DEBORAH COLKER E SEU “TRIÂNGULO DAS BERMUDAS”

Em 2022, a coreógrafa Deborah Colker completa 40 anos de Jardim Botânico. Uma relação ao mesmo tempo intensa e bem resolvida com o bairro, que lhe garante a paz e a tranquilidade necessárias para seu cotidiano agitado. Com o espetáculo “Cura” ainda em cartaz (até 20 de fevereiro no Teatro Casa Grande), ela revela, em primeira mão ao JB em Folhas, que já está às voltas com um novo projeto, inspirado em “A Sagração da Primavera”, sinfonia de Igor Stravinsky para balé de Vaslav Nijinsky, que, segundo ela, “foi a primeira ruptura modernista na música e na dança”.

A escolha não foi por acaso. A obra é dividida em duas partes: Adoração da terra e O sacrifício. Tudo a ver com a personalidade de Deborah e seus desafios atuais, como tudo o que faz na vida. Além de “Cura”, centrado na história do neto Theo, de 11 anos, ela lembra que, quando fez o espetáculo “Casa” (1999), havia acabado de se mudar para uma casa no Alto Maria Angélica e estabeleceu conexões entre dança e arquitetura. Outro exemplo é o premiado “Cão sem Plumas” (2018), baseado em poema de João Cabral de Melo Neto, que fala sobre dificuldades e situações inaceitáveis.

– A arte é muito autoral. Adoro a ideia de que ela não é elitizante. Gosto de misturar a formação da escola, do acadêmico, com o popular, com a rua e as pessoas. Todos os meus espetáculos se relacionam com o cotidiano, com temas ligados às minhas experiências pessoais, interesses e amigos – observa Deborah, que vê influência direta do Jardim Botânico em seus trabalhos.

A coreógrafa foi entrevistada pelo JB em Folhas pela primeira vez em janeiro de 2004, para a terceira edição do jornal. Seu primeiro endereço no bairro foi um apartamento na Maria Angélica, presente de seu pai: “O Cafí [seu primeiro marido] morava na esquina, via a obra e dizia que queria morar aqui”, lembra Deborah, que viveu ali de 1982 a 1992. Quando se separou, mudou-se para a Araucária com os dois filhos, Clara e Miguel. Cinco anos depois, comprou a casa no alto da rua Maria Angélica, onde viveu até 2019. Atualmente, está de volta ao ponto inicial, mas garante que, em abril, quando termina o contrato de aluguel, retorna à casa, continuando no que chama de “Triângulo das Bermudas do JB”. Apesar dos filhos acharem que é perigoso ela e seu atual marido – o cantor Toni Platão – morarem naquela casa sozinhos, Deborah está decidida: “Eu gosto de ter cachorro, de plantar. A vida é uma só, eu vou!”.

Nos quase 20 anos que separam as duas entrevistas, Deborah Colker ganhou o mundo com seu trabalho. Em 2009, quando assinou a criação do espetáculo “Ovo”, do Cirque do Soleil, tornou-se a primeira mulher a dirigir um show da maior companhia circense do mundo e foi considerada um dos 100 brasileiros mais influentes do ano. Em 2016, veio o convite para ser a Diretora de Movimento dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, cuidando de toda a coreografia da cerimônia de Abertura.  Seu próximo desafio é encenar sua primeira ópera na Escócia.

– Ainda quero muitas aventuras na arte e na cultura. Elas são infinitas, independentemente do tamanho e da dimensão. E quero fazer meu próximo espetáculo para a TV também. Gostei muito dessa experiência com a Globoplay – afirma.

O bairro também mudou ao longo desse período e Deborah avalia que “tem mais carros, mais prédios, mais supermercados e buracos nas ruas. Para ela, é muito triste não ter mais Adega do Porto, as pracinhas e portas de colégio sem crianças: “Sem falar das bancas de jornais, que acabaram”, atesta.

A pandemia foi um baque na vida de Deborah, que, em 2019, havia perdido o patrocínio de 25 anos da Petrobras e inaugurado uma nova unidade do Centro de Movimento Deborah Colker, na Gávea. A reforma do novo espaço consumiu grande parte dos rendimentos da companhia de dança, e a coreógrafa precisou rebolar para manter dançarinos e professores. A crise sanitária global ainda cancelou o projeto que ela estava desenvolvendo para a Alemanha em comemoração dos 250 anos de nascimento de Ludwic van Beethoven.

– Em abril, dei férias para todos. Nos três meses seguintes, começamos a ensaiar “Cura” via Zoom e, em agosto, voltamos aos ensaios presenciais três vezes por semana, em pequenos grupos. Nenhuma outra companhia voltou a ensaiar em 2020. Eu voltei! A única coisa que eu tinha na mão era um espetáculo – admite Deborah, que pediu ajuda à Globoplay para viabilizar o novo espetáculo.

Foto do espetáculo “Cura” (Leo Aversa) e Deborah cercada pelo elenco (acervo pessoal)

A expectativa era que essa fosse a primeira estreia internacional da Companhia de Dança Deborah Colker, em janeiro de 2021. Não foi possível, mas “Cura” foi o primeiro grande espetáculo a voltar ao presencial no Rio de Janeiro, em outubro do ano passado, com 60% da capacidade do teatro da Cidades das Artes: “As pessoas estão indo aos supermercados, voltaram aos bares e restaurantes, mas ainda resistem aos programas culturais. O país não tem forte tradição cultural. Todas as conquistas dos últimos anos foram por água abaixo”, lamenta.

As atividades do Centro de Movimento Deborah Colker foram retomadas em setembro de 2020, inicialmente em sistema híbrido. A atual diretora é sua filha Clara, que agregou sua própria experiência em arte-educação e abriu, no mesmo espaço, a Recria Educação Infantil para crianças 1 ano e meio a 4 anos. “As atividades de corpo, natureza e afeto tem a ver com o que eu faço na cia de dança, relacionar o trabalho com arquitetura, design, literatura, cinema, artes plásticas, música, teatro… Ou seja, trazer o mundo contemporâneo para a dança”, explica Deborah, que costuma ir andando de casa até o CMDC em “exatos 31 minutos, da porta a porta”.

Deborah e sua fã Leila Fischer

Deborah circula pelo bairro com tranquilidade e gosta de dar atenção quando é reconhecida na rua, como aconteceu durante a sessão de fotos para esta matéria. Ao vê-la posando, a moradora Leila Fischer não resistiu e pediu: “Ah, tira uma foto comigo! Adoro seu trabalho!!!”.

O trabalho e o sítio na serra afastaram um pouco Deborah de alguns programas que costumava fazer na região. Ela conta que tinha o hábito de subir a Lopes Quintas e soltar os cachorros no caminho da cachoeira dos Primatas. A cachoeira do Horto e o Clube dos Macacos também foram muito frequentados por ela. No Humaitá, ela destaca o Espaço Cultural Sérgio Porto, as conveniências do posto BR e o saudoso Boteco Taco. Sua mais recente descoberta naquela área é o Bar e Lanchonete Humaitá, com ótimo atendimento e boas porções: “Adoro a informalidade que permite que um bar feche apenas quando o último cliente vai embora”, destaca ela, que não troca o Bar Rebouças por nada:

– Eu não saio daqui porque eu gosto dessa pedra, dessa mata, mas também porque sou ligada à padaria [Panificação Lagoa] e ao bar da esquina. O Rebouças é um pé sujo, e eu gosto disso, do despojamento, do encontro de pessoas diversas, de defensores do atual governo ao escritor Eric Nepomuceno, o baterista João Barone, meu ex-marido João Elias [diretor executivo da companhia] e o Toni, que uma semana depois de conhecer o bar assumiu sua “diretoria”. Quando era mais novo, o Miguel reclamava que às vezes pensava em ir ao Rebouças, mas desistia quando avistava os pais lá – conta a coreógrafa, que, agora, marca encontro com o filho na cevicheria La Carioca.

A rua Maria Angélica está mesmo no centro de sua vida. Ela gosta das pizzarias Capricciosa e Braz e, antes da pandemia, levava o neto ao Gula Gula. Atualmente, vai muito ao Sabores de Gabriela. Segundo Deborah, a dona adora uma conversa e sempre senta com ela: “Vou lá comer um acarajé e tomar um caldinho de sururu, que é ótimo para curar ressaca”. Até o Pin Pin Sumos faz parte do tour gastronômico da coreógrafa, que admite já ter trocado os bolinhos do Rebouças por um pedaço de pizza do estabelecimento ao lado: “O Jorginho [funcionário coringa do bar] é tão maravilhoso que já foi capaz de ir lá pegar um pedaço pra mim”.

Na opinião da coreógrafa, o Rio de Janeiro é uma cidade em que os bairros, suas pessoas e histórias, são muito importantes. “Eu me considero, antes de mais nada, carioca, depois sou do JB e, em terceiro lugar, sou brasileira. Não gosto muito de praia, sou muito branca. Os médicos costumam dizer que nasci no lugar errado, mas meu lugar é aqui mesmo – conclui.

*Por Betina Dowsley

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