XICO CHAVES FAZ DA ARTE SUA ARMA

Quem mora entre o túnel Rebouças e o Parque Lage está habituado a cruzar com o artista plástico Xico Chaves. Apesar de ter nascido em Minas Gerais, ter vivido em Brasília, em Niterói (escondido) e no Chile (exilado), Xico Chaves considera-se parte orgânica do Jardim Botânico, lugar onde se estabeleceu há tanto tempo (cerca de 40 anos) que, em entrevista ao JB em Folhas em 2016, disse ter perdido a conta. Para ativar suas preciosas memórias, na quinta-feira, dia 4 de março, às 19h, ele participa da live JB em Folhas e Histórias, no canal do JB em Folhas no YouTube.

Na década de 1970, Xico criou e dirigiu eventos de ocupação artística – poéticos e musicais – na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, como os do Boca Livre e do Céu da Boca. “Tudo sem fins lucrativos”, lembra ele, um dos mais ativos defensores da contracultura. Na época, ele morava em Santa Teresa e, muitas vezes, “acabava dormindo em uma barraca no terraço do palacete”, revelou. A poesia foi o primeiro caminho para suas manifestações artísticas quando tinha 13 anos. As palavras, entretanto, nunca lhe foram suficientes, e ele acabou buscando apoio nos campos visual e sonoro.

Para Xico Chaves, a arte sempre foi sua arma, mas ele nunca se rendeu a uma única linguagem ou em apenas um suporte físico para se expressar, experimentando trabalhos em vídeo, fotografia, instalações, performances, televisão, rádio, etc. Xico publicou mais de dez livros; participou de inúmeras exposições individuais e coletivas; tem obras expostas no Museu de Arte de Brasília e nos paulistanos Museu de Arte Contemprânea e Masp, além de somar mais de 200 músicas gravadas por artistas como Nara Leão, Caetano Veloso e Elza Soares, tendo como parceiros nomes do quilate de Lenine, Antônio Adolfo e Jards Macalé.  Com esse último, aliás, compôs “Selfie-se quem puder”, que marcou os 30 anos do bloco Suvaco do Cristo em 2015.

Mesmo nos períodos em que atuou nos âmbitos estadual e federal, ele sempre manteve seu olhar no bairro, que atravessa de ponta a ponta. Ele conta que gostava de explorar as quedas d’água no alto da rua Maria Angélica, mas muitos desses caminhos foram bloqueados por muros de propriedades particulares. Uma rotina que não muda é sua caminhada até o JBRJ, que visita todos os sábados, depois de ir à feira da rua Frei Leandro. Desde o início dos anos 1990, Xico faz parte do “Movimento Nacional de Artistas pela Natureza”, e o parque alimentou a série “Fotopoema”, em que juntava sementes, folhas e flores a palavras escritas no chão com uma vara de bambu. Sua “diversão” atual é a série “Caras de Pau”, em que reúne folhas, pedras, sementes e outros resíduos encontrados pelo caminho para formar rostos-caricaturas naturais.

– A arte está ligada ao meio ambiente. Que obra pode se pretender melhor do que uma árvore? – questiona.

O Parque Lage é seu quintal – por onde caminha entre supostos altares dedicados aos orixás do candomblé –, e a Panificação Lagoa é sua copa, pelo menos para um cafezinho, tomado em pé no balcão. Seu cantinho da saudade guarda lugar especial para o Seu Américo (dono do pé-sujo ao lado do bar Rebouças) e o Pavão, mítico camelô que vendia livros na Maria Angélica e morava em um casebre na parte alta da rua; sem falar da pizza de espinafre que o pessoal da Adega do Porto, na rua Alexandre Ferreira, preparava especialmente para ele.

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