ENTREVISTA COM ANA LÚCIA SANTORO

Um dos principais cartões postais do Rio de Janeiro, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro continua sendo um dos pontos mais visitados na cidade, graças à sua imensa área verde e ao contexto de pandemia em que vivemos. Em entrevista ao JB em Folhas neste mês de julho de 2021, a atual presidente da instituição Ana Lúcia Santoro falou sobre a visitação do parque, as ações que vêm sendo feitas para promover a volta do público, as dificuldades administrativas e os desafios para tornar o Jardim ainda mais atraente. Ana Lúcia é formada em Ciências Biológicas pela UFRJ, tem mestrado e doutorado em Ecologia e, apesar de ter conhecimento sobre o trabalho de pesquisa do JBRJ, confessa que não tinha noção exata da grandiosidade dos estudos ali desenvolvidos.

– Estamos aproveitando esse momento em que tudo passou para o mundo digital para usar mais nossas redes sociais a fim de reforçar a importância do instituto de pesquisas Jardim Botânico, mostrando coisas que uma simples visita não alcança. Até porque a atuação dos pesquisadores não é só no parque situado no JB, mas em todos os biomas nacionais – pontua Ana Lúcia, que mesmo já tendo voltado ao trabalho presencial há mais de um ano e frequentando o JB com os filhos nos finais de semana, sempre descobre um cantinho “novo” nesse refúgio ao ar livre.

JB EM FOLHAS: Como a pandemia afetou a visitação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro? A frequência já foi normalizada?

ANA LÚCIA SANTORO: Ainda não. O índice pré-pandemia, que chegava a oito mil visitantes por final de semana, ainda não foi alcançado. Mas a visitação está boa. Quando reabrimos, não conseguíamos passar de duas mil pessoas por fim de semana. Com o fim do agendamento e com uma programação musical, tivemos um público de 6.500 em um final de semana de julho.

JBF: Quem está cuidando da programação cultural do JBRJ? Qual será a frequência desse tipo de eventos?

Quartetinho no Mirante da Imprensa

ALS: A ideia é fazer um evento desses por mês, aos sábados, visando atrair um público jovem, que não costuma frequentar o parque. A curadoria é do pessoal da área de visitação. O primeiro foi no Mirante da Imprensa, mas o objetivo é, a cada vez, fazer num local diferente. Mês que vem, vamos encaixar algo para o Dia dos Pais. [Contato para programação cultural no final da matéria]

JBF: Quando será reaberto o portão da Pacheco Leão, próximo à rua JB? Por que não se optou por reabrir esse portão, já que é mais acessível aos moradores?

ALS: Essa questão de acesso ao parque tem muito a ver com a organização da visitação. Isso interage com várias questões. Diante da pandemia, precisamos controlar o fluxo com uma entrada só. Com isso, tivemos uma economia muito grande, porque em cada entrada eu preciso ter um bilheteiro, um segurança e demais serviços relacionados à visitação, como centro de visitantes, loja de suvenir e guias mostrando diferentes experiências de visitação. O desafio orçamentário é grande, com gastos maiores e receita menor. Quanto mais entradas eu tenho, mais estrutura eu preciso colocar para isso. Eu preciso olhar para o visitante de maneira integral. Eu quero que, ao entrar, o visitante saiba o que vai encontrar lá dentro. Isso tudo é muito estratégico. No caso do portão histórico rosa, eu trouxe toda a infraestrutura do portão 1.008 para o número 920, mas manter várias entradas funcionando demanda um custo maior.

Isso já facilitou muito a entrada para quem vem pelo lado esquerdo. Aquele ponto em frente ao supermercado é uma demanda muito grande da Associação de Amigos do JBRJ, que pede a abertura do portão pelo menos para os associados. Aí como é que eu vou dizer que entra o associado, mas não os demais visitantes?

JBF: Você não acha que é preciso pensar no ponto de vista dos moradores do bairro e dos associados?

ALS: Ainda estamos estudando o que a gente vai fazer com aquela entrada. O Jardim Botânico sempre trabalhou muito com um público restrito. Agora a gente pensa que o Jardim Botânico é de todos. O ponto de ônibus não fica em frente ao 920, essa caminhada tem que ser feita por quem vem de Nilópolis ou por quem vem do bairro. A entrada está disponível para todas as pessoas.

JBF: Alguma novidade em espaços como o Teatro Tom Jobim e Solar da Imperatriz?

ALS: O Solar está fechado, mas a Escola Nacional de Botânica está funcionando remotamente, inclusive seus cursos de extensão. Já o teatro está muito degradado, muito deteriorado. Antes de eu chegar, houve um processo de licitação, mas “deu deserto”. Foi aberto um chamamento público para contribuições para esse processo, mas o alcance foi bastante restrito. Desde então a gente está tentando captar auxílio e patrocinador para construir um novo projeto/processo de licitação que tenha sucesso. Precisamos compreender quais foram os erros desse processo. Sabemos que foram feitas muitas exigências e muitas restrições – até de repertório e tipo de show –, atreladas a um investimento muito alto. O espaço tem um problema muito grande de acústica, e o investimento é muito grande. Já estamos conversando com algumas pessoas para construir algo que dê certo para aquele local.

JBF: E o Museu do Meio Ambiente, quando será reaberto?

ALS: O Museu não tem uma exposição fixa. As únicas coisas que já estão funcionando são a sala multimídia e o programa Educativo, coordenado por uma servidora concursada. O prédio, em si, já está aberto, mas o JBRJ não conta em seu quadro de servidores com uma museóloga. Na verdade, o JBRJ conta hoje com metade dos servidores que já teve, além de uma parcela enorme perto de se aposentar e, com a pandemia, muitos afastados seja por idade, seja por comorbidade. Estamos com uma força de trabalho muito reduzida, sem previsão de concurso. Já passamos para o Ministério da Economia a demanda para preencher os quadros vagos, que representa um número quase igual ao de cargos ocupados.

JBF: O que é está sendo feito para um melhor aproveitamento do Museu?

Para auxiliar na parte do museu, contratamos uma profissional para organizar toda a estruturação do que eu chamo de valorização do potencial histórico e cultural do JBRJ, cujos acervos botânico e histórico estão fragmentados, espalhados na instituição. Um exemplo é a Palma Mater, sempre citada pelos guias. Ela morreu atingida por um raio em 1976, mas nós temos guardado, em um contêiner refrigerado, um fragmento dela, na verdade uma casca. Seria muito bacana se os visitantes pudessem ter acesso a isso. Estamos trabalhando nesse acervo riquíssimo para não ficarmos dependentes de exposições externas. O JBRJ tem todo o potencial para ter uma exposição fixa. A área do museu é bem carente, mas eu espero ter novidades até o final do ano nessa área de acervo e exposições.

JBF: Sobre a programação, por que a escolha de um evento de moda para a reabertura do Museu do Meio Ambiente?

ALS: Isso ainda não foi fechado, está em discussão. Nada foi assinado. Trata-se de uma permissão de uso do museu, como fazemos em diversas outras áreas do JBRJ. Qualquer evento pode alugar o espaço. Se não for conflitante com a questão ambiental, eu não vejo problema. Para isso, existe uma portaria, anterior à minha administração, que prevê a permissão de uso dos espaços. A organizadora deve pagar pela cessão do espaço e isso entra para o nosso orçamento, tal como acontece com a feirinha do corredor cultural. Já uma exposição com fim cultural pode ser isenta da permissão de uso.

JBF: Isso quer dizer que qualquer pessoa pode “alugar” o espaço para um evento, mesmo que ele não tenha caráter científico ou ambiental?

ALS: Sim, estamos abertos a propostas. O importante é o Museu estar aberto. Para este ano, não há nenhuma outra proposta de ocupação do Museu, mas já estou recebendo demandas para exposições no ano que vem. O valor e condições da permissão de uso dos espaços podem ser consultados na portaria publicada no site do JBRJ. [Links no final da matéria]

JBF: A proposta de hotel-butique está em andamento?

ALS: Isso não existe. Nossa proposta é dinamizar o Museu, assim como todo o JBRJ. Não se transforma qualquer lugar em hotel-butique do dia pra noite, muito menos na administração pública. Não tem nenhum processo, documento ou encaminhamento nesse sentido, com esse objetivo.

JBF: Os moradores do Horto perceberam uma movimentação maior no entorno do Aqueduto da Levada recentemente. O que será construído ali?

ALS: O Aqueduto foi todo renovado e incluído na Trilha do Patrimônio. Em frente ao monumento tem uma área grande que faz parte de um projeto de expansão do Arboreto. Antes, havia um projeto em andamento para espécies ameaçadas de extinção da Mata Atlântica, mas isso não avançou. Foi construído apenas um banheiro enorme, que segue fechado porque os visitantes não vão até lá.

Contato para programação cultural:
presidencia@jbrj.gov.br ou ascom@jbrj.gov.br

Informações para permissão de uso dos espaços e patrocínio do JBRJ:
https://www.gov.br/pt-br/servicos/obter-permissao-de-uso-do-jardim-botanico-para-fims-comerciais-ou-institucionais
https://www.gov.br/jbrj/pt-br/acesso-a-informacao/convenios-e-transferencias/seja-um-patrocinador-do-jardim-botanico

4 comentários em “ENTREVISTA COM ANA LÚCIA SANTORO

  1. Absurdo manter o portão da Pacheco Leão fechado. Poderia abrir só para associados (e muitos se associariam só por isso), ou abrir para todos, e mais gente pagaria ingresso (uso tais argumentos já que essa senhora parece estar focada exclusivamente em retorno financeiro).

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  2. “Senhora presidente do Jardim Botânico
    Sou um exemplo de moradora e associada do Jardim. Moro aqui há 30 anos. Deixei de ser associada quando percebi que o portão de acesso da Pacheco Leão não vai mais abrir. Isto dificulta minha entrada no parque, que frequentei durante muitos e muitos anos. Compreendo que agora a prioridade é para os jovens, e já estou com quase 70 anos. Pegar uber para chegar à única entrada e outro para voltar para casa é muito caro. O governo está com pouco dinheiro (?), a população também, e empregar pessoas deveria ser prioridade para voltar a aumentar muito o número de visitantes​ e, logicamente, arrecadar muito mais. Restringir o acesso é restringir os trabalhadores do parque e o número de visitantes. Isto é elementar. Por favor reflita e repense, por gentileza e Amor. Muita Paz e sucesso. Boa noite!”

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  3. Pingback: NINGUÉM CONFIRMA CONTRATO PARA EVENTO NO MUSEU – JB em Folhas

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