ENTRE O PAI E O FILHO, AS CRÔNICAS DE LEO AVERSA

À primeira vista, Leo Aversa engana. Faz o tipo tímido, voz baixa, poucas palavras e muita observação. Mas aos poucos, vai se soltando, com um comentário irônico aqui, uma pitada de humor ali e um registro fotográfico acolá. Pronto, está ali o cronista que vem fazendo sucesso nas páginas de O Globo, às quartas-feiras. Foi ali que ele formou seu público – hoje beirando os 30 mil seguidores no Instagram –, que já se acostumou a ouvir os relatos sobre seu filho Martín (com Leo na foto), hoje com 11 anos. Um pouco desta doce vida selvagem acaba de ser reunida no livro “Crônicas de pai”, que chega às livrarias pela editora Intrínseca, em edição de luxo, com capa dura e ilustrações da artista Poeticamente Flor.

Com 53 anos, Aversa se formou pela UFRJ e trabalhou por 25 anos em O Globo, praticamente seu único emprego, após uma passagem de seis meses pelo extinto Jornal do Brasil. Como setorista do caderno de cultura do jornal, acabou se especializando em portraits (retratos) e fotografou a nata da cultura brasileira, de Paulinho da Viola a Felipe Neto, passando por Fernanda Torres, Moraes Moreira, Ney Matogrosso, Jards Macalé, Maria Bethânia, Marieta Severo e muitos outros. De alguns deles, tornou-se retratista pessoal. É o caso de Chico Buarque, Marisa Monte, Lulu Santos e Adriana Calcanhoto, de quem virou amigo e que assina o prefácio do livro. 

Seguindo um caminho pouco usual, o fotógrafo acabou se tornando cronista. Tudo começou em 2013, quando começou a rascunhar uns textos na sua página do Facebook sobre temas cotidianos.  “Rede social é assim, você começa fazendo umas frases, depois um parágrafo e logo está escrevendo vários textos. Como o pessoal foi curtindo, o Agostinho Vieira (editor do projeto jornalístico Colabora) me convidou para escrever no site e depois veio o Globo”, afirma Leo, que desde 2018 é colunista do jornal.

Ernesto Aversa e o neto Martín (foto: Leo Aversa)

O convite da editora serviu como oportunidade para Leo deixar um registro para Martín. A lembrança da infância acabou assumindo papel de homenagem ao pai, Ernesto Aversa, de 85 anos, que há nove vive com o Mal de Alzheimer e já não reconhece nem o filho, nem o neto.

– A doença do meu pai me mostrou como o tempo é precioso e passa rápido. E me fez pensar no futuro, que eu talvez possa não estar aqui para contar ou lembrar histórias para o filho que eu imaginei e, inclusive, escolhi o nome muitos anos antes de ele pensar em existir – explica o jornalista.

Para ele, o livro foi uma boa solução para reunir as crônicas para o Martín ler daqui a 30 anos. “Como uma garrafa no mar, um dia ele vai descobrir e relembrar tantas histórias boas”, reflete Leo, brincando que, para o pré-adolescente, neste momento, ele é apenas um velho dinossauro. Ao todo são 73 crônicas, que mesclam histórias com o filho e as próprias memórias de Leo com a família e especialmente com o pai. Com um texto irônico, e muitas vezes ácido, ele diverte quando fala da evolução do seu pequeno companheiro, tornando-se rebelde aos 11 anos, mas também mantendo a leveza da infância ao pedir que o pai procure no Google a verdade sobre Papai Noel, além dos conflitos tecnológicos e musicais.

– O Martín está aprendendo música e não está gostando. Por isso, outro dia pedi para o Lulu (Santos) gravar uma mensagem de incentivo, e ele me chamou a atenção de que Martín era de outra geração e ia acabar encontrando o caminho musical dele, talvez mais high tech e que eu deveria deixar rolar – lembra.

Em “Crônicas de pai”, Leo relembra a infância e momentos em que tinha o pai presente – e ciente. O primeiro café que visitaram juntos, o natal em família, as viagens e o tempo que passou e que fica registrado, como numa Rolleiflex.

Leo nasceu em Buenos Aires, mas veio aos três anos para o Brasil. Já no Rio de Janeiro, morou com os pais em Copacabana e depois, já sozinho, em Laranjeiras até pousar no Jardim Botânico, em 2002, onde passou por dois endereços antes do atual, no começo da rua JB, em que foi morar com a mulher Marcela Venturin, um pouco antes de Martín nascer.  O bairro foi escolhido especialmente pelo verde e pelo astral. O jornalista se sente seguro caminhando pelas ruas e acha que a violência aqui ainda é pouca, se comparada ao resto da cidade, mesmo com o aumento de moradores de rua. “Aqui não tem aquela vibe de outras regiões, em que você se sente incomodado em circular à noite”, atesta.

Leo na Janela Livraria (foto: Chris Martins)

Como morador, ele faz tudo a pé, em seu próprio quarteirão. As compras são no Crismar e no Hortifrutti, sendo seu principal reduto a rua Maria Angélica, onde estão outros dois pontos vitais para sua sobrevivência no bairro: a livraria Janela e o Bar Rebouças. Ali pertinho, ainda tem a novidade da Slow Bakery, que Leo já frequentava em Botafogo e onde bate ponto semanalmente.  O único senão do estabelecimento fica por conta da embalagem, que, na opinião do cronitsta, precisa melhorar: “Já fiz um discurso saudosista dentro da loja, mostrando no celular as antigas sacolas da Casas da Banha, para ver se eles fazem uma alça pelo menos”, brinca.

Apesar de ser bom observador, Leo não tem como hábito passar a tarde acompanhando o movimento das pessoas na rua para escrever suas crônicas. E nem é de sair clicando pelas ruas do bairro, salvo algumas exceções, como fez na primeira manifestação #forabolsonaro, quando registrou duas pessoas caminhando pela calçada do Parque Lage. O que mais o encanta são os personagens que o JB tem de sobra e que, muitas vezes, estão concentrados numa mesma mesa de bar. “Estes caras históricos do bairro são maravilhosos, o Rebouças é uma instituição. Tem gente que lê a coluna e acha que eu moro lá, mas, na verdade, eu vou pouco. O charme do boteco é que ele é de morador”, afirma Leo.

Flagrante de moradoras após mannifestação #ForaBolsonaro (foto: Leo Aversa)

Passear pelo Parque Lage com Marcela e Martín é um dos seus programas favoritos. E também cenário para muitos dos ensaios fotográficos que já fez com artistas.  “Eu estudei na EAV, tenho um carinho pelo lugar e lembranças de bons shows. Assisti, uma vez, Jards Macalé no Lago dos Patos e foi maravilhoso”, lembra ele, que emenda com a história de uma foto do compositor para o seu último álbum “Besta Fera”, feita na rua, na parte alta da Maria Angélica.

– Saímos eu, ele e o Cafí para essa sessão de fotos, que ficou na memória, não só pelo Macalé, que cismou de ser fotografado nu no meio da rua, mas também por conta de ter sido último trabalho do Cafí, que eu admirava como profissional. Foi uma aula! – diz ele, lembrando do amigo que morreu de infarto uma semana depois, nas primeiras horas de 2019.

Na sua rotina diária está o Clube Militar, onde a família pratica esportes. Martín faz natação e futebol, integrando a equipe do Chutebol desde os cinco anos. “O projeto é de inclusão, eles ensinam a garotada a passar a bola e pensar no coletivo para ter um bom resultado”, avisa Leo, que fazia natação, mas, com o frio, trocou as braçadas na piscina por pedaladas na Lagoa.

A pandemia causou estranheza no começo, mas logo o fotógrafo se adaptou e retomou o trabalho. O isolamento gerou uns quilinhos a mais, por conta da ansiedade, que ele tentou banir fazendo circuitos de caminhadas pelas ruas do bairro.  O novo endereço profissional, alugado semanas antes do mundo parar, em março de 2020, acabou virando uma ótima opção, por ser aberto e arejado.

– Eu estava procurando um lugar para montar o meu estúdio e, especialmente, para escrever minha coluna. Foi quando o Batman Zavareze me avisou que tinha uma sala disponível no coworking que ele alugava, na Gávea. Tem sido bom, pois é tranquilo e não tem nenhuma padaria por perto. Além disso, todos se conhecem e têm atividades correlatas. Agora mesmo fui convidado pelo Lulu para dirigir um clipe e chamei o Batman para fazer comigo – revela o fotógrafo, que costuma se deslocar de um bairro ao outro em sua scooter.

O trânsito, aliás, ao contrário do que acontece com outros moradores do JB, não incomoda Leo Aversa. Já os sinais… Um dos que mais o irrita é o do cruzamento das ruas Oliveira Rocha e Jardim Botânico. “As pessoas não entendem o que significa a cor amarela. Mas acredito que, se a Prefeitura colocar um guarda ali multando, vai resolver o problema de receita no Município. Vai ter uma multa atrás da outra”, conclui, com uma pitada do humor ácido que tanto encanta em suas crônicas.

*Por Chris Martins

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