas às artes cênicas, utilizando o corpo como veículo para o equilíbrio da mente. A experiência com o grupo Manguinhos em Cena, formado na Biblioteca Parque de Manguinhos, contribuiu muito para sentir o poder de transformação de seu trabalho, incluindo os Doutores da Alegria e o projeto Rir é Viver, que além de hospitais, atuava em locais de acolhimento de moradores de rua, orfanatos e asilos.

– Uma vez estava trabalhando na Casa de Passagem Raul Seixas, um barril de pólvora para jovens infratores. Depois de uma aula de tai chi kung, um dos garotos admirou-se com a paz e o silêncio estabelecidos e falou que ali isso não acontecia nem de madrugada – lembra ele, feliz em demonstrar o poder da mente de cada um e contribuir para o desenvolvimento das pessoas.

Igreja acredita que é preciso olhar para a pandemia e ver além das dificuldades. Para ele, a quarentena é uma oportunidade de silenciar e compreender em que ponto nossas vidas estão e ter uma chance de mudar. Pessoas diferentes passaram a adotar práticas de yoga e meditação. Uma boa oportunidade de conhecer seu trabalho é assistindo a uma aula sua, pré-gravada no Pão de Açúcar, que abrirá a quarta edição do LivMundi. A atividade faz parte da sessão Despertar, que contará também com “Kirtan e sons que curam”, com o Mário Moura, do Monobloco e da Parede que acompanha o cantor e compositor Pedro Luís; um talk sobre “Equilíbrio, a Semente do Amor”, com Lu Brites; entre outros convidados e formatos.

Filmagem do longa “Poropopó”

O cinema ainda faz parte de sua vida, assim como o teatro e a palhaçaria. Ele está finalizando o filme “Poropopó”, que conta a história de uma família de circo usando apenas a linguagem gestual, com a Companhia do Gesto, da qual Igreja é um dos fundadores. Outro longa-metragem seu em produção é “Sim”, este com o grupo Manacá Passarinheiro. Os dois filmes são voltados para pessoas de todas as idades, e a ideia é lançá-los em 2021.

E assim, mesmo estando com o dia todo ocupado, equilibrando os afazeres domésticos com os profissionais, Igreja vai levando a quarentena, tranquilo e relaxado, permitindo-se incorporar novas práticas positivas em sua vida. Um exemplo disso é o costume recentemente incorporado de, antes de cada refeição, agradecer pela comida e pelas pessoas envolvidas naquela cadeia de produção. Simples assim.

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