A DURA TAREFA DE SER MULHER EMPREENDEDORA

Em 2020, dos 25,6 milhões de donos de negócio no Brasil, apenas 8,6 milhões eram mulheres, o equivalente a 33,6%, de acordo com uma pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Apesar de ainda serem minoria nesse universo, as mulheres empreendedoras são cada vez mais reconhecidas. Com um jeito especial de lidar com o trabalho no dia a dia, elas estão nas ruas e nos escritórios, usando o tão cantado sexto sentido – muitas vezes maior do que a razão – e abrindo caminho, senão à foice, com batom e simpatia para conquistar seu lugar no mercado.

No caso de Martha Ribas e Letícia Bosisio as armas do empreendedorismo são os livros. Com histórias e carreiras bem diferentes, elas se uniram para abrir a Janela Livraria, inaugurada em 13 de março de 2020, dia em que a pandemia foi oficialmente decretada.

Letícia nunca havia atuado nessa área. Formada em Psicologia, ela tinha o sonho de trabalhar em um lugar em que ficasse entre pessoas e livros. A herança do pai possibilitou que ela abrisse uma livraria. Sem saber por onde começar, Letícia pesquisou e conversou com várias pessoas até encontrar Martha. Detalhe curioso: apesar das avós das duas serem amigas, elas não se conheciam. 

Martha nunca teve sua carteira de trabalho assinada e já saiu da UFRJ, onde cursou Produção Editoral, empreendendo. Em 1996, abriu sua primeira editora, a Casa da Palavra, que funcionou no Jardim Botânico até ser comprada pela Leya. Desde então só trabalha com livros, em um mercado dominado pelos homens. “O mundo ainda é machista, mas as mulheres são maioria no público. Estamos vivendo um momento de virada feminino, com mais autoras e até editoras”, afirma. O convite de Letícia foi um desafio para mudar de lado e tem sido uma grande descoberta: “Aqui eu escuto o leitor, estou sempre ligada e penso quais livros vão atender o meu público. Este contato é transformador, é uma troca maravilhosa.”, atesta Martha, que não descarta o lado braçal de ser dona do negócio. 

Letícia, no alto, e Martha, da livraria Janela

– Não tem doença, não tem cólica, a gente tem que abrir e dar conta diariamente – afirma.

Sua sócia vai além e destaca que o problema maior em ser uma mulher à frente de um negócio é administrar as obras. Por conta de uma infiltração, tiveram que lidar com cinco profissionais. “É horrível! Conversar com encanador, vou te falar… não é para mulher, muito difícil”, brinca Letícia.

Prestes a abrir o espumante para celebrar os dois anos, as duas contabilizam o saldo positivo. “Este era o meu projeto de vida e tinha que ser aqui no Jardim Botânico, que eu amo. Nós ocupamos um lugar que estava carente, e o carinho do público é enorme”, pontua Letícia. Martha completa: “Eu quero agradecer o bairro, que nos abraçou”.  O presente chegará em abril, com mais uma loja na galeria da rua Maria Angélica, que vai funcionar como sebo e espaço para cursos.  

As irmãs Marcella, Vanessa e Paula Leite, com 36, 33 e 21 anos, respectivamente, também seguiram o sonho de ter seu próprio negócio. Morando juntas no Jardim Botânico, elas decidiram apostar em um espaço que reunisse as lembranças familiares em volta da mesa farta e abriram, há seis meses, o brunch bar Lá na Bica, na esquina das ruas Jardim Botânico com J.J. Seabra.  Coube à Vanessa, formada em arquitetura criar o ambiente ideal, enquanto Marcella cuida do cardápio e a mais nova, estudante de design, é responsável pela comunicação.

– Nossa família é daquele tipo que se reúne em volta da mesa. O café vira almoço, que vira lanche. E foi isso que trouxemos para cá. Fizemos uma pesquisa e nos preparamos para atender e montar o negócio da melhor forma, mas cada dia é uma descoberta – admite Marcela, que conta com um fornecedor de café exclusivo de Araponga, Minas Gerais.

O trio do bar Lá na Bica

O começo não foi fácil, especialmente para três jovens sem experiência no comércio. A dificuldade veio logo no aluguel do ponto. “O proprietário não nos levava a sério e ficou enrolando por três meses, até que meu pai nos acompanhou em uma reunião e conseguimos fechar. Foi conversa de homem para homem, ele usou os argumentos certos”, conta Vanessa, lembrando que o pai estava doente na época.  “Ele faleceu logo depois e por algum tempo vivemos um misto de dor – pela perda dele – e alegria, por estarmos tocando nosso próprio negócio”, completou Paula.

O trio está se adaptando ao novo empreendimento e sentindo a receptividade dos moradores, especialmente o público feminino. Como moram juntas, elas criaram algumas regras para não serem dominadas pelo trabalho.  Mas, no geral, é um aprendizado diário. “É difícil, mas a gente está aprendendo a contornar pepinos e furacões. Tem que ter um equilíbrio, impor respeito e ter voz. Este é o nosso grande desafio, mas está valendo a pena”, conclui Vanessa.

O negócio de Rosane Lopes, dona do Atelier Bzz, é ter propósito. A loja foi aberta em 2017, após anos lidando com mulheres em situações de vulnerabilidade, em uma agência da ONU em países da América Latina, África e Oriente Médio.  Segundo ela, é necessário que as pessoas possam gerar renda em situações de desastre. E foi assim que ela criou grupos de mulheres para ensinar a fazer joias, uma habilidade que possuía. A partir desta ideia nasceu o Bzz. A empresária também aplicou sua expertise durante a pandemia, quando orientou a confecção e comercializou mais de 30 mil máscaras, gerando renda para costureiras da Baixada Fluminense, vendidas também na França e na Dinamarca.

– A mulher, quando gera uma renda extra, investe na família. Isso potencializa o trabalho, por isso preferi trabalhar com mulheres e percebi que gera um resultado muito grande – avalia.

Para Rosane, a definição de mulher empreendedora é passar a ser dona de si, com perseverança, meta e visão. “É preciso adaptar o empreendedorismo ao mercado”, explica a empresária que, no final de 2021, abriu uma segunda loja, a Mille et Une Nuits, na mesma galeria, com objetos voltados para casa, decoração e produtos eróticos. “A aceitação tem sido boa, porque a mulher atual também está em busca do seu prazer”, observa.  E ela já tem planos para 2022: além das lojas do Brasil e da pop-up do Atelier Bzz que funciona no verão europeu em Paris, vai expandir seus horizontes para Estocolmo, no mesmo esquema de funcionamento temporário, de julho a setembro.

Enquanto umas seguem empreendendo, outras sabem quando é o momento de tirar o time de campo.  Como a designer de produtos Carla Guglielmeti, dona da loja de sapatos Sollas. Depois de 35 anos de varejo, a empresária e o irmão viram o negócio sucumbir à pandemia e acabou tendo que fechar suas três lojas: a mais antiga, em Ipanema, a do Shopping da Gávea e agora, a mais nova, no Jardim Botânico, que encerra suas atividades no dia 13 de março.  Carla ainda não sabe se abrirá outro negócio, já que “hoje é difícil pensar em um comércio, é muito gasto”, afirma.

Carla começou a trabalhar nova, com o pai, primeiro como vendedora, depois passou para o setor de compras e design, quando começou a desenhar os sapatos.  Carla recorda-se que ia a feiras com ele, fazia pedidos e já pensava na criação dos produtos. De acordo com a empresária, essas feiras eram ambientes dominados por homens, já que são a maioria dos fornecedores. Mesmo sendo uma das únicas mulheres no local – se não a única –, Carla diz que sempre foi respeitada. “Você tem que acreditar em você, para as pessoas também confiarem”.

Na gastronomia, Joana Carvalho é uma referência. Ela atuava ainda em comunicação quando tomou gosto pela cozinha e hoje tem dois restaurantes: o Jojô, no Horto, aberto em 2011, e o Proa, na Gávea, aberto no começo de 2020. Ela não pensava em abrir seu próprio restaurante, justamente por não dominar a parte administrativa, mas 11 anos após a primeira experiência, reflete que a paixão pelo negócio fez a empresária surgir naturalmente dentro dela.

A decisão de abrir o Proa veio com a vontade de poder se concentrar mais na cozinha. Enquanto cuida sozinha da administração do primeiro estabelecimento, no Proa, ela tem dois sócios, a enóloga Ana Lúcia Carvalho e o sócio administrativo Guy Gaul. O restaurante abriu dois meses antes do início da pandemia e, mesmo com as dificuldades, os sócios optaram por não fechar o negócio e continuar investindo no projeto.

Com 20 anos de experiência como chef, Joana ressalta que situações de machismo são corriqueiras, mesmo que sutis, e estão em todas as relações profissionais, do atendimento ao cliente ao fornecedor. Mas ela segue firme: “acho que a capacidade de empreender não está nada ligada ao fato de ser mulher ou não”.

Renata Martinelli é um exemplo da versatilidade. Além de ser dona de duas lojas da Kopenhagen, ela é médica ortopedista há 20 anos e divide seu tempo entre a clínica do pai e as franquias. A primeira foi comprada há 12 anos, em um repasse, como um “plano b”, para experimentar algo novo, mais calmo. Ao comprar a primeira loja, uma amiga de infância relembrou que elas costumavam brincar dizendo que queriam ser donas de uma loja da Kopenhagen. A segunda loja foi aberta em novembro de 2021, e é considerada como “plano c”.

Apesar do trabalho ser cansativo, sem hora para acabar, ela se realiza com ele e dá a dica para quem quer empreender: “É importante fazer uma pesquisa de mercado para viabilizar o negócio. É difícil, mas você consegue!”, reforça.

Conciliar as funções de cantora, produtora musical, letrista e empresária, faz parte da rotina de Olívia Hime, desde 1993, quando criou a Biscoito Fino junto com Kati Almeida Braga. Mesmo com a função de administrar a gravadora de grandes artistas, como Chico Buarque e Maria Bethânia, ela consegue fazer com que as atividades de empresária e artista caminhem paralelas. “O principal é montar uma boa equipe. Com isso eu pude priorizar minha carreira artística”, conclui Olívia, que no próximo dia 19 de março volta aos palcos com o show “Dois Franciscos”, ao lado do marido Francis Hime, no Teatro Prudential.

📷 Chris Martins, exceto a de Olívia Hime, clicada por Nana Moraes.

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