OS MUITOS PERCURSOS DE EMERSON DE SOUZA

Não tem quem não conheça Emerson de Souza no Horto. Neto da Tia Elza e do Seu João “Giba”, sobrinho da Emília e do Edson… Emerson nasceu, cresceu e continua vivendo no Horto, dedicando boa parte de sua vida à região, seja por meio da música, da história ou da política.

De fato, essas três vertentes se misturaram e forjaram a personalidade de Emerson, levando-o à presidência da Associação de Moradores do Horto em 2016. A função ocupa boa parte do seu tempo, especialmente nos últimos dias, após moradores dos núcleos do Caxinguelê, Margaridas, Grotão e vilas das ruas Pacheco Leão e Major Rubens Vaz terem acordado em 30 de junho, às 4 da manhã, com a presença de um forte aparato policial, escoltando oficiais de justiça designados a entregar cerca de 100 mandados de intimação e citação. Desde então, Emerson não teve mais descanso: fez reuniões, ajudou a organizar duas manifestações pelo direito à moradia e promoveu um plantão jurídico, que percorreu toda a região, para esclarecer dúvidas e orientar os moradores que acabaram recebendo os tais mandados.

A família de Emerson não é das mais antigas da região, mas lá se vão mais de 70 anos desde que seu avô João Batista de Souza – o Seu João “Giba” – veio trabalhar como bibliotecário e jardineiro no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Atualmente com 46 anos, Emerson considera que teve uma infância das mais ricas, com direito a descer a rua Pacheco Leão de carrinho de rolimã, jogar bola no campinho de futebol que havia no entorno do Solar da Imperatriz, comer fruta no pé e colocar o pé na mata:

– Quando saía mais cedo da escola, entrava no Jardim Botânico com os amigos e fazíamos corridas de folhas secas, com largada no aqueduto da Levada e chegada no laguinho mais próximo. Outra coisa de que gostava muito era brincar de Daniel Boone com os amigos na floresta – lembra ele, referindo-se à série de TV sobre um destemido desbravador do oeste americano.

Na adolescência, Emerson fez muitos amigos tocando, andando de bicicleta e, principalmente, jogando futebol: “Joguei muita bola no Colégio Divina Providência e nas praças Pio XI, do Condomínio Residencial da rua Pacheco Leão e do Alto Jardim Botânico [Praça Dag Hammarskjoeld], onde fui um dos responsáveis pela organização das festas juninas com meus amigos da Lopes Quintas”, pontua ele, que fez aula de capoeira na quadra do antigo bloco Força Jovem, mesmo lugar onde o Suvaco do Cristo fez seus primeiros ensaios. Ele conta que ali também havia a Casa do Caboclo Sete Flechas, muito procurado para abençoar a bateria antes de desfiles e grandes eventos: “Por isso, nossa bateria sempre foi nota 10!”, admite.

O interesse pela música foi uma coisa natural, já que o “Seu João” era músico, formado em trombone e tuba pelo Instituto Nacional de Música (atual Escola Nacional de Música da UFRJ), onde foi contemporâneo de Pixinguinha. As rodas de samba organizadas por sua avó Elza e pela tia Sílvia, a partir dos anos 1980, também foram muito importantes. Antes de ganhar fama com a feijoada, quando eram oferecidos apenas petiscos para acompanhar o samba, a casa era frequentada por Almir Guineto, Jovelina Pérola Negra e João Nogueira. Ainda menino, Emerson já gostava de tocar e tornou-se mascote dos eventos, chegando a dormir abraçado ao tantã.

Emerson estudou na Escola Municipal Camilo Castello Branco, cuja professora de música percebeu sua aptidão e o indicou para a Escola de Música Villa-Lobos aos 10/11 anos. Lá, completou sua iniciação musical e formou-se em percussão popular e erudita, além de ter feito aulas de instrumentos mais populares como pandeiro e tantã nas férias.

Com essa formação, a partir de 1998, Emerson começou a trabalhar na área cultural, produzindo feiras, eventos musicais, entre outras coisas. A natureza sempre teve esteve presente e, em paralelo, ele participou de diversas ações de replantio na área do rio Primatas, em parceria com o Parque Nacional de Tijuca. O trabalho durou dois anos e fazia parte do projeto da Trilha Transcarioca, cujas primeiras demarcações começavam a ser efetuadas.

– Na floresta, é importante estar sempre atento aonde pisa ou bota a mão. Nunca fui picado por cobra. Nosso maior medo era que caísse uma jaca nas nossas cabeças, mas eu nunca soube de ninguém que tenha morrido por picada ou jaca por aqui – atesta.

O músico está sempre atento a boas iniciativas para o Horto. Em 2003, ele fez uma parceria com Leo Fuks, morador do JB e diretor da orquestra Cyclophonica, para organizar oficinas de iniciação musical e construção de instrumentos para crianças, que contou com o apoio da AMAHOR:

– Esse foi um projeto que me deu bastante prazer em realizar, mesmo sem ganhar dinheiro algum. O Leo é um verdadeiro Professor Pardal da música e inventa instrumentos incríveis e diferentes maneiras de tocá-los – recorda-se.

Este foi o primeiro contato direto de Emerson com a associação de moradores, presidida na época por Emília, sua tia. De lá para cá, conheceu as pesquisadoras Maria Nilda Bizzo e Laura Olivieri, da ONG Ler & Agir, responsável pela criação da biblioteca comunitária do Horto. “O trabalho delas já visava o resgate da memória e da história do Horto Florestal e das famílias daqui, e eu acabei ajudando na identificação de personagens e seleção de histórias para o livro “Cacos de Memória””, conta Emerson.

Foi esse livro que serviu de base para a criação do Museu do Horto, cuja fundação ocorreu em 2010. O museu não tem sede física e funciona apenas como museu de percurso, uma vez que seu território segue em litígio. Emerson é um dos guias das trilhas, que não têm sido percorridas devido à pandemia: “O passeio inclui contato com moradores da região para que eles contem suas histórias e, por isso, está suspenso. Espero que até o final do ano a gente consiga retomar”, lamenta. Conhecer a história e personagens de sua vizinhança foi decisivo para aproximá-lo ainda mais das questões da AMAHOR:

– É incrível a diferença de discurso que enfrentamos. As famílias dos funcionários do Jardim Botânico ganharam o direito/permissão para morar aqui por diretores do parque; no entanto, nos tratam como invasores. Por outro lado, o condomínio Canto e Melo [com 18 casas no alto da rua João Borges] foi construído no meio da mata, em área federal, onde não é permitido nenhum tipo de construção, e teve seus direitos garantidos porque o juiz que julgou o caso deles entendeu que seria mais prejudicial ao meio ambiente demolir as mansões, do que simplesmente deixá-las lá – fala, indignado.

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