AS TRILHAS DE BRÁULIO FERREIRA PELO JB

Foi na primeira semana de janeiro de 2022, que Bráulio Augusto Cruz Ferreira, de 43 anos, fez as contas e descobriu que estava completando 25 anos de trabalho no Mercado Afonso Celso. Era o ano 1997, ele tinha acabado de se formar no colégio e, aos 19 anos, queria se emancipar financeiramente e ajudar o irmão Bruno, que assumira o negócio de família, junto com o tio Manuel, após a morte do pai, três anos antes.

– O mercadinho faz parte da minha vida desde sempre. Ainda garoto, eu vinha com meu irmão ajudar meu pai. Era o nosso programa de férias e a gente se divertia. Ajudava a arrumar a geladeira e tinha que transformar um saco de 60 kg de batatas em 30 sacos de 2 kg. A brincadeira era justamente encher os sacos com o peso certo, só no olho – lembra Bráulio.

Essa herança familiar ele acha que conseguiu, junto com Bruno, passar para os filhos Augusto (10 anos), Leonardo (4 anos) e a sobrinha Helena (8 anos), que curtem o espaço, mas de outra maneira. “Para eles é um parque de diversões e com mais espaço do que no meu tempo, já que o mercado ocupava apenas metade do imóvel.  Eles gostam muito de brincar de fazer compras. O mais novo então, pega a cesta e vai colocando o que gosta dentro”, diverte-se.

Apesar de ter perdido o pai quando tinha 16 anos, a figura de Seu Agostinho está presente até hoje em lembranças de clientes, em alguns valores e aprendizados que ele trouxe para a vida profissional e, agora, até na fachada do estabelecimento.

– Meu pai tem uma parcela de formação muito grande na minha vida. Ele era muito querido e até hoje alguém aparece com alguma história boa sobre ele. Agora, quando resolvemos mudar a fachada do mercadinho, resolvemos deixar sua marca aqui também. – diz ele, mostrando o grafite em forma de bigode, feito pelo artista visual Billi Gebara.

Além da herança comercial, outro legado foi passado de pai para filho: o amor pelo Vasco, que Bráulio repassa para Augusto e Leo. Como ele bem define, os pequenos são vascaínos por livre e espontânea pressão e costumam acompanhá-lo para assistir aos jogos em São Januário. O menor ainda não aproveita tanto, por conta da idade e da pandemia, enquanto o mais velho faz a linha fanático e chegou a fazer teste PCR para ver o time de perto, quando os estádios foram reabertos ano passado.

O jeito extrovertido também está na conta da herança genética e ajudou Bráulio e Bruno a transformar clientes em amigos, aprimorando e transformando o estabelecimento numa referência para os moradores do entorno da rua Conde Afonso Celso e da praça Pio XI. Seja com a criação da happy hour – que acontece diariamente há quase 15 anos, a partir das 18h -, seja pela solidariedade em atender moradores ou pelas atividades culturais que promoviam antes da pandemia, como a roda de samba do Último Gole e o forró.

– Eu ainda era pequeno e já ouvia meus pais falarem sobre o bar que existia no fundo do mercado. Anos depois, naturalmente, começamos a reunir um amigo ou outro e os clientes foram chegando. Acho que umas das nossas grandes contribuições são os eventos culturais que promovemos e trazem os moradores para curtir e apreciar o que tem de bom no bairro – avalia o comerciante, lembrando que, mesmo quando estão sentados ali, bebendo, estão de olho no movimento dos carros que entram para a pracinha e que podem ser suspeitos.

Essa união entre comércio e vizinhança é na alegria e na tristeza. No primeiro ano da pandemia, Bráulio esteve à frente, pelo mercadinho, de campanhas, apoiando projetos sociais de vários moradores. A última é a que favorece os moradores do Horto com cestas básicas, em parceria com o JB em Folhas.

Foi essa proximidade que acabou incentivando Bráulio a investir em outra carreira profissional: a de corretor de imóveis. Começou por acaso, quando ele decidiu trocar de carro, colocou anúncio e vendeu em dois dias. Depois disso, amigos e clientes passaram a solicitar seus serviços de vendedor, em troca de um percentual de venda.  Em 2007, ele e a primeira mulher, Michele Barros, decidiram unir forças: ele com seu jeito extrovertido e ela, com seu conhecimento em administração e direito imobiliário. Em 2018, ele resolveu seguir solo como corretor, focou no Jardim Botânico e vem conseguindo bons resultados. “O segredo está na confiança que as pessoas têm, elas sabem que eu conheço muita gente e também o bairro”, analisa ele, que conta algumas vezes com o reforço do morador e ator David Sambarilove Pinheiro na publicidade dos seus imóveis.

Cachoeira da Gruta

Mas nem tudo é trabalho. Quando está de folga, seu lazer é estar com a família, mas sempre pelo bairro. Seja na praça Pio XI, batendo uma bola com os filhos; no bar Joia, almoçando ou tomando uma gelada com o irmão Bruno e amigos;  ou pelas trilhas do Horto, para um banho de cachoeira.  No verão de 2020, ele fez um circuito visitando as quedas de água da região e, entre todas que visitou, elege a Cachoeira da Gruta como a sua favorita. “Ela é de fácil acesso, o tempo de trilha é bom e ainda forma uma piscina, que garante a diversão da galera”, avisa.

E nessas horas, ele para e pensa que o bairro é único: “É um privilégio morar no Jardim Botânico. Eu sempre digo que quem mora aqui, só sai por necessidade. E se sair, vai sentir falta pelo resto da vida. Me encanta este jeito de cidade do interior, onde todo mundo se conhece, se cumprimenta na rua e se ajuda. Além disso, ainda tem este verde e estas cachoeiras perto de casa. Aonde mais, na Zona Sul, você consegue, em vinte minutos, se isolar de tudo para ter esse sossego, esses momentos de paz?”, questiona.

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