AS DOCES LEMBRANÇAS DE CÂNDIDA DIAZ

NOTA DA REDAÇÃO: Cândida Diaz foi entrevistada pelo JB em Folhas em janeiro de 2021, mas veio a falecer no dia 22 de maio deste mesmo ano, em sua casa, no bairro do Jardim Botânico.

Na casa de Maria Cândida Rocha de Diaz Bordenave, educação sempre esteve em primeiro lugar. Foi para garantir a melhor possível a seus seis filhos (João, Chico, Verônica, Maria, Paulo e Enrique), que a intérprete e tradutora e o marido, Juan Enrique Diaz Bordenave, estabeleceram-se no Jardim Botânico, quando chegaram ao Rio, em 1968.

Natural de Ribeirão Preto e tendo vivido anos fora do Brasil em países como Costa Rica, México, Estados Unidos e Peru, Cândida aceitou a indicação de suas duas únicas amigas na Cidade Maravilhosa e matriculou os filhos no colégio Souza Leão, que funcionava na rua Jardim Botânico, quase na esquina da rua J. Carlos, onde hoje fica um prédio da TV Globo. Em suas idas e vindas à escola, acabou encontrando a casa onde mora até hoje, após visitar outras 80. Na época, a rua era pouco movimentada e as crianças andavam e brincavam tranquilas do lado de fora. O futebol era sagrado. Naquele tempo, havia muitas casas, vilas e pequenos prédios na região. A rua Maria Angélica, contudo, já contava com um comércio significativo e era a salvação:



– Havia uma loja de presentes que vendia artigos importados. Apesar de cara, valia à pena não precisar me deslocar até o Centro ou Ipanema. Com seis filhos, meu tempo sempre foi justo – destaca.

Com 92 anos, Cândida guarda boas recordações de quando costumava levar a criançada para tomar sorvete na Ondinha (loja de doces que ficava na praça Sagrada Família, atualmente uma agência do Itaú); almoçar aos domingos no Clube Piraquê, do qual eram sócios; fazer compras de mercearia na esquina da rua Alexandre Ferreira com Maria Angélica, atual endereço da pizzaria Domino’s, que por muitos anos foi a Adega do Porto, também frequentada pela família.

Nos anos 1970, com toda a prole em idade escolar, Cândida concluiu que era hora de retornar ao mercado de trabalho. Além disso, apenas o salário do marido Juan Díaz, funcionário da OEA (Organização dos Estados Americanos), não era suficiente para garantir uma vida mais confortável para a grande família. Candidatou-se aos mais diversos tipos de trabalho, de posto de gasolina à escola, mas foi na PUC-Rio que encontrou a melhor receptividade:

– Procurei o departamento de Letras sem muitas expectativas, mas quando disse à diretora Amélia Lacombe que era intérprete, ela quase se ajoelhou a meus pés, pois o ministério da educação na época havia criado as profissões de tradutor, intérprete e secretária executiva para estimular a formação em Letras. Fui contratada na hora – lembra.

O trabalho na academia proporcionou uma outra vida à Cândida, abrindo seus horizontes para a política e novos amigos: “O ambiente me estimulou. Naquela época, a universidade estava em ebulição. Eu participava de assembleias contra a ditadura e fiz amizades que duram até hoje com colegas das mais diversas áreas, da filosofia à engenharia”, recorda-se a professora que chegou a ser Diretora do Departamento de Letras da universidade e está aposentada há 20 anos.

Apesar de passar mais tempo em casa novamente, Cândida já não conhece mais seus vizinhos, gente como a Dona Elza, que morava na casa ao lado da sua e tinha seis cachorrinhos: “Com a construção de grandes edifícios, ficou mais difícil saber quem mora onde”, observa. Apesar do crescimento e do barulho intenso do tráfego desde que sua rua ganhou ligação direta com o Humaitá e tornou-se via alternativa à JB, ela não pensa em sair daqui. Na sua opinião, o bairro ainda é agradável e, se hoje não é mais um sonho, não chega a ser nenhum pesadelo: “A cidade toda piorou, a pressa tomou conta da vida das pessoas. Nada como ser vizinha do Parque Lage e da Lagoa Rodrigo de Freitas”, reconhece ela, que, quando queria descansar, ia até lá admirar a paisagem e o espelho d’água.

Para Cândida, que se diz “saideira” e sempre teve a casa naturalmente cheia de filhos e amigos, a vida está muito difícil para quem não está trabalhando, mesmo que de casa, “virou uma prisão”. Encontrar e abraçar os amigos e poder reunir a família com segurança são seus desejos para este ano:

– Nós somos vítimas, houve muito descaso do governo. Não podemos sair para fazer compras, dar uma passeada, ver os amigos ou comer uma pizza na esquina. Até o grupo de oração agora é no Zoom – reclama Cândida, que já tomou a primeira dose da vacina.

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