ECOS DO CANTO LIVRE DE NARA NO HORTO

Ao assistir ‘O canto livre de Nara Leão’, série dirigida por Renato Terra, que é conduzida pela fala doce e arretada de Nara, contundente e cheia de humor, senti a maior alegria. Vê-la, ouvi-la, estar perto dela e de seu jeitinho, assistir seus amigos contando histórias com afeto, me deu uma saudade danada.” – escreveu Isabel Diegues, na coluna semanal de seu pai, Cacá Diegues, em O Globo.

Trabalhar nessa série foi maravilhoso. Uma oportunidade incrível de conhecer a minha avó, as músicas dela, os amigos dela. Criou uma nova dimensão sobre ela para mim” – declarou José Bial, ao Fantástico.

A recém-lançada e aplaudida série documental do Globoplay “O canto livre de Nara Leão” tem raízes – ou frutos – no Horto, onde mora parte da família da cantora: a editora de livros Isabel Diegues (filha) e o estudante de cinema José Bial (neto). Bel mudou-se para o Horto em 2000; enquanto seu filho com o jornalista Pedro Bial nasceu e cresceu aqui, há quase 20 anos.

Os dois acompanharam de perto a produção da série (fotos: reprodução TV Globo). Bel soube do desejo do diretor Renato Terra em realizar algo sobre sua mãe em 2019, ao participar do programa “Conversa com Bial” com Roberto Menescal. Sabendo do interesse de José por cinema, Renato convidou-o a participar do processo desde o começo: “Fiz parte da pesquisa, acompanhei todas as entrevistas e ajudei na montagem e todo o processo de pós ao lado do Renato. Foi um mergulho que eu dei na vida da minha avó e, agora, ela e a série viraram uma coisa só na minha cabeça”, admite o estudante de cinema da PUC-Rio, que precisou trancar o quarto período da faculdade para dedicar-se inteiramente ao trabalho.

Para ele, foi uma coisa natural escolher fazer cinema, já que muitos integrantes de sua família trabalham ou trabalharam com isso. Além da série, José assina a direção do clipe de “Pixadão na sul”, do rapper Proença.

– É uma arte que consegue englobar outras artes, dá para filmar alguém tocando violão, pintando um quadro ou fazendo qualquer outra coisa. Meus interesses são roteiro e direção, tenho milhares de roteiros que ainda não tive a oportunidade de produzir – revela ele, cujos trechos favoritos da série são a entrevista de Nara a Nelson Motta, com sua mãe ainda criança ao lado; e as imagens do espetáculo “Opinião” e da avó cantando com Tom Jobim.

Isabel se emocionou bastante com a série e confessa que não conseguiu ver tudo de uma vez, “precisava respirar entre os episódios”. Ela ficou feliz de perceber que o diretor captou a dimensão do papel de sua mãe, muito maior do que o de uma cantora de bossa nova.

– A Bossa Nova marcou muito Nara Leão e, antes da série, muita gente achava que ela se restringia a isso, mas ela era pesquisadora de músicas e de compositores. É gratificante ver que as pessoas estão conhecendo esse lado dela que eu já conhecia. Vários amigos perceberam também semelhanças entre nós, do jeito de falar a determinados gestos – observa.

Mãe e filho têm uma forte conexão com o Horto, do clima às pessoas, que ficam sentadas em cadeiras na porta de casa. A vida dos dois sempre foi centrada aqui e o bairro é fonte de inspiração e cenário para as histórias que José escreve. A Cobogó, editora de livros de arte e cultura da Isabel, teve sede por muito tempo no Jardim Botânico e foi transferida para o Humaitá em setembro de 2020: “Ainda não voltamos ao presencial, mas a casa é uma espécie de coworking e podemos aproveitar as áreas externas para reuniões”, conta.

Andar a pé é um dos prazeres que Bel transmitiu ao filho ainda no berço. A editora frequentava o Jardim Botânico quando era garota com a sua avó e tornou-se sócia da instituição logo que se mudou para o Horto. Quando José nasceu, chegava a ir passear no parque até duas vezes no mesmo dia. O hábito segue com ela até hoje, que costuma sair cedo com as amigas para caminhar lá ou na Estrada Dona Castorina, aproveitando para botar o papo em dia. Já o filho prefere andar a pé pelas pequenas ruas da região, fazendo trajetos mais longos para um simples deslocamento.

A sintonia dos dois acaba quando o assunto é carnaval. Se Bel adora e passou a frequentar o bairro na década de 1990 graças aos desfiles e ensaios do Suvaco do Cristo nos anos 1990, o filho foi apenas ao Bloco da Pracinha, quando ainda não escolhia sua própria programação. Outra diferença é a bicicleta, que José não curte; enquanto sua mãe a usa como meio de transporte para ir à Gávea, Leblon, Ipanema, Copacabana, “mas somente em áreas planas e em ciclovias”, enfatiza. Na opinião de Bel, a região é um convite a pedaladas, contudo as condições das pistas precisam ser melhoradas, com a retirada de postes e pontos de ônibus, que atrapalham a circulação.

Por falar em postes, outros problemas que a dupla percebe são os fios e cabos de energia, telefonia e/ou internet soltos e pendurados, que se multiplicam nas ruas, colocando em risco a segurança dos moradores; e a poda das árvores. Isabel acredita que, na época em que a poda era realizada pela Fundação Parques e Jardins o serviço era melhor: “Pelo que vejo nas ruas, a Comlurb não tem equipe especializada. Um funcionário da empresa que derrubou uma casa de marimbondos precisou ser levado ao hospital. Sem falar nas ervas de passarinho que não são retiradas, deixando as plantas doentes”, atesta.

Somando os endereços do pai e da mãe, José já morou em três ou quatro lugares diferentes no bairro e tem dificuldade de se ver morando em outro lugar. O rapaz de 19 anos estudou na Escola Parque e fez parte da equipe sub-17 de basquete, do Botafogo, com a qual rodou muito a cidade naquele período. O esporte é um ponto em comum com o pai, que também jogou basquete na juventude; além do tio, Alberto Bial, atualmente treinador do time do Vasco.

Além do JBRJ, a família é sócia também do Clube dos Macacos, e Bel não perde a oportunidade de “tomar aquele banho de cano sensacional” e comer o “PF” de lá, que, segundo ela, é maravilhoso! “Fiquei triste de ver que tantos lugares por aqui fecharam. A obra no antigo Borogodó alimenta minhas esperanças de uma nova opção”, admite a editora, que, em situações normais, fora da pandemia, viaja muito a trabalho e, por isso, quando está na área, gosta de ficar em casa ou no entorno.

– Gosto de sair aqui por perto, ir à padaria, ao La Bicyclette e aos restaurantes do bairro. Mesmo antes da quarentena, houve momentos em que eu não passava da rua Jardim Botânico, ia no máximo ao supermercado ou às Casas Pedro. Meu descanso era evitar a JB – admite ela, lamentando que o bar Bem Amigos, perto de sua casa, tenha fechado e, ao que tudo indica, será transformado em mais um estabelecimento voltado para ciclistas.

O comércio monotemático é chato, mas o que mais preocupa a vizinhança é o projeto do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), na rua Barão de Oliveira Castro. Isabel acompanha o histórico de ocupação do terreno unifamiliar em questão nesses mais de 20 anos morando ali. Ela se lembra que tudo começou como uma disputa familiar, passou por um projeto de condomínio de casas e outro de garagem da TV Globo.

– Num primeiro momento, achei o projeto do Impa interessante, contando com o financiamento do Instituto Serrapilheira, do João Moreira Salles, uma pessoa que eu respeito e admiro. Mas o projeto cresceu demais e temo que se torne um elefante branco. O Rio de Janeiro tem ‘n’ lugares que foram construídos ou revitalizados e, depois, acabaram abandonados. Acho muito complicado manter e cuidar de uma área tão ampla. Adoraria saber mais sobre isso – afirma.

*Por Betina Dowsley

📷 Chris Martins

2 comentários em “ECOS DO CANTO LIVRE DE NARA NO HORTO

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