TRADIÇÃO JUNINA DO JB E DO HORTO

Junho é tempo de festa junina. E se tem algo que o bairro curte são os arraiás, que são tradição na região, como vem sendo mostrado nas redes sociais. Toda quinta-feira, é dia de #tbt no Instragram. A sigla é abreviação da expressão throwback Thursday, que pode ser traduzida como “quinta-feira da nostalgia”. Nesta viagem no tempo, o JB em Folhas faz um passeio pelas diversas festas juninas da região.

Nos últimos anos, a festa do bairro mais conhecida era o Arraiá da Pracinha (foto em destaque), na praça Pio XI, que em 2020 completaria 10 anos. Criada com o diferencial de ser feita por e para moradores, o evento veio substituir um outro que acontecia no local, sem respeitar os vizinhos e visando unicamente lucro. Em 2008, a festa acabou às 5h da manhã, em ritmo de funk, e deixou como saldo toda a área suja e cheirando a xixi, por falta de banheiros químicos. No ano seguinte, um abaixo assinado com mais de 400 assinaturas, liderado por Bruno Ferreira (à direita, na foto abaixo), do Mercado Afonso Celso, conseguiu vetar a produção. E, em junho de 2011, aconteceu a primeira edição do Arraiá da Pracinha, com programação infantil, barraquinhas, quadrilha, de adultos e crianças, e o principal: hora para acabar.

– A participação dos moradores, além de engajar a vizinhança num projeto comum, faz com que todos se sintam anfitriões dessa bela festa. Com atividades infantis e música ao vivo, temos atrações para todas as idades, e tudo isso até as 22h, dando o tom familiar que sempre buscamos – pontua Carlos Lisboa (ao centro, na foto acima), um dos integrantes do grupo que organiza o evento.

Festas Juninas são tradição no Horto. Morador da antiga vila operária da América Fabril há quase 70 anos, Gerson Simões contou, em depoimento à série JB em Folhas e Histórias, que quando ele era criança havia festas juninas em todas as ruas da vizinhaça:

– A da rua Caminhoá sempre foi a melhor. O pessoal da comissão organizadora gostava de festa e arrecadava dinheiro do comércio para comprar mariola, batata doce, rapadura, quentão… Eles faziam igreja para o casamento na roça, tinha cadeia e correio do amor. Sempre foi muito animado. Ainda tinha o Seu Luiz, que costumava fazer balões e soltava três ou quatro juntos de uma vez – relembrou.

A turma do outro lado da Pacheco Leão costumava fazer suas festas no Caxinguelê. Com a demolição do mesmo, uma comissão de moradores do Horto seguiu montando seu arraial em frente ao antigo clube, com direito a forró, quadrilha, brincadeiras e comidas típicas da época: “Sem o apoio e contribuição dos próprios moradores e comerciantes da região, a festa não seria possível”, afirma Nélia Vasconcellos, uma das integrantes da Comissão do Horto.

A jornalista Diléa Frate tem como tradição, desde os anos 1990, acender uma fogueira na frente da sua casa, no alto Jardim Botânico, para festejar São João. Ali a família se reúne para comer milho e batata doce assados na brasa. A tradição só parou com a pandemia. Na mesma freguesia, as festas da praça Dag Hammarskjöld foram referência para quem morava nos arredores da rua Lopes Quintas por muitos anos e atraíam gente como a nutricionista Gabriela Kapim, bem antes de sua mudança para o bairro. A festa na praça Dag (como é conhecida pelos vizinhos) não durou muito tempo, porque a vizinhança nobre não gostou e, com o apoio da Associação Alto JB, proibiu o evento.

– Essa festa era muito simpática, muito família. As pessoas das próprias casas levavam bambus e bandeirinhas para enfeitar a praça. Mas aquilo foi atraindo muita gente, multidões mesmo, que faziam muita bagunça e deixavam muito lixo. Virou realmente uma coisa incontrolável – testemunha a jornalista Kristina Michahelles.

Uma das festas mais antigas do JB é o Arraiá da Visconde, que começou a ser organizado por moradores da rua Visconde da Graça em 1958. A tradição resistiu ao longo dos anos, sempre renovada com a animação de vizinhos, como o ator Tatsu Carvalho, que faz parte da comissão de organização dos eventos. Por conta do aumento de público – e para não perder a sua característica principal, de ser uma festa do bairro –, o evento inovou em sua última edição, evitando a venda de bebida alcóolica. Quem fosse na festa, levava sua própria bebida.

– Em 2019, só teve barraca de comida, sem venda de bebidas. Tinha um isopor de gelo e cada morador levava sua bebida. O resto continuou do mesmo jeito: banda, barraca de brincadeiras, quadrilha e animação. Isso ajudou bastante a esvaziar a festa – lembra o ator.

Sempre animado, o artista visual Xico Chaves costuma falar sobre a festa da Maria Angélica, promovida pela turma da rua nos anos 1980. “Os registros fotográficos são poucos, a maior parte tirado por máquinas “Xereta”, observa Xico, que acredita que o acervo do fotógrafo e designer Cafi, que faleceu em 2019, tenha muita coisa de todas essas manifestações culturais.

Na memória da dramaturga Denise Crispun, que já morava na região, restaram boas lembranças da quadrilha comandada pelo Lenine e de todo mundo na “prisão”. A festa era realizada na parte alta da Maria Angélica, onde a rua faz a curva, e durou dois ou três anos. Depois foi para o Clube Condomínio, no Horto: “No Condomínio, a festa cresceu. Tinha adereços, casamento e uma produção maior, com jogos e barraquinhas”, conta Denise, que recorreu às lembranças de amigos da época, como Bruno Fernandes.

Outra agitadora desse trecho do JB é Moira Lynch, que atualmente se divide entre o Humaitá e a região serrana. Foi ela quem teve a ideia de fazer uma festa junina no beco, que fica atrás do posto Ipiranga. O pretexto foi a comemoração do aniversário de sua filha, em junho de 2009. A Festa de Santo Antônio acabou se repetindo até 2018, sempre com autorização dos moradores do local e nenhuma divulgação, só o boca a boca mesmo: “Era uma festa quase secreta, sem fins lucrativos, que reunia cerca de 200 pessoas, das 17h às 22h”, recorda.

– Eram cinco ou seis barraquinhas, correio do amor e quadrilha no estilo vale tudo, juntando os pares na hora. A proposta sempre foi a de agregar a vizinhança, promover uma sensação de pertencimento e amor pelo lugar em que a gente vive – explica a produtora cultural, que se sentia realizada em verificar, ao final de festa, que o lugar estava limpo, sem lixo jogado no chão.

Lixo e limite de pessoas também são preocupações dos organizadores do Arraial da Barão, criado em 2015, na rua Barão de Oliveira Castro. “Começamos convidando pessoas da nossa rua e da Marquês de Sabará para montar as barraquinhas da festa, e depois abrimos a moradores de outras ruas do Horto. Os músicos que se apresentam também são amigos e acabaram formando a banda Forró da Barão, em função da festa”, conta Ana Dilon uma das idealizadoras do evento, que tem corrida de saco, dança das cadeiras e uma concorrida quadrilha. No dia da festa, um mutirão de moradores cuida da decoração da rua, cabendo ao Alexandre, porteiro do prédio 64, a instalação das luzinhas na rua inteira.

– É uma coisa bem artesanal e gostaríamos que continuasse assim, sem apelo comercial. O mais legal disso tudo é que a festa junina deu origem a um grupo de zap, que colocou os vizinhos em contato o ano inteiro. A rede é usada para ajudar quem precisa de uma ferramenta emprestada ou para efetuar compras coletivas de orgânicos, por exemplo – afirma Ana.

Nas escolas, especialmente naquelas dedicadas à educação infantil, os festejos juninos fazem parte do calendário. A Festa de São João no Tabladinho é uma tradição há mais de 60 anos, quando a escola ainda era um clubinho. No começo a produção era mais do que caseira, com as cocadas feitas pela vó Maria (mãe da Viroca), com uma antiga vitrola dos pais das atuais diretoras, Lúcia e Inez Motta, tocando Luiz Gonzaga. A decoração era reaproveitada da festa junina do Piraquê, trazida por um amigo que trabalhava no clube. Depois, veio a dupla de músicos Mauro Menezes e Lu Maia, da Cia de Encenações Musicais, que anima as festas há mais de 30 anos no terraço da Escolinha. O evento é fechado e direcionado a alunos, ex-alunos e amigos do Tabladinho. Pai de Antonia, Clarice e Maria, que estudaram no Tabladinho, Guido Gelli declarou, em entrevista ao JB em Folhas e Histórias, que quando as meninas mudaram de escola, ele avisou que continuaria a frequentar o espaço, especialmente na festa junina.

A prática mais comum nas pré-escolas do bairro sempre foi celebrar nas ruas e praças, em festas abertas a qualquer pessoa. É o caso da Petit Comitê – antiga Andrews Baby, que de 1994 a 2019 montou seu arraial na praça Pio XI. Ano passado não teve, mas este ano, na primeira sexta-feira de julho, cada turma terá seu próprio horário para apresentar sua dança na pracinha, indo embora em seguida, levando um potinho de canjica para comer em casa.

– A gente saía da escola para a praça às 15h30 com as crianças fantasiadas, e os pais iam para lá ver a dancinha. Depois, todos voltavam para cá e ficavam até as 22h para curtir as brincadeiras e nossa famosa canjica. A festa era tão boa que ninguém queria ir embora – recorda Magda Bouças, fundadora da escola, que costumava acender uma fogueira na Abade Ramos e colocar cadeiras em volta.

Na rua Professor Saldanha, a animação fica por conta da Atchim. A creche-escola costumava fazer sua festa em sua própria casa, mas ficava apertado para reunir toda a “família” Atchim. Em 1972, aproveitaram o pouco movimento do final da rua sem saída para montar o arraiá, que, certa vez, chegou a trazer charretes da pracinha Xavier de Brito, na Tijuca, para compor a “mini-roça”, como descreveu Cristianne Mutzenbecher, sócia-diretora da Atchim.

Na mesma linha, o Jardim Escola Patotinha sempre celebrou São João na praça dos Jacarandás, com licença da prefeitura e todas as autorizações necessárias. Maria Helena Bumachar, diretora da escolinha, sempre gostou de organizar a festa e, em alguns anos, trouxe até cavalo com carroça para levar os noivos para o “casamento na roça”. As brincadeiras eram estendidas aos adultos, que gostavam de participar da Quadrilha dos Pais.

Quem mora no entorno da pracinha acaba participando da festa, como Ângela Tostes, cuja filha Joana (a noiva rosa abaixo) estudou lá no início dos anos 2.000. Até hoje, ao ouvir a música caipira, Ângela desce para comer cachorro quente. Já Daniela Pio, que foi da primeira turma da Patotinha há 40 anos, passou o carinho pela pré-escola para sua filha (ao centro, da foto 2), que estudou lá em 2011 e seguiu marcando encontro com as amigas na pracinha sempre que tem festa na Praça dos Jacarandás.

Patotinha fazia festa na praça dos Jacarandás.

2 comentários em “TRADIÇÃO JUNINA DO JB E DO HORTO

  1. Delícia de matéria. Revela o lado afetivo e culturalmente rico do Jardim Botânico. Solidariedade e criatividade nunca faltaram neste pedaço histórico do Rio(território universalista incrementado já estimuladi pelo genial animador D. João VI.

    Curtido por 1 pessoa

  2. As festas no largo das pedras são ótimas. Festa familiar com direito a todos os quitutes da festa junina!
    Quem vem, volta todos os anos!
    VIVA SÃO JOÃO!
    O HORTO FICA!!!

    Curtido por 1 pessoa

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