DAVI PINHEIRO – 70 ANOS DE JB

Um bairro simples, cheio de vilas e cadeiras nas calçadas. Assim era o Jardim Botânico quando Davi Pinheiro nasceu. O ator – que na década de 1990 deu vida ao personagem Armando Volta, do bordão “Sambarilove”, na Escolinha do Professor Raimundo – passou por vários endereços no bairro. A entrevista de Davi – publicada na coluna Ilustre Morador, da edição 83 de outubro/novembro de 2019 – foi atualizada e adianta algumas das histórias que ele vai contar na Live in JB #23.

Assuntos e memórias não lhe faltam. Na infância, morava numa casa de vila construída por seu pai na rua Lopes Quintas – para onde voltou há cinco anos – e estudava no Colégio Divina Providência, na época apenas para meninos. O período, na sua opinião, foi dos mais ricos, graças à miscigenação da população local: “Nossas brincadeiras favoritas eram descer a Vista Chinesa de carrinho de rolimã, rolar as pirâmides de pó de areia da pedreira e nadar na Lagoa Rodrigo de Freitas, pulando da rampa do Jockey, aonde os cavalos do clube eram levados para nadar”, rememora.

– Nos anos 1950 e 1960, havia poucas casas na região hoje chamada de Alto JB, nenhuma delas luxuosa. Ali funcionava uma pedreira, com explosões diárias, às 11h e às 16h, sempre precedidas por uma sirene – recorda-se o ator que viu a construção do Hospital da Lagoa e acompanhou as transformações básicas do bairro após a abertura do túnel Rebouças.

O programa de final de semana naquele tempo era passear no Jockey Club. As cocheiras estendiam-se até a rua Lineu de Paula Machado, mas as famílias não queriam as crianças e os jovens circulando pela área, que, na época, era mal vista. “A gente costumava ir brincar ali, andar de cavalo, mas depois que escurecia, ninguém mais passava pela Ponte de Tábuas”, conta o ator. Mais tarde, na década de 1970, a atração eram as partidas de autobol (modalidade de futebol na qual automóveis velhos faziam as vezes de jogador) no clube Caxinguelê, cuja reintegração ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro ele lamenta.

O pai de Davi Pinheiro foi comerciante importante no bairro. De origem portuguesa, era dono de um armazém de secos e molhados que, mais tarde, se tornaria o Mercado Afonso Celso. Ele teve também uma loja de aves e outra de flores, respectivamente nos números 600 e 674 da rua Jardim Botânico, atualmente ocupados por prédios comerciais envidraçados. Apesar de herdeiro natural dos estabelecimentos, Davi Pinheiro nunca quis desempenhar o papel de comerciante. Suas pretensões eram muito maiores:

O ator encena esquetes cômicos

– Quando me perguntavam o que eu queria ser, respondia: tudo! Na verdade, eu queria ser ator para poder ser padre, militar, de tudo um pouco – afirma Davi, que, aos 13 ou 14 anos, se encantou com as múltiplas possibilidades da carreira no palco do Divina Providência.

Naquela mesma época, havia a gafieira “O Musical”, que funcionava onde hoje fica a Globo, na rua Von Martius. “Como a meninada não podia entrar, ficávamos do lado de fora tentando ver ou pegar autógrafos de ídolos da Era do Rádio, como Emilinha Borba, Cauby Peixoto, Marlene e Elizeth Cardoso”, lembra o ator. Davi estava mesmo predestinado a seguir carreira artística. Certa vez, durante um jogo de futebol em terreno próximo ao Tablado, Maria Clara Machado, a fim de acabar com o barulho do lado de fora, convidou os garotos para assistirem a um ensaio.

Davi entrou e ficou. Tornou-se aluno da dramaturga e abraçou de vez a profissão. Antes de ganhar notoriedade nacional com o papel cômico no programa comandado por Chico Anysio, gravado no antigo Teatro Fênix, construiu sua carreira no teatro e no cinema. Ele atuou na peça “A gaivota” (1974), ao lado de grandes nomes como Sérgio Britto, Tereza Rachel e Renata Sorrah; foi assistente de direção de Antunes Filho na peça “Quem tem medo de Virgínia Wolf” (1979), estrelada por Tônia Carrero e Raul Cortez; e interpretou o Capitão Lobo, no filme “Memórias do cárcere” (1984), de Nelson Pereira dos Santos; entre tantos outros papéis.

Sua carreira já estava consolidada quando foi contratado pela TV Globo, onde trabalhou por 33 anos. Para Davi, a emissora trouxe mais benefícios do que prejuízos para o bairro. Ele lembra que o restaurante Filé de Ouro, por exemplo, era apenas um boteco que servia um bom e farto PF com arroz, feijão e filé.

“Sambarilove” e o “Professor Raimundo”

Aos 70 anos de idade e aposentado desde 2014, o ator não pensa em ficar parado: “Sinto muita necessidade de cuidar do corpo e da cabeça”, admite. No início da pandemia, praticou a dança no modo on-line, mas gostou quando as aulas da Sauer Danças voltaram ao presencial, com turmas de no máximo oito alunos, todos de máscara e janelas abertas. Outra atividade que Davi continuou durante a quarentena, graças à internet, foi a aula de voz com a professora Ana Frota. A fama e a experiência teatral garantiram-lhe convites para lives e aulas para alunos da UFRJ. Sobre o formato de teatro on-line, para ele não funciona:

–  Não acredito no formato on-line. Em teatro, o contato direto do espectador é muito importante. Sem a comunicação direta com o público, é outra linguagem e corre-se o risco de ficar chato – afirma o ator, que tem publicado em seu perfil no Instagram a série “Piadas pandêmicas” e outros esquetes cômicos.

Artista popular e constantemente abordado nas ruas, Davi Pinheiro acredita que ele, assim como o amigo Tom Jobim, deveriam virar estátua no bairro: “Minha vida é o Jardim Botânico, já plantei uma árvore no parque e, quando morrer, acho que mereço sentar na cadeira do monumento em homenagem a Otto Lara Resende”, diz em tom de brincadeira e provocação, lembrando que o célebre escritor, apesar de ter morado no bairro, dificilmente era visto nas ruas.

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