LUCIENE CARRIS É NARRADORA E PERSONAGEM DE HISTÓRIAS DO JB

Um bairro sem casas, só com arranha-céus. Assim a historiadora Luciene Carris, autora do livro “Histórias do Jardim Botânico – Um recanto proletário na zona sul carioca (1884-1962)”, imagina o Jardim Botânico daqui a 100 anos. Recém-lançado pela editora Telha, a publicação relaciona a história do bairro com a de alguns personagens que aqui viveram – ou vivem, como a autora. Luciene é a convidada da próxima live JB em Folhas e Histórias, na quinta-feira, dia 26 de agosto, às 19h, no canal do JB em Folhas no YouTube.

Luciene veio morar no Jardim Botânico aos 4 anos, quando seu pai foi contratado como zelador de um prédio na principal via do bairro. Ela estudou nas escolas públicas da região William Shakespeare e Camilo Castelo Branco e viu de perto o crescimento da TV Globo:

– Antes da mudança dos estúdios da TV para a Zona Oeste, os artistas circulavam muito por aqui. A síndica do prédio em que eu morava era tia da Susana Vieira. Além disso, a Yoná Magalhães e a Cláudia Raia faziam aula de pilates com a Dona Magda [Zago], no edifício ao lado – recorda-se ela, que, depois da rua Jardim Botânico, morou na rua Barão de Oliveira Castro, no Horto, e, atualmente, vive no Condomínio Parque Residencial Jardim Botânico, na rua Pacheco Leão.

Luciene e o filho Gabriel (acervo pessoal)

Luciene é Mestre e Doutora em História pela UERJ. Sua tese de doutorado foi publicada em 2013, com o título “O lugar da geografia brasileira: a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro entre 1883-1945”. Já seu segundo livro teve origem numa questão familiar, motivada pelo desejo de conhecer a história da família Carris – Carrii no idioma original – de seu primeiro marido. Seu Basílio era bisavô de Gabriel, filho de Luciene, que embora se autodeclarasse italiano, nasceu no Brasil. Sua família emigrou da Toscana no fim do século XIX e, após uma rápida passagem por uma fazenda de café na região de Juiz de Fora, instalou-se na área então chamada de Freguesia da Gávea. Aos 11 anos, Basílio ingressou como aprendiz no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e lá trabalhou até sua aposentadoria.

A história da família acabou sendo transformada em capítulo de um projeto maior, o livro “Histórias do Jardim Botânico – Um recanto proletário na zona sul carioca (1884-1962)”. A publicação conta com outros cinco capítulos, em que a autora buscou diferentes pontos de vista para contar a história do bairro, mostrando-o como “pequeno subúrbio”, colônia italiana e o tempo das fábricas, considerando a modificação da paisagem que elas provocaram e os conflitos operários. A história por trás dos nomes das ruas e monumentos e outras curiosidades também fazem parte da obra.

Durante a pesquisa, Luciene se surpreendeu com a existência de uma fábrica de tecidos na rua Jardim Botânico, próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas. “Aquele registro da Fábrica Corcovado, feita pelo fotógrafo Marc Ferrez, me incomodou e tive que investigar um pouco mais”, conta. Outro ponto que chamou a atenção foi o apagamento da figura do músico Haroldo Lobo da história do bairro. Ele chegou a trabalhar na fábrica de tecidos Carioca e compôs inúmeras marchinhas de carnaval até hoje cantadas em blocos e bailes: “Incrível não ter nenhuma homenagem a ele na região, nem nome de rua, nada”, constata.

A questão fundiária do Horto ficou de fora do recorte escolhido para esse livro. Luciene considera o assunto vasto e polêmico, além de já ter sido explorado por ela no documentário “Recanto”, de pouco mais de meia hora, que reúne depoimentos de moradores do Horto. O vídeo foi produzido em 2019 a partir de entrevistas e material de sua pesquisa e está disponível no canal Entreconexões, no YouTube, do qual é uma das idealizadoras.

Acostumada a revisitar o passado e a acompanhar a marcha dos acontecimentos, a moradora ainda se surpreende com a investida de fortes interesses financeiros, capazes de promover mudanças nas leis de zoneamento da cidade e permitir a construção de grandes empreendimentos em áreas ainda verdes. Um exemplo é o IMPA, cuja obra – apesar do apelo científico e educacional – tem extrapolado o terreno, ocupando a rua Barão de Oliveira Castro com seus caminhões e impossibilitando o estacionamento dos carros dos moradores.

Luciene e Armando Ascenção

Na vida pessoal, Luciene valoriza o contato com a natureza e, sempre que pode, faz uma caminhada na Lagoa e no Parque Lage: “O Jardim Botânico é muito caro para os moradores!”. A Floresta da Tijuca exerce uma atração especial na historiadora, que costumava subir correndo a Estrada Dona Castorina até a Vista Chinesa: “Machuquei o joelho há seis meses e tive que parar de correr, ainda mais em terrenos inclinados”, lamenta.

– Um dos meus programas favoritos aqui é conversar com o Armando Ascenção, da padaria Século XX. Ele é muito agregador, sempre cheio de histórias para contar – destaca ela, que, para desgosto do amigo, diz gostar também do pão do supermercado Zona Sul.

O apreço pelas coisas simples está presente no dia a dia de Luciene, como ir à feira da Abreu Fialho às quartas de manhã, admirar um grupo de senhores jogando cartas na calçada e passear pelas ruas do Horto, apreciando as casas da antiga Vila Sauer – da rua Alberto Ribeiro à Estela –, que mostram a influência da arquitetura italiana e europeia do bairro. Para Luciene, esse clima de subúrbio em plena Zona Sul confere um charme especial ao Horto, que ela não gostaria de ver acabar.

– Vejo que essa origem italiana do bairro vem sendo apagada. Ainda hoje é possível observar os sobrenomes de descendentes e de antigos operários quando conversamos com um ou outro morador. Os próprios descendentes da família Carris não mantiveram vínculos com esses imigrantes que desafiaram o Oceano Atlântico – observa.

Como pontos negativos, Luciene constata que a escassez de ônibus e outros tipos de transporte sempre existiu. Sua maior preocupação agora é com a segurança: “Não fui vítima de nenhum assalto, mas tenho ouvido relatos de casos no entorno da Pacheco Leão, especialmente à noite”, alerta.

No comércio, ela sente falta de estabelecimentos populares e tradicionais, como uma loja de secos & molhados, outra com produtos direto da granja e um açougue. Em sua opinião, esse tipo de comércio virou luxo: “Eu me lembro muito da Casa Touro, vizinha do prédio em que morei na infância, que era chamado de Pinguim. Naquela época, os caminhões paravam na porta para descarregar os grandes pedaços de carne e enchiam a rua com o cheiro forte da mercadoria”.

Com tantas memórias coletivas e afetivas sendo apagadas na cidade, resta torcer para que a previsão de Luciene quanto ao futuro do bairro esteja errada e não passe de uma interpretação da menina que viu o prédio de sua infância ir a baixo, dando lugar a um desses prédios comerciais, de vidro escuro e poucas recordações.

– Quando vi o prédio novo, senti um vazio. Tem um lado triste em acompanhar o progresso no bairro e ver um pouco da nossa história sendo demolida também. Por isso, esses registros em livros são importantes – atesta Luciane.

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