ROSANE LOPES FAZ A PONTE ENTRE RIO-PARIS

Rio de Janeiro – mais precisamente o Jardim Botânico – e Paris ocupam um lugar especial na vida da socióloga, especializada em Comunicação de Risco, Rosane Lopes. Aqui no bairro ela ficou conhecida no ano passado, logo no começo da pandemia, por ter disponibilizado máscaras em sistema “pegue-pague”, sem interação entre cliente e lojista, do lado de fora do seu Atelier Bzz, localizado na galeria dos Correios.

– Fico emocionada ao lembrar que, desde abril, quando começamos, ninguém pegou nenhuma máscara deixada no display sem deixar o valor devido na gavetinha. Por uma única vez, duas máscaras foram retiradas sem pagar; no entanto, no dia seguinte, a cliente voltou e explicou que, na véspera, estava sem dinheiro trocado – destaca Rosane, feliz por reconhecer honestidade e solidariedade em seus vizinhos.

A comerciante estima que, somente com esta ação, tenha vendido em torno de mil máscaras, de um total de 30 mil, desde que tudo começou. Rosane foi funcionária da Organização Mundial de Saúde de 1999 a 2009 e, há mais de 10 anos, é consultora da ONU em comunicação de risco. Ela estava em Paris em fevereiro quando começou a quarentena por lá e decidiu vir para o Brasil. Não demorou para que o mesmo acontecesse aqui. Ela confessa que, no início, ficou muito preocupada com a situação, mas logo lembrou-se das costureiras vítimas da enchente em Xerém, em 2014, que conheceu quando estava trabalhando na Defesa Civil do Rio de Janeiro. Para ajudá-las, decidiu focar na produção e venda de máscaras: “É uma satisfação ver que a confecção de máscaras tornou-se a principal fonte de renda para a família dessas 15 costureiras de Caxias, neste período”, orgulha-se ela, que, por isso, optou por bloquear sua agenda de consultora mesmo diante da atual crise mundial.

Rosane e as costureiras da Baixada

– Achei que minha atuação mais importante neste momento era no sentido de empoderar as mulheres. Foi muito gratificante ouvir o retorno de uma costureira, que disse ter visto, pela primeira vez, seu trabalho ter sido valorizado – afirma ela, que contou com a parceria de moradores do bairro para fornecer máscaras para a Obra do Berço, Casa de Betânia, Lagoa Presente, garis e até para pacientes do Hospital Miguel Couto e seus acompanhantes.

Esta escolha reflete uma nova mudança de rumo na carreira de Rosane, que graduou-se em Ciências Sociais na Unisinos (RS), passou pelo mercado hoteleiro e acumula anos de experiência na promoção de uma comunicação clara em situações de emergência, incluindo mestrado em Comunicação de Risco na UFRJ e outros cursos sobre o tema em Harvard. A partir de seu gosto por artesanato e reconhecimento da necessidade de reciclar, em 2017, inaugurou o Atelier Bzz. A loja é voltada para o comércio justo e sustentável de produtos feitos por ela e por mulheres em situação de risco no Brasil e no exterior.

Em Paris, Rosane não tem loja própria e costuma participar de projetos temporários, do tipo “pop-up”. Além de suas bijuterias, ela vende as máscaras das Costureiras da Comunidade em alguns pontos fixos da Cidade Luz e também em Kopenhagen, na Dinamarca, graças a uma parceria com uma amiga jornalista de lá, que apoia a iniciativa. O modelo em 3D com camada de seda – tecido cuja trama protege mais do que a do algodão e com toque mais delicado – faz sucesso nos países europeus e também pode ser encontrado aqui, no Atelier Bzz.

O respeito e valorização dos produtores e comerciantes locais de Rosane também estão presentes no seu perfil de consumo. Ela frequenta a feira de domingo, na Lineu de Paula Machado; faz compras nos supermercados e farmácias do bairro; faz as unhas com a Áurea, do Salão Globo, e pinta o cabelo com a Vera, do Salão Lucy, ambos vizinhos de sua loja na galeria. A variedade da gastronomia daqui agrada à comerciante, que se delicia tanto no Bibi Sucos como no peruano Moray.

Rosane passou a dividir seu tempo entre Rio e Paris há 15 anos, após seu segundo casamento. Atualmente, sua rotina – em boa parte dedicada à criação de bijuterias – é parecida nos dois lugares, embora aqui saia mais do que lá: “O clima ajuda, né?”, diz ela, que gosta de andar de bicicleta na Lagoa. Os passeios lhe revelaram os aparelhos públicos instalados no Parque das Figueiras, uma alternativa às aulas de remo, na sede náutica do Vasco, e de dança do ventre, com uma professora na praça Santos Dumont, ambas interrompidas com a pandemia.

– As duas cidades ocupam um lugar especial em minha vida, cada uma com suas características e oportunidades. Para mim, elas se completam! – conclui ela, que viveu em países tão diversos quanto Iraque e Chile, com temporadas no Haiti, Cabo Verde e República Dominicana, entre outros.

2 comentários em “ROSANE LOPES FAZ A PONTE ENTRE RIO-PARIS

  1. O Ateliê bZZ é uma loja maravilhosa, espaço e atendimento aconchegante, produtos são lindos de ótima qualidade

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