HORA DE VOLTAR ÀS ESCOLAS?

Voltar ou não voltar à escola: eis a questão? A discussão é das mais complexas e urgentes no mundo atual. Há bons argumentos dos dois lados e é preciso levar em consideração não só as crianças e adolescentes, mas também professores, diretores, coordenadores, inspetores e faxineiros, todos fundamentais para fazer tudo funcionar.

O primeiro ponto – do qual ninguém em sã consciência discorda – é que as escolas são serviços essenciais. Além do aprendizado formal, é importante lembrar das relações e experiências vivenciadas no universo escolar. No Brasil, a discrepância entre colégios públicos e privados torna a realidade injusta. Ao longo da pandemia, os alunos das instituições particulares seguiram tendo aulas, em modo on-line; enquanto os das escolas municipais e estaduais pouco ou nada tiveram. Mas é importante lembrar que mesmo aquelas crianças que tiveram atividades à distância sofreram com o isolamento social, tanto no aspecto psíquico como físico.

Na verdade, a questão não é reabrir ou não as escolas, mas como fazer isso. Algumas medidas que já se mostraram eficazes em outros países, foram adotadas pelas escolas privadas da região: como redução das turmas, grupos menores e fixos, máscaras para quem tem mais de 5/6 anos, distanciamento para os maiores e medidas de higiene constante e para todos.

Não há um modelo único ou mais certo do que o outro. No Jardim Botânico e bairros vizinhos, as escolas particulares prepararam-se com cuidado para o momento mais adequado para reabertura. O Tabladinho Centro de Educação Infantil voltou a receber crianças de 2 a 5 anos a partir de 14 de outubro. “Neste primeiro momento, o retorno está sendo gradual, com apenas duas turmas de oito crianças e em dias alternados. Um grupo vem às segundas e quartas e o outro às terças e quintas”, explica Lúcia Motta, uma das diretoras do Tabladinho. A escolinha fez uma pesquisa junto às 40 famílias e priorizou àquelas que estavam com uma necessidade maior para iniciar o processo. Além dos cuidados normais de uso de máscara e álcool gel (apenas para os adultos), a direção restringiu as atividades ao terraço e a uma sala grande, com palco, pé direito alto, janelas amplas e boa ventilação, tudo de acordo com as orientações das médicas infectologistas Luana Sicuro e Julia Herkenhoff Carijó.

Espaço ao ar livre no Tabladinho

– O objetivo é promover a ressocialização infantil, liberando um pouco a família para a retomada de suas atividades. A vantagem é que essa turminha brinca muito no terraço, ao ar livre. Com a pandemia, vamos ficar ainda mais tempo na área externa, aproveitando as brincadeiras de correr e banhos de mangueira – avisa a diretora, que fará avaliações, de 15 em 15 dias, para decidir se abrem mais ou se devem fechar.

O pediatra Daniel Becker, que há 25 anos tem consultório no JB, concorda que as aulas ao ar livre são um recurso eficaz para a redução de riscos em situações como a que vivemos agora. Segundo ele, esta solução vem sendo utilizada desde o início do século passado:

– As atividades ao ar livre, sob toldos – sejam elas em movimento ou em rodas de conversa para acolhimento emocional e discussão das experiências – são as mais benéficas para as crianças e para os educadores, reduzindo riscos para ambas as partes – acredita o médico.

Desde junho, a Jardim Botânico Educação Infantil estava se preparando para a volta. A creche modificou o espaço físico e, com ajuda da vigilância sanitária e assessoria da Urmes (Urgências Médicas Escolares), criou um protocolo para funcionamento amplamente discutindo com as famílias. As principais mudanças são turmas de cinco a seis crianças, dependendo da idade, e o fim do rodízio de oficinas. Agora, cada turma tem a sua própria sala. Os únicos espaços comuns são o solarium e o pátio, que são utilizados por uma turma por vez e com intervalos de 15 minutos para higienização.

Atividade na Jardim Botânico Educação Infantil

A equação não é simples de resolver. Há casos de famílias que decidiram mandar um dos filhos para a escola e deixar o outro em casa, dependendo do perfil e vontade de cada um. A combinação de ensino híbrido, no qual a família decide se vai mandar o filho à escola ou não, e o rodízio de turmas em dias alternados, tem sido a escolha de muitos colégios da região, como a Escola Parque, na Gávea, e a Sá Pereira, no Humaitá. Depois de participar de várias reuniões, por zoom, com a direção da Sá Pereira, o casal Antonio Villa Nova e Elizabeth Capobianco optou por manter a filha Maria Pia, do sétimo ano do Fundamental II, estudando em casa:

– Os riscos de hoje são os mesmos de março, a única diferença é o número de mortos. Como faltam apenas dois meses para fechar o ano letivo, achamos melhor ela não retornar – avalia Antonio.

A preocupação é justificada. A Escola Nova, que reabriu no mesmo esquema de turmas reduzidas, já teve problemas: “Em quatro dias tiveram que fechar o Ensino Fundamental II porque o Coordenador pegou COVID”, conta o pai de uma aluna do Ensino Médio que preferiu seguir estudando em casa.

No CEL International School, as aulas foram interrompidas por apenas uma semana para adaptação ao sistema on-line. A direção da escola manteve-se próxima às famílias, atenta também às questões socioemocionais dos estudantes. A volta ao presencial foi discutida e avaliada junto com os responsáveis, que puderam optar entre voltar ou não. O ensino presencial foi reestabelecido para um grupo reduzido de alunos, sem deixar de lado a qualidade do ensino remoto.

Distanciamento no CEL

A PUC-Rio implantou o modo on-line logo no início da pandemia e decidiu que as aulas presenciais na universidade não voltarão antes de 2021. Para possibilitar que alunos em situação de vulnerabilidade social pudessem acompanhar o ensino, professores criaram uma rede de apoio para emprestar laptops próprios, de outros alunos e da própria PUC. Neste segundo semestre, a universidade encampou a ideia e conseguiu reunir recursos para oferecer não só computadores, mas também chips para acesso à internet, beneficiando cerca de 500 alunos.

Triagem de computadores no ginásio da PUC-Rio

Na rede pública, a volta às aulas ainda não tem data para acontecer devido a divergências dos governos municipais e estaduais com os professores e demais profissionais que atuam nas unidades escolares. A ideia da Secretaria de Estado de Educação é realizar testes rápidos nesses servidores e retomar as aulas presenciais apenas para as turmas de 3º ano do Ensino Médio e da Fase IV de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Funcionários do grupo de risco não precisarão retomar o trabalho presencial. Uma exceção é o CAp-UFRJ (federal), que segue com as aulas on-line.

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