AS CARAS DA CASA DA TÁTA

Em novembro, o restaurante Da Casa da Táta completou 20 anos de atividade. Por trás dessa história de sucesso, está o casal Marta Jubé e Álvaro Albuquerque, moradores da Gávea há cerca de 30 anos. O casal administrou por muitos anos os cafés de vários teatros do Rio de Janeiro. O nome do estabelecimento vem justamente dessa época, quando Táta (apelido de Marta) fazia bolos e outras gostosuras para os bistrôs: “Todo mundo perguntava de onde vinham os bolos e a resposta era ‘Da Casa da Táta’”, lembra Álvaro. O espaço aconchegante e descontraído, logo ficou conhecido pelo café da manhã e o bolinho da tarde. Com o tempo, passou a oferecer almoço executivo e, mais recentemente, incluiu em seu cardápio pockets shows do samba ao rock’n’roll.

Apesar de o espaço ser pequeno, a arte não podia ficar de fora. Ainda na casa dos pais, Álvaro tinha um estúdio e dava aula de música, tendo sido baterista da banda Hojerizah. Marta formou-se em arquitetura e trabalhava como atriz. Os dois se conheceram na trupe teatral de Aderbal Freire Filho, o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo. Quando o diretor assumiu a administração do teatro Carlos Gomes e precisou de alguém para cuidar do café, Álvaro e Táta namoravam e toparam o desafio: ele ficou com a logística, e ela, com as comidinhas. Além dos famosos bolos de laranja e fondant de chocolate, Táta fazia pães, croissants e tortas salgadas dignas de um bistrô parisiense.

– Muita gente acha que eu fiz curso de gastronomia durante minha estadia na capital francesa, mas, na verdade, eu fui aprender francês. Trabalhei de babá e garçonete para sobreviver entre um trabalho e outro como atriz – conta a goiana, que aprendeu a cozinhar por necessidade, aos 10 anos, após perder sua mãe.

Para Táta, cozinhar é servir ao outro e, por isso, exige muita responsabilidade. Ela gosta de aprender com as pessoas e, sempre que pode, pede para conhecer a cozinha dos lugares. “Eu nunca havia pensado em ter um restaurante, no máximo um café, inspirado nos de Paris, que funcionasse como ponto de encontro”, explica.

– Depois do Carlos Gomes, vieram a Sala Cecília Meirelles, o Municipal, o João Caetano. A correria era grande para cozinhar, distribuir e administrar os espaços. Cansados e com filhos pequenos, certa madrugada, quando voltávamos para casa, decidimos procurar um lugar fixo, mais perto – recorda Álvaro, que se sente um felizardo por gostar mesmo é de experimentar tudo!

No começo, a Da Casa da Táta não tinha almoço. A refeição foi incluída quase por acaso, da necessidade de fazer comida para eles e para os filhos Téo e Nina, hoje com 25 e 22 anos, respectivamente. O esquema era bem simples, pois não havia fogão, só um forno para pães e bolos: “Tudo era feito naquelas chapas de esquentar quentinhas. Um dia, uma família que tinha uma papelaria ao lado, entrou, perguntou o que estávamos comendo e quis provar. De um dia para o outro, a Táta passou a fazer comida para mais cinco, dez, 15 pessoas…” Quando a papelaria fechou, em 2006, eles puderam ampliar a cozinha do restaurante e tirar toda a produção da própria casa: “A cozinha sempre me salvou”, diz a chef, que define seu estilo como franco-goiano, uma forma de “combater a cultura de sanduiche e bife com fritas”.

– Formamos várias boleiras. Só a Conceição já era cozinheira, mas agora só usa as receitas da Táta. O Antônio, um dos garçons do Municipal, aprendeu a fazer pães, croissants, brioches aqui e acabou contratado pela Casa Carandaí, onde foi premiado. Atualmente, abriu seu próprio negócio na Muzema – orgulha-se o baterista.

Música faz parte da história Da Casa da Táta. Ela chegou naturalmente, em forma de trilha sonora selecionada para o local. Em 2008, os dois passaram a utilizar o espaço para se reunir com amigos para cantar. Primeiro um casal, depois outros. Por três anos, os encontros rolaram todas as segundas-feiras, chegando a grupos de até 30 pessoas. “Havia dias que saíamos às 3h da manhã de lá”, destaca Álvaro, que acabou chamando o músico Luis Carlinhos para profissionalizar o espaço e abri-lo ao público.

– Ele era o mestre de cerimônias, sempre com três convidados. Tivemos a honra de receber Moraes Moreira e Geraldo Azevedo, e de descobrir a cantora Júlia Vargas. O primeiro show do Chico Chico, filho da Cássia Eller, foi aqui. Em 2017, depois de dois anos sem shows, convidei o Pedro Miranda para ocupar as segundas-feiras da casa. Ele optou por um formato acústico, intimista, e trouxe nomes como Joyce, Roberta Sá, Zélia Duncan, Teresa Cristina e Zé Renato para dar canja – conta.

A programação musical Da Casa da Táta estava em alta quando a pandemia chegou. Foram suspensas apresentações de Humberto Effe e Gustavo Corsi, com repertório de Luiz Melodia, e de Toni Platão cantando Herbert Vianna. Entretanto, não foi só a música que foi afetada. A primeira providência foi dar férias aos funcionários, depois o casal lançou uma campanha no site Benfeitoria. Ainda assim, precisaram demitir quatro funcionários – um deles foi recontratado recentemente.

– No início da pandemia, éramos nós quatro e dois funcionários trabalhando para atender os pedidos. O Téo e a Nina já haviam trabalhado no salão e têm intimidade com o negócio – afirma o pai, que não alimenta expectativas de que os filhos um dia assumam o estabelecimento.

Atualmente, o salão Da Casa da Táta permanece fechado, pois o espaço é pequeno e sem janelas. Uma preocupação é a inflação dos alimentos, que eles estão fazendo o máximo para não repassar para os clientes. Como há tempos recicla todo seu lixo, outra coisa que incomoda os sócios é o aumento do consumo de embalagens plásticas.

O casal não costuma sair muito, menos ainda para comer. Uma das coisas que gostam de fazer é tomar café da manhã no La Bicyclette, da amiga Ana Paula Gentila, com quem Táta trabalhou em um restaurante de Paris. Quando querem comida japonesa, vão ao Origami, mas mãe e filhos já andaram se arriscando por essa culinária também.

Uma coisa que descobriram com a pandemia é que o tempo é a coisa mais preciosa que possuem. Apesar de muito trabalho, o casal não tem uma rotina pré-estabelecida. Muitas vezes passam o dia inteiro no restaurante; às vezes conseguem tirar um tempinho durante a semana ou mesmo fazer uma viagem, fundamental para recarregar as energias.

– Do que a gente gosta mesmo é de programas ao ar livre, ainda mais agora. O Parque da Cidade está bem cuidado, sempre vejo o pessoal da Comlurb por lá. Dá até para ir até a Vista Chinesa e aproveitar as cachoeiras do Horto – garante Álvaro, que indica ainda a trilha do Alto da boa Vista à Mesa do Imperador e o trecho da Transcarioca em Guaratiba, além de passeios na Chapada dos Veadeiros ou pescar no rio Araguaia.

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