A POLÊMICA EXPANSÃO DO IMPA

Parece reprise de novela, com trama digna de horário nobre. Há décadas um terreno na Barão de Oliveira Castro é motivo de disputa. O número 60 da pacata rua do Horto já foi cogitado para um condomínio de casas de luxo, escola e até estacionamento de 250 carros da TV Globo. Agora, o que tem preocupado os moradores é um projeto arquitetônico moderno e premiado para expansão do campus do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).

O terreno de 251.824 m2 foi doado ao IMPA em junho de 2014. O diretor da instituição científica naquela época, o pesquisador César Camacho, recebeu uma comissão de moradores para discutir o futuro projeto e teria acordado que a expansão do campus seria em área próxima ao já existente. Entretanto, o projeto do escritório Andrade Moretti Arquitetos e Associados, de São Paulo, selecionado via concurso, não levou isso em consideração. Na segunda quinzena de abril, começam a ser construídos quatro pavilhões. O pavilhão superior abrigará auditório, refeitório, gabinetes de estudo e laboratórios. Os outros três terão 129 unidades – com capacidade para quase 200 pessoas, considerando apenas um ocupante por quarto – para alojamento de estudantes e pesquisadores, além de estacionamento para mais de 100 veículos. Tudo isso com entrada pela rua Barão de Oliveira Castro. O projeto inclui soluções sustentáveis, que vão de teto verde e energia solar ao reúso das águas pluviais, mas deixou de lado o impacto que a comunidade local sofrerá, não só durante a obra, mas em seu cotidiano, com a presença de tantos novos moradores e visitantes.

O projeto foi apresentado pela primeira vez, em 2015, à AMAJB e a representantes dos moradores da Barão de Oliveira Castro, que foram surpreendidos por sua localização, colada às casas do lado par da rua (vide planta cima). Começaram as negociações, que, segundo Marcelo Viana, atual diretor geral do IMPA, levaram a modificações substanciais do projeto:

– Foi eliminado um bloco inteiro da edificação e se ampliou a capacidade de armazenamento da área do lago, para a contenção da água das chuvas – exemplifica o pesquisador, há mais de cinco anos à frente da instituição.

A principal reclamação dos moradores, porém, é que o projeto não levou em consideração o tamanho e as características da Barão de Oliveira Castro.  Moradora da rua há 43 anos, a designer Ana Soter abriu sua casa para discutir o projeto, a obra e seu licenciamento algumas vezes, reunindo vizinhos e Guilherme Devilart Brondi, representante do IMPA. Em 2018, mesmo ano da colocação da Pedra Fundamental da obra, o instituto chegou a apresentar ao grupo um estudo geológico, cuja conclusão considerava a área como de “alto risco”.

Os encontros seguiram, e o último agendamento presencial previa uma reunião no dia 8 de abril de 2019, que precisou ser cancelada devido ao intenso temporal que atingiu o bairro, provocando importantes prejuízos especialmente na rua Barão de Oliveira Castro.

– Aquele dia foi um divisor de águas. Não houve uma palavra ou gesto de solidariedade da parte deles – recorda Ana.

O silêncio durou até setembro de 2020, quando houve nova uma reunião, via Zoom, que contou com a participação do advogado Pedro Strozenberg, ouvidor convidado em caráter honorífico pelo IMPA para mediar a relação, uma vez que as obras estavam previstas para começar em dezembro. Segundo a designer, naquela ocasião, eles apresentaram uma planta de drenagem do terreno (acima); contudo, não mostraram as de terraplanagem e contenção, implicando em uma nova reunião para apresentação completa do projeto. O encontro ficou para a semana seguinte, mas foi desmarcado pelo IMPA em cima da hora. “Ficamos sem notícias até agora, quando recebemos um comunicado avisando que as obras teriam início na segunda quinzena de abril”, reclama Ana.

O presidente da Associação de Moradores do Horto (Amahor) Emerson de Souza lembra de ter se reunido com representantes do IMPA para tratar de assuntos relativos às enchentes de 2019. Entretanto, afirma que, apesar das promessas, nunca entraram em contato com a associação para mostrar o projeto do novo campus e discutir os impactos na região durante a obra e após sua inauguração, prevista para 2024.

No site do IMPA, é possível conferir alvarás, licenças e outros documentos, além de um mapa com a visualização do projeto inserido na região. Em nota, o diretor do instituto afirma que vem tomando providências para minimizar os transtornos:

– A obra terá horário inferior ao que é permitido por lei e as empresas contratadas para sua realização cumprirão rigorosamente os protocolos de prevenção à Covid-19 – garante Viana.

Mesmo reconhecendo a importância do IMPA e o prestígio de ter uma instituição de ponta no Rio de Janeiro, Ana Soter e seus vizinhos acreditam que não é possível descontextualizar um projeto arquitetônico desse porte de seu entorno. O grupo já está se mobilizando para não permitir a realização do mesmo em tais condições:

– O que querem fazer aqui não é um campus. É basicamente um alojamento, já que somente os dormitórios ocupam bem mais de 50% da área a ser construída, no meio da floresta. Nossa rua, hoje, conta com menos de 300 moradores, considerando esta construção, a população pode dobrar! Estão passando a boiada no Horto – alerta Ana.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: