AS MEMÓRIAS AFETIVAS DE MARIA HELENA

A relação da psicanalista Maria Helena Alves Pereira (foto: Chris Martins) com o Jardim Botânico é antiga e afetiva. Ainda na adolescência, sempre que passava de ônibus pela principal via do bairro e sentia o “cheiro maravilhoso” da mata, pensava: “Eu ainda vou morar aqui”. A menina já sabia o que queria e, quando se casou, em 1959, fez questão de escolher um cantinho por aqui.

Seu primeiro endereço no JB foi na rua Pacheco Leão. Ela e o marido ainda eram estudantes e transformaram o lugar em ponto de encontro dos amigos, que lá se reuniam todos os domingos para animadas confraternizações. Foram dois anos de felicidade. Lá nasceu o filho do casal, o fotógrafo Vantoen Pereira Jr. Logo depois do primeiro aniversário do garoto, porém, o proprietário requisitou a casa para sua filha, que acabara de se casar. Maria Helena lembra-se que ficou revoltada e decidiu que só sairia de lá para um apartamento próprio. “Lutei para comprar para nunca mais ser “despejada” da minha casa”, recorda-se.

A mudança, porém, não acabou com o estilo de vida social do casal. A rua Maria Angélica respirava cultura, com inúmeros músicos, artistas e cineastas. Não demorou para que o apartamento de Maria Helena virasse novamente ponto de encontro, não de universitários desta vez, mas de uma vizinhança ativa e criativa.

📷Foto: Acervo pessoal

– Aqui moravam os irmãos Farias [o diretor Roberto e o ator Reginaldo], Marília Carneiro [figurinista], Norma Bengell [atriz], Roberto Bonfim [ator], Geraldinho Carneiro [poeta e dramaturgo]. Todos eles frequentaram meu apartamento e vinham atrás do tempero da Dona Rita, minha mãe – lembra Maria Helena, que tem orgulho de, na época, ser apontada como a mulher mais elegante da rua, e isso, dito por outras mulheres, não é pouca coisa, não!

Naquele tempo, a Maria Angélica era uma festa. De todos os ritmos! No meio do ano, um trecho da rua era fechado para os festejos juninos e todo mundo se vestia a caráter. No final do ano, começava o agito do Suvaco do Cristo. Maria Helena acompanhou o surgimento do bloco, mas não tomava parte, ficava de longe, pensando que “tinha que botar umas pretas rebolando aqui no Suvaco”.

A observação da psicanalista nada tem de crítica ou preconceito, é apenas constatação. Ela acompanhou de perto a carreira do irmão, o ator e diretor de cinema Zózimo Bulbul (1937-2013), um dos maiores expoentes da cinematografia afro brasileira nos anos 1960 e 1970, que acaba de ser homenageado na 14ª edição do Encontro de Cinema Negro. Os dois conviveram bastante, e ela destaca a importância da questão racial na carreira da Zózimo, sempre mostrando o negro enquanto pessoa: “não aquele que serve, mas aquele que se impõe”, afirma.

Maria Helena entre o filho, os três netos, cunhada e o irmão Zózimo Bulbul (sentado) 📷 Acervo pessoal

Atravessando a rua Jardim Botânico, os programas favoritos de Maria Helena eram assistir a shows no Mistura Fina, quando ele ainda ficava na esquina da Maria Angélica com a avenida Borges de Medeiros. No caminho, uma parada obrigatória era a tabacaria, que ficava onde hoje está a Pizzaria Capricciosa. Para comer, tinha o Quadrifoglio, o Fazendola e a Adega do Porto, “que tinha uma comida portuguesa maravilhosa”. A sobremesa na rua ou em casa eram os doces e tortas da Dona Isaura, cozinheira da Ondinha: “Quando a loja fechou, trouxe-a para trabalhar para mim. Hoje é a filha dela que está comigo, mas não tem o mesmo talento culinário da mãe. Cozinha apenas o trivial”, admite ela, que chegou a frequentar a Feira da Providência e o Tivoli Parque, quando eles ainda funcionavam na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Dos tempos idos, ela se lembra bem das apresentações de teatro, dança e música que aconteciam no Parque Lage, especialmente um de Tim Maia, quando até os policiais chamados para controlar o volume do som preferiram curtir a apresentação. Cultura sempre falou alto na vida de Maria Helena, que, além de música, gosta de cinema, teatro e literatura. Frequentou O Tablado e a livraria Ponte de Tábuas, mas não chegou a conhecer o Cine Jussara, que funcionou entre 1960 e 1976 na rua Jardim Botânico.

As peculiaridades do bairro sempre encantaram a psicanalista. Na época da faculdade, aproveitava a tranquilidade do Jardim Botânico do Rio de Janeiro para estudar e, mais tarde, passou a frequentar a exposição de orquídeas e os espetáculos, como os de Amir Haddad e Milton Nascimento no Teatro Tom Jobim, onde sua cunhada, Biza Vianna, era produtora. Como o prédio de Maria Helena dá de fundos para o Parque Lage, até hoje ela o considera como quintal. Ali, o filho aprendeu a andar de bicicleta, fazia piqueniques e ia à cachoeira com os amigos, além de descer a rua de skate A relação afetiva da família com o bairro segue forte e agora, todos os sábados, o filho vem com seus netos visitá-la. No cardápio do almoço, sempre tem peixe fresco da feira da rua Frei Leandro. Depois, eles saem para dar uma volta pelas redondezas.

A psicanalista ao lado de seus netos e do filho, o fotógrafo Vantoen Jr 📷Acervo pessoal

Entre os programas favoritos de Maria Helena atualmente estão caminhadas – que não pararam nem na pandemia – na Lagoa, no Parque Lage e no Jardim Botânico. Com os amigos, gosta de tomar chopp no Belmonte, no JB, e almoçar no Guimas, na Gávea, aos domingos, depois de passear pela feira de antiguidades da praça Santos Dumont.

Ela percebe que, assim como o mundo, o bairro mudou, cresceu e isso trouxe alguns problemas que já eram comuns em lugares como Copacabana, onde fica seu consultório. “Minha rua era familiar, todos se conheciam, não havia pessoas em situação de rua, vendendo balas ou pedindo”, recorda-se ela, que já não anda pelas ruas tão despreocupada como antes. Um fato recente, que a surpreendeu e emocionou, se passou no supermercado Zona Sul.

– Estava voltando do consultório e passei lá para comprar um vinho. Ao chegar ao caixa, não encontrei minha carteira. Já estava desistindo da compra, quando um casalzinho jovem, que eu não conheço, com um bebezinho no carrinho se ofereceu para pagar o valor da garrafa. Como não era um produto de necessidade, não queria aceitar, mas o rapaz insistiu e acabou incluindo o vinho na sua conta. Fiquei muito tocada e gostaria de agradecer a gentileza. Sei que ele mora por aqui, mas não sei seu nome ou onde encontrá-lo” – lamenta ela, na esperança que a história chegue até ele.

📷Chris Martins

6 comentários em “AS MEMÓRIAS AFETIVAS DE MARIA HELENA

  1. Que mulher , que lição de vida. Parabéns a essa família guerreira .Existem muitas Marias Helenas escondidas. Parabéns ao fotógrafo, linda matéria.

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