ARTE COMO FORMA DE RESISTÊNCIA

Apesar da guerra à cultura declarada pelo governo federal, a arte resiste firme e forte na região que vai da Gávea ao Humaitá, passando pelo Horto e parte da Lagoa. Com a presença de artistas, obras, galerias, cursos, consultorias, o que se vê por aqui nada tem a ver com desmonte e nem mesmo a pandemia foi capaz de enfraquecer.

Um dos principais focos de resistência é a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, que neste segundo semestre convoca seus alunos e professores a um exercício de imaginação coletiva: acreditar na arte como ferramenta para interpretar, elaborar e reconstruir mundos. Com cerca de 50 cursos remotos e presenciais e 40 professores, a EAV está mais viva do que nunca.

– Nosso último ano serviu não apenas para remodelar estratégias pedagógicas, mas também para compreender que juntos podemos exercitar outras perspectivas, mais interessantes, para tudo aquilo que criamos e enxergamos com alunos em todos os estados do Brasil e até mesmo fora dele – observa Ulisses Carrilho, curador da escola, que encara as aulas on-line como uma possibilidade de ampliar a diversidade cultural.

Ao adotar o formato on-line, a escola priorizou aulas síncronas, por acreditar que as trocas são uma parte importante do processo de aprendizado e experimentação: “Quando veio a pandemia, adotamos de imediato esse formato de aulas sem saber até aonde essa reestruturação nos levaria. Hoje, a EAV tem alunos em 24 estados brasileiros e oito países: Argentina, Espanha, Holanda, Itália, México, Estados Unidos, Portugal e Reino Unido. Esse crescimento foi, na verdade, uma ampliação de fronteiras, uma democratização de acesso que enriquece muito as discussões nas salas de aula”, afirma Yole Mendonça, Diretora da escola.

Por ironia do destino, Joana Amora, que é vizinha do Parque Lage desde que nasceu, há 22 anos, passou a se envolver mais com a EAV quando ficou isolada em casa. Ela é estudante de Belas Artes da UFRJ e chegou a ser monitora por um dia do curso do artista visual Xico Chaves, conhecido no JB por suas composições efêmeras, feitas a partir de folhas, sementes e outros itens da natureza que encontra pelo caminho. Foi ele quem fotografou Joana trabalhando nas ruas perto de sua “casateliê”. As aulas do Xico foram interrompidas pela pandemia, mas Joana acabou aproveitando a quarentena para fazer vários cursos da escola mesmo à distância, como “Tópicos de Curadoria e Montagem de Eventos de Arte”, com Fernando Cocchiarale e Ivan Pascarelli, e “Ao sentir Cheiro de Floresta”, de Mariana Manhães, de quem é monitora atualmente.

Joana pela lente de Xico Chaves

As aulas a ajudaram a vislumbrar o desenvolvimento de sua carreira artística, tanto no que se refere aos temas e técnicas como para mostrar o quanto é complexa toda a estrutura necessária para se firmar no mercado. O resultado pode ser visto na sua produção artística, à venda em seu perfil do Instagram. Com caminho aberto, Joana tem vendido, em média quatro obras por mês, com valores que vão de R$ 200 a R$ 700.

– No início do ano, comecei a comercializar cianotipias, que costumo chamar de “pintura que faz fotossíntese”. O processo é como uma fotografia em tons azuis, revelada com o sol, unindo arte, ciência e agroecologia, três temas que muito me interessam – explica Joana, que se define como artista-jardineira, cientista, botânica e curiosa.

Uma das cianotopias de Joana Amora

– No início do ano, comecei a comercializar cianotipias, que costumo chamar de “pintura que faz fotossíntese”. O processo é como uma fotografia em tons azuis, revelada com o sol, unindo arte, ciência e agroecologia, três temas que muito me interessam – explica Joana, que se define como artista-jardineira, cientista, botânica e curiosa.

Na opinião de Christiane Laclau, consultora de arte e fundadora da Artmotiv, é fundamental que o artista tenha consistência e autenticidade, mas é difícil garantir se este ou aquele terá uma carreira bem-sucedida a longo prazo: “É imprevisível. Ele pode desistir de sua carreira ou optar pela popularização de seus trabalhos. O importante é avaliar a consistência do artista e se ele tem condições de se estabelecer”, pontua.

Laclau tem pós-graduação em Crítica e Curadoria de Arte pela EAV – Cândido Mendes e viu seu curso de arte triplicar de tamanho com a passagem para o formato on-line. O curso é contínuo e desde que foi criado, há seis anos, nunca repetiu tema. Em setembro, começam as aulas de “Desenho Contemporâneo” e, em outubro/novembro, está programado o módulo “Moda e Arte Contemporânea”. Em paralelo, ela trabalha como curadora de exposições e consultora para aquisição de obras, como faz na ArtRio, em que promove visitas guiadas ao evento – presenciais ou on-line – para possíveis compradores: “Já estou com uma visita remota agendada para uma cliente do interior de São Paulo. Eu percorro a feira, mando fotos e informações sobre as obras e os artistas, podendo ou não resultar em compra”, avisa.

Uma das funções da arte é a provocação, e o grafite está sempre a postos nas ruas da cidade. Philippe Gebara – mais conhecido como Bili Gebara – foi um dos pioneiros no Rio de Janeiro. Em 1988, pintou o muro da casa de sua avó, em Ipanema, e virou referência no segmento. Apesar de ter trabalhos por toda a parte, Bili não tem agente nem pertence a um coletivo – fez parte da Flesh Beck Crew, quando voltou de Nova York, onde estudou Belas Artes. Na época, ele vinha se interessando por esculturas, sobretudo as interativas, mas acabou abandonando o curso após o ataque às Torres Gêmeas, em 2001. O exemplo mais famoso de sua série “Cubotopia” é a escultura semelhante a um trepa-trepa, feita para a ArtRua 2013 e instalada em seguida no entroncamento da rua dos Oitis com José Roberto Macedo Soares, no Baixo Gávea, servindo de brincadeira para crianças e cenografia para fotos.

Morador do Jardim Botânico, ele segue espalhando suas obras pela região, nem todas, porém, tem a mesma durabilidade. Ele pintou os muros do CAp da UFRJ, na rua Lineu de Paula Machado (2018), e sua obra na fachada da Hípica destaca-se bem na esquina da rua Oliveira Rocha (2019). Seu mais recente trabalho, que contou com a ajuda de crianças e moradores, foi colorir o portão do Mercado Afonso Celso, do qual é vizinho. Talentoso e com tantos trabalhos espalhados por aí, ele reconhece que a opção por seguir independente o afastou do mercado, apesar dos anos de treinamento, investimento e experiência.

Bili Gebara e o portão do Mercado Afonso Celso


– Dá para viver de arte, mas com quatro filhos é mais complicado. O mercado de arte existe, mas ainda é muito difícil fazer parte dele. Estou pagando o preço por não assinar minhas obras – diz ele, que voltou a tatuar e já pensou em virar motorista de Uber.

Bili sente a arte como uma necessidade urgente e segue recebendo encomendas para novos trabalhos: “A função da arte é tocar, trazer emoção. Sem ela, a pandemia seria um pandemônio”. O mesmo pensa a artista visual e educadora Elizabeth Rocha. Recentemente, ela participou da mostra “A Casa de Quem Cria”, no Atelier Fernando Jaeger, que já desencadeou novos convites para a artista. Além de seu trabalho autoral, Beth criou o Cedro da Gávea Ateliê, um lugar para desenvolver habilidades plásticas e potencialidades. A casa oferece aulas on-line ou presenciais para grupos de quatro a cinco adultos ou crianças.

– Eu adoro dar aula, tenho 12 turmas, de segunda a quinta, com alunos de níveis diferentes, dos iniciantes àqueles que já têm um trabalho mais estruturado. O objetivo comum é que cada um encontre seu “assunto/tema” favorito, de acordo com suas preferências. A escola fornece o material e oferece inúmeras referências em livros, na internet ou no próprio mural do ateliê – explica.

Beth Rocha, do Cedro da Gávea Ateliê

A Gávea vem se firmando como celeiro artístico. Além do Cedro, a artista Rita Wainer montou no bairro o seu ateliê, onde vende suas últimas criações, entre pinturas, aquarelas e lambe-lambes.  Marina Ribas, escultora, designer e fotógrafa, também encontra inspiração para seu trabalho na Gávea. No ano passado, ela criou a Galeria Paralela, voltada para a divulgação de produções femininas, como as da também atriz Carolina Kasting. O ateliê de Carolina fica na Casa Voa, que abriga ainda Antonio Bokel, Clarice Rosadas, Maria Flexa, Marcelo Macedo e Mateu Velasco, além dos residentes Sofia Seda e o argentino Lulo Chaumont. Situado na rua Marquês de São Vicente, o espaço ainda conta com uma lojinha, que vende camisetas e aquarelas dos artistas para ajudam a pagar as despesas coletivas.

– Começamos com a proposta de ter um espaço para cada um criar o seu trabalho, mas, a partir do encontro Conversa Voa, vimos o quanto essas conversas eram enriquecedoras para outros artistas e abrimos o leque com workshops, debates, cursos e residências – explica Clarice que, na divisão de tarefas, cuida das redes sociais.

A primeira exposição coletiva da Casa Voa decolou no último dia 28, no Oásis (rua Buenos Aires 168), no Centro. “Coisas que vem do alto” segue em cartaz até 12/9, com visita guiada no próximo sábado, dia 4, às 16h.  Quem quiser conhecer o espaço de criação da Gávea, pode agendar, por e-mail ou pelo Instagram, entre os dias 8 e 12/9, quando a Casa participa do Ateliê de Portas Abertas, durante a ArtRio.

Artmotiv

https://artmotiv.com.br/

Bili Gebara

https://www.instagram.com/biligebara/

Casa Voa

https://www.instagram.com/casavoa/

Agendamento: contatocasavoa@gmail.com

Cedro da Gávea

http://cedrodagavea.com.br/

Escola de Artes Visuais do Parque Lage

http://eavparquelage.rj.gov.br/cursos/nucleos/

Joana Amora

https://docs.google.com/presentation/d/1lpa1StOpZg_pyFL63NDDHfyFIlq21gGaZg02zAmo6cM/edit?usp=sharing

Marina Ribas

https://www.instagram.com/marinaribas.mr/

Rita Weiner https://www.instagram.com/ritawainer/

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