UM PARALAMA A PÉ PELO JB

O ano de 2021 precisará de mais do que seus 365 dias para acomodar todos os compromissos de João Barone. Morador do Jardim Botânico há 25 anos, o baterista do Paralamas do Sucesso estava no bar do Seu Alberto (Rebouças), na sexta-feira, 13 de março, quando o lockdown foi decretado na cidade. Naquela noite e na seguinte, a banda tinha apresentações marcadas no Circo Voador: “Ali foi o marco zero. Nossa agenda estava cheia de shows já no primeiro semestre deste ano. Tudo começou a cair ali”, lembra ele.

– No início da pandemia, eu, o Herbert e o Bi ficamos isolados e acabamos pegando a segunda onda das lives. A partir do final de agosto, fizemos umas três ou quatro, além de dois shows em Drive-in, um em São Paulo e outro em Brasília. Nossa expectativa era baixa, mas foi ótimo ver a manifestação das pessoas de dentro do carro, uma orquestra de buzinas e estroboscópio de faróis. Foi uma injeção de ânimo – garante ele, confirmando a tese de que é na estrada que a história dos Paralamas se renova.

Quando está no Rio, a rua Maria Angélica é seu quintal, e ele torce pelo comércio local. Além do bar Rebouças, Barone gosta da pizzaria Bráz, do japonês Okawari e da moqueca do restaurante Sabores de Gabriela, que, com a pandemia, passou a pedir em casa. Barone mostra-se animado com a inauguração de uma loja do Hortifruti perto de casa, mas considera a substituição da padaria Le Pain – que costumava frequentar – por uma farmácia um “tremendo baixo astral”. Outra coisa que o incomoda são os alagamentos constantes da rua Jardim Botânico, especialmente os da esquina da Eurico Cruz.

– Incrível que não tenham resolvido esse problema até hoje! No mais, é muito bom ter tudo perto. Em 10 minutos de caminhada, consigo resolver tudo o que preciso. É uma tranquilidade ter tudo à mão, da tapioca da feira da Frei Leandro a um livro ou carregador de celular – afirma ele.

Para passear, ele gosta das ruas de paralelepípedos e indica os arredores da rua Caio de Mello Franco e suas escadarias, região que, segundo ele, está mais bem cuidada atualmente. “Andar a pé gera uma maior interação com os vizinhos, ainda mais quando estou com Zion, um vira-lata com pinta de cachorro de raça. De tanto me perguntarem, inventei uma nova: ‘Perdigueiro da Alsácia’”, diverte-se ele, que assume tom sério ao lembrar dos donos de cachorro que não recolhem as fezes de seus animais.

– Não deixar coco nas ruas e calçadas é um ato de amor aos cachorros, aos vizinhos e a nosso bairro. Além do cheiro desagradável, é muito ruim pisar ou passar por cima com um carrinho de bebê. Devíamos fazer uma campanha de conscientização – sugere.

Cachorro é coisa séria em casa, especialmente para sua esposa Janete. Ele conta que, certa vez, quando voltavam para casa, vizinhos chamaram a atenção para o cachorro da casa ao lado, que tinha caído na piscina e não conseguia sair: “Os donos não estavam, e os bombeiros disseram que não podiam entrar na casa sem autorização. A Janete não pestanejou, pulou o muro, se jogou na piscina e ajudou o animal já sem forças”, narra com um misto de espanto e admiração.

A vizinhança também é pródiga em amizades e parcerias, que resultaram na banda The Silvas e no trio Call The Police. A primeira foi formada, despretensiosamente, para a festa de 15 anos da então enteada de João e conta com Liminha (guitarra), Dé Palmeira (baixo) e Toni Platão (vocais). Enquanto o trio, formado em 2017 com Rodrigo Santos (baixo) e Andy Summers (ex-guitarrista do The Police), é mais sério e tinha shows marcados no Panamá, Colômbia, Chile, Argentina e Brasil. Todos adiados para 2021.

A carreira de João Barone há tempos alcançou reconhecimento nacional e internacional, com prêmios Grammy Latino, MTV Vídeo Music Brasil e Multishow de Música Brasileira com o Paralamas do Sucesso e como melhor instrumentista. Nos últimos anos, o trio vinha se reunindo à tarde, em seu apartamento, para ensaiar:

– Transformei um dos cômodos em estúdio com tratamento acústico para não incomodar os vizinhos. É como a reedição do quarto da Vovó Ondina (referência ao local de ensaio do trio na casa da avó do Bi, que virou música no primeiro álbum dos Paralamas). Não sendo na hora da novela, ninguém aqui reclama – garante ele, que tem visto com mais frequência macacos-prego, micos, tucanos e porcos-espinho na região.

Há cerca de 20 anos, o baterista vem desenvolvendo projetos focados na Segunda Guerra Mundial. Os estudos resultaram no documentário “Um brasileiro no Dia D” (2006), que aborda as comemorações do 60º aniversário da data e o perfil do aviador franco-brasileiro Pierre Clostermann. Em 2009, apresentou a série “Redescobrindo a Segunda Guerra” e lançou o livro “Minha Segunda Guerra”. Quatro anos depois, lançou seu segundo livro “1942 – O Brasil e sua guerra quase desconhecida”,abrangendo de forma mais ampla a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, da qual seu pai participou.

Tais trabalhos não esgotaram seu interesse pelo tema. A expectativa de João Barone para 2021 é fazer uma minissérie ou filme de ficção sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra, “mas este projeto ainda está em fase embrionária”, admite.

– Um programa sobre automobilismo histórico está mais adiantado. Já estávamos fazendo um piloto sobre carros militares antigos, mas tivemos que puxar o freio de mão. O Brasil é um dos países com mais entusiastas de carros antigos, a ideia é abordar esse nicho – explica ele, que faz parte da tribo.

Barone possui dois jipes militares e uma moto com sidecar, mas não costuma circular com eles por aqui. Os veículos ficam em sua casa em Araras, onde, aliás, tem passado boa parte de seu isolamento social:

– Precisei da quarentena para passar uma temporada maior na serra, como sempre desejei. Ainda pude aproveitar mais o convívio com meus filhos Laura e Vicente. Só faltaram a Clara e meu neto Luca, que vai fazer quatro anos – conclui.

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