ALENTO PARA A VIDA VOLTAR AO NORMAL

Nascido e criado no Jardim Botânico, o DJ, ator e produtor cultural Rodrigo Penna se considera meio mineiro (costumava passar férias em Ouro Preto e outras cidades do interior), meio carioca, com um pé na Gávea e outro no Humaitá. Ou, melhor dizendo, na Fonte da Saudade, onde mora há 10 anos, mantendo-se próximo às casas da irmã, no Humaitá, e da mãe, no JB. Sua percepção atual do JB, aliás, é que “o bairro se tornou altamente burguês, quase saído de uma novela de Manoel Carlos. Fico feliz de ver a abertura de estabelecimentos como a Janela Livraria e o Enredo Café, num momento em que tudo está fechando, falindo”, admite ele, que é um dos DJs convidados para a festa de Réveillon do Maguje e, em janeiro, volta à Camolese (ambos no Jockey Club) para uma temporada de cinco semanas de sua festa Alento.

Quem vê essa programação, nem imagina as dúvidas enfrentadas pelo DJ antes de assumir tais compromissos. Rodrigo encarou o período mais difícil da pandemia com livros, séries e muito estudo on-line, de arte e inglês, além do curso de Letras da PUC, que acabou trancando porque não queria se formar sem voltar ao campus.

– Voltei para a academia aos 40 anos muito pelo convívio com professores e alunos. O primeiro semestre de 2020 foi assustador, mas vou me formar em 2022 e já engreno no mestrado, só estou na dúvida ainda se faço história ou linguística – confessa.

O estudante de Letras apoia a abertura de estabelecimentos como a livraria Janela.

Nos dois últimos anos, dedicou-se também à reformulação do Projeto Ambiente, que nasceu em 2001 e passou por estabelecimentos como a Melt, no Leblon, e o Caroline Café, no JB. Em formato de sarau on-line, as oito edições do evento deram voz a artistas de diversas vertentes, como a cantora Zélia Duncan, o ator Marcos Palmeira e os artistas visuais Cabelo e Batman Zavareze, e podem ser conferidas no canal do YouTube Bailinho Festa. Rodrigo fez a curadoria, produziu, dirigiu, leu e fez a trilha sonora:

– É um projeto muito pessoal e, ao mesmo tempo, colaborativo. A ideia é voltar a realizá-lo em formato presencial, em lugares diferentes, não só na Zona Sul. Mas isso vai acontecer só depois do verão e vai depender de como estiver a vida até lá – explica.

Como tudo que faz precisa de aglomeração, está sendo muito difícil para Rodrigo fazer planos para 2022 e, por isso, ele tem deixado abertas todas as possibilidades. No segundo semestre de 2021, ele decidiu que queria voltar a “brincar de ser ator” e, por conta disso, está editando algumas coisas, organizando seu portfolio e atualizando seu CV. Em 2019, já havia ameaçado uma retomada e fez as séries “Sob Pressão”, da Globo, e “Todas as Mulheres do Mundo”, da Globoplay.

Para sua vertente DJ, o Réveillon será como um esquenta para o verão. Antes da pandemia, ele fez quatro ou cinco edições da festa Alento na casa de Cello Camolese, parceiro desde os tempos de Caroline Café. Filhote de seu famoso “Bailinho”, o evento fez tanto sucesso que ele precisou abrir uma segunda pista de dança: a original, no Clube Manouche, no subsolo; e outra no andar de cima, com a DJ Helen Sancho, para acolher o público excedente. A temporada que começa em janeiro de 2022 será realizada na área externa, mais adequada aos novos tempos. “Segurança é um conceito muito subjetivo. A vida precisa voltar ao normal, mas assusta voltar quando a vida ainda não está normal”, filosofa o DJ, que pretende ir trabalhar em sua lambreta.

– Sou ‘lambreteiro’ e, de vez em quando, saio para dar uma volta, ouvindo música. É uma tristeza ver a quantidade de moradores de rua. São verdadeiros acampamentos, tem geladeira… Você vê que são pessoas que não moravam na rua antes. As praias ficaram mais “brancas”, percebo isso também nas minhas festas, nas quais a maioria dos negros está trabalhando e os brancos, se divertindo. A cidade do Zuenir [Ventura] está cada vez mais partida. O túnel Rebouças está cada vez mais longo – reflete, lembrando que o número de linhas de ônibus entre as zonas Norte e Sul diminuiu muito nos últimos anos.

Neste contexto, a avaliação do profissional da cultura é que o Jardim Botânico ficou metido à besta, com tudo caro, do aluguel e IPTU aos estabelecimentos comerciais: “Até as feiras aqui são mais caras”. E disso ele entende bem, pois frequenta todas, da Gávea ao Humaitá. Sua favorita é a da Frei Leandro, aos sábados. Chega a ir duas vezes, uma bem cedinho para comprar peixe, voltando mais tarde para todo o resto: “Amo a hora da xepa! Sou amigo de feirantes e até padrinho de casamento de um deles. Antigamente, a feira da Lineu era mais cara, agora isso inverteu”, avalia ele, que faz compras também no Farinha Pura, na Cobal do Humaitá.

Rodrigo com André, da barraca de frutas da feira da Frei Leandro.

Rodrigo reconhece que a elitização e branqueamento da Zona Sul não é de hoje. Ele passou os 10 anos anteriores à sua mudança para a Fonte da Saudade na Maria Angélica e acompanhou o início da transformação da rua em polo gastronômico, com a chegada da pizzaria Capricciosa e do Mr Lam, além da construção da academia Body Tech. Curiosamente, o estabelecimento que deixou marcas mais profundas no ator e DJ foi o que teve vida mais curta: o japonês Nakombi, que antecedeu o Frontera e, agora, o Hortifruti.

Ele lembra que sua vida virou um inferno devido à falta de respeito do restaurante com a vizinhança: “Tinha bate-boca todo dia”. O problema é que o restaurante insistia em promover shows no segundo andar, cujo telhado se abria sempre que não estava chovendo. A “serenata” incomodava tanto que o levou a criar um flash mob, quando ações desse tipo ainda não tinham nome: numa sexta-feira, convocou cerca de 30 amigos e atores, que compareceram vestindo camisa social branca e gravata preta, a fim de parecerem ser manobristas: “Quando os carros paravam, íamos lá, pegávamos a chave e colocávamos numa mesa. Como resultado, a rua parou por duas horas e eu acabei processado pelo dono do Nakombi”, conta o ator.

Saudoso de sua infância no Horto, Rodrigo sente falta dos amoladores de faca, compradores de ferro velho e vendedores de pamonha e vassoura, que não passam pela Fonte da Saudade: “Adoro a sonoplastia de todos eles, tenho todos esses áudios gravados. Não sou cliente, só gosto do barulho mesmo”, revela ele, que tem como hobby colecionar samplers (arquivos de áudios).

A identificação de Rodrigo com o Jardim Botânico passa mesmo pela tradição. Sempre que passa pela rua J.J. Seabra, recorda-se da Livraria Ponte de Tábuas e do cineasta Eduardo Coutinho sentado na mesa ali fora. Os bares Joia e Rebouças são referências de boêmia para ele. Neste último, ele costumava encontrar o fotógrafo e designer Cafí. Pensar nele o fez lembrar que era hora de correr para o Lagoon para assistir ao filme em homenagem ao artista, que faleceu durante a festa de Réveillon de 2019. Afinal, a vida precisa voltar ao normal!

*Por Betina Dowsley

📷 Chris Martins

2 comentários em “ALENTO PARA A VIDA VOLTAR AO NORMAL

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