JARDINS FLORIDOS ANUNCIAM A PRIMAVERA

A preocupação dos moradores com canteiros e jardins está em alta, seja por questões ecológicas (para sombreamento, permeabilidade do solo e diminuição de temperatura) ou de mero embelezamento. Afinal, como dizia o poetinha, beleza é fundamental e não há pecado em querer viver cercado por ela. O JB em Folhas fez um tour pela região e destaca os pontos altos para os amantes das flores conferirem nessa época. Os parques Lage, da Cidade e Jardim Botânico, obviamente, são hors concours e ficaram de fora.

Mantidos por jardineiros ou mesmo porteiros, muitos canteiros à frente dos prédios destacam-se por seus colorido e exuberância. Um bom exemplo é a rua J. Carlos, que, logo no começo, ostenta canteiros coloridos e floridos. A responsável ali é Ana Maria Dal Monte, moradora da Gávea e paisagista há 40 anos. Em 2012, ela venceu o concurso Rio + Florido na categoria Canteiro Médio, no prédio de Lenny Niemeyer, na Lagoa, além de ter ficado com o terceiro lugar entre os canteiros grandes, com o jardim que ela fez para a sede náutica do Vasco, na Borges de Medeiros. Ana Maria trabalha com a filha e uma equipe de jardineiros, chegando a fazer oito manutenções por dia, além de executar projetos, reformar e prestar assessoria técnica:

– No Jardim Botânico, há muitas áreas de sombra. Para meus clientes da J. Carlos, que possuem espaços pequenos, optei por antúrios, espatifilos (também conhecidos como lírios da paz) e alpineas – indica a paisagista, que há cerca de 10 anos plantou três espirradeiras em frente ao Shopping da Gávea, entre as ruas Marquês de São Vicente e Artur Araripe. (foto)

Só mesmo num bairro chamado Jardim Botânico para encontrar um segurança-jardineiro. Adilson Fagundes trabalha há cerca de quatro anos na esquina das ruas Araucária e Maria Angélica, mas somente em março deste ano conseguiu uma cabine para se abrigar da chuva e do sereno. O segurança sempre gostou de cuidar de plantas e pediu autorização à síndica do 741 da rua Maria Angélica para construir um canteiro no local. A fim de evitar problemas com a Prefeitura, Júlia Serrano sugeriu a instalação de vasos ao lado da cabine, que, apesar de camuflada, vem chamando a atenção de quem passa por lá: “Ele pediu um espacinho e logo tomou conta do pedaço”, brinca a síndica.

– Aqui não havia nada. Eu é que comecei a colocar os vasos que compro ou ganho. Os moradores gostaram e alguns deixam suas plantas para eu cuidar porque estão morrendo em seus apartamentos. Eu troco as plantas para vasos maiores, adubo a terra com cascas de banana e de ovo, e fico feliz em vê-las renascendo – explica Adilson, que já foi chamado para assumir os cuidados de jardins, um na vizinhança e outro em Laranjeiras.

A cabine de Adilson camuflada.

Na Fonte da Saudade, há inúmeros exemplos floridos, como a frente do prédio 141 da rua Baronesa de Poconé, que recebe os cuidados especiais de um jardineiro para manter coqueiros cercados por ixorias. Outros destaques são as ipomeas roxas que caem sobre o muro na esquina da rua Sacopã, em frente ao ponto de táxi, e o canteiro da entrada do prédio número 10, da rua Carvalho de Azevedo, ao lado do restaurante Urukum, sempre florido.

Um sinal de que a primavera está chegando é a floração dos exemplares de jasmim manga, que decoram a aridez da entrada do túnel Rebouças, e das orquídeas. Uma coisa que virou febre em todo o Rio de Janeiro é a fixação das mesmas nas árvores. Em geral, são os próprios porteiros, que acabam fazendo isso. É o caso do Seu Antônio, do número 10, da rua Mário Pederneiras, que se aposenta no final de 2021, após 41 anos de trabalho: “Eu cuido das flores porque os moradores merecem”, diz ele comovido.


– A portaria do meu prédio é a coisa mais linda, cheia de orquídeas, plantadas e cuidadas com carinho pelo Seu Antônio – atesta a jornalista Elizabeth Capobianco, que fez questão de fotografá-lo com as orquídeas.

Neste quesito, a praça do Tablado se destaca. Há cerca de seis anos, o dono do Kiosque das Orquídeas, Valdeci Gonçalves, começou a fixar as flores nas árvores da pracinha. “Já prendi mais de 200 por aqui. Quando as orquídeas florescerem, o lugar fica lindo”, acredita ele, que trabalha em família vendendo e alugando flores para moradores, escritórios e estabelecimentos comerciais.

Vender flores parece até ser contagiante, basta ver o entorno das unidades do supermercado Zona Sul, sempre floridos. As orquídeas são mesmo especiais, assim como o Calil, que tinha uma banca na Lopes Quintas e era muito querido entre os moradores. Após seu falecimento em abril deste ano, as 20 orquídeas que não haviam sido vendidas foram arrematadas por antigos clientes, que não as levaram para casa. As flores foram fixadas na árvore ao lado da banca em homenagem à querida figura do bairro.

O período de seca enfrentado por todo o país também é sentido na região. Além da hidratação de pessoas e animais, é preciso atentar à vegetação. No JB, desde 2016, surgiram ideias simples e criativas para resolver a questão. O designer Pedro Pellegrini é um dos mais atuantes. Primeiro, ele criou uma campanha de mobilização dos moradores para regar mudas de plantas, deixando um balde no estacionamento do banco Itaú e convocando os vizinhos para o revezamento da ação. Outra iniciativa que Pedro ajudou a realizar é o triciclo-regador, com reservatório, bomba de água e bateria, desenvolvido em parceria com Heitor Wegmann. O veículo fica estacionado na Igreja de São José, mas não tem sido muito usado ultimamente.


– Durante a pandemia, o triciclo ficou praticamente parado. Era muito usado para regar as flores do borboletário, plantadas na orla da Lagoa. Infelizmente, furtaram praticamente todas, as pessoas arrancam pra levar pra casa – constatou Heitor.

A ideia do cuidado coletivo fez sucesso e brotou em outros pontos do bairro, como na praça Pio XI, cujas plantas e flores contam com a atenção do paisagista Júlio Pitanguy:

– Eu fico observando e, quando vejo alguma em sofrimento, vou lá e dou uma regada. Seria muito bom se mais moradores e porteiros se revezassem para isso. Se cada um fizesse um pouco, a Pio XI ficaria mais bonita – garante o paisagista, que chama a atenção para o ipê rosa, bem em frente à escada, que, segundo ele, “quando floresce, é um escândalo”.

A mesma opinião é compartilhada por Célio Rodrigues, que desde que foi trabalhar no número 70 da praça Pio XI, há 24 anos, começou a cuidar dos dois canteiros que ficam em frente ao prédio: “É uma pena esta praça tão bonita com estes canteiros malcuidados e com suas grades arrancadas. As plantas não merecem!”, exclama, indignado.

O próprio Célio costuma ir ao mercado municipal CADEG comprar mudas e terra para sua casa, como o pé de limão galego e uma palmeirinha, que apesenta orgulhoso: “Eu plantei, olha como está grande”. O porteiro vê no filho Rafael, de 7 anos o mesmo gosto pela natureza. Rafinha ajuda o pai a regar duas ou três vezes por semana e manda logo o recado:

– O oxigênio vem das árvores. Se cortarem elas, a gente não vai conseguir respirar – ensina, enquanto rega.

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