A FORÇA FEMININA À FRENTE DA COBAL

Ser mulher numa sociedade em que faltam igualdade de gênero e respeito, e sobram violência e insegurança, é para os fortes – ou melhor, as fortes! Milene Bedran, 47 anos, é uma delas e, por isso, muitos homens sentem dificuldade de lidar com “uma personalidade feminina, como eles mesmos dizem, tão abusada e tão altiva”. De família de comerciantes, ela é advogada e trabalhou para grandes empresas até 2016. Naquele ano, em paralelo a seu escritório de advocacia, decidiu se dedicar mais aos negócios da família, proprietária do restaurante Vivant, na Cobal, abraçando e lutando pela preservação do hortomercado.

Milene tinha ciência dos problemas que enfrentaria. Ao todo, são 25 anos de vivência no local, período em que atuou como uma espécie de eminência parda, acompanhando, de longe, as questões jurídicas do estabelecimento. O Vivant sucedeu o Salada.com, e como se não bastasse, em 2017, ela abriu o restaurante Las Brutas.

– Costumo dizer que o Las Brutas é meu filho biológico, e o Vivant, o adotivo, assim como os demais estabelecimentos da Cobal. Em razão da pandemia e do desgaste de lidar com a Conab [Companhia Nacional de Abastecimento, órgão do governo federal], acabei trocando o ponto do Las Brutas para Copacabana. Um movimento de resistência, mas cheio de tristeza – afirma a Presidente da Associação de Empresários da Cobal do Humaitá e do Leblon.

Antes de assumir a presidência da associação, Milene não se pronunciava por questões éticas envolvendo as posições que ocupava. Ao se desvincular do mundo corporativo, passou a se empenhar mais nos assuntos da Cobal, e se descobriu no papel de empresária e líder: “Quiçá eu seja a única presidente de uma associação de empresários no Rio de Janeiro com o nível de expressão de duas unidades de importância social na cidade”.

Criada no início de 2017, a AE da Cobal representa 35 estabelecimentos, envolvendo cinco mil empregos diretos e indiretos: “Acredito que podemos triplicar isso, se a gente conseguir fazer a gestão adequada das duas unidades, que se encontram em estado precário de conservação”, garante Milene, que foi indicada ao cargo de presidente desde o começo. Todos os outros diretores da associação são homens, e, ao longo dos anos, vêm ratificando a escolha.

A relação com o órgão do governo federal é muito ruim. Segundo ela, “o superintendente é um fantoche. Já disse que não sabe onde ficam os mercados e que, por ele, já teria voltado para Brasília”. Por sua vez, Milene já esteve no Distrito Federal para uma reunião conduzida pela Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento Tereza Cristina e lamenta que nada tenha mudado:

– Respeito a Ministra, mas sinto muito por ela ter uma equipe que transmuta os fatos para não alcançar soluções. Hoje, um grupo de empresários sofre com isso, e os próprios juízes federais ficam impactados pela maneira não resolutiva com que a Conab se impõe nos processos. Vivemos uma situação de guerra, eles até fazem acordo, mas não querem mais ninguém lá, só lugares vazios. É mais ou menos como a relação atual da Ucrânia com a Rússia, que só aceita negociar com o país vizinho se ele se entregar. E nós não vamos nos entregar! – declara.

A determinação de Milene é fundamental e encontra respaldo em três processos de tombamento, os dois primeiros municipais, assinados por César Maia e Eduardo Paes, e um terceiro, pelo governo estadual. Todos por seu interesse histórico e cultural. Apesar de reconhecerem que é preciso investir em melhorias na estrutura do mercado, o Corpo de Bombeiros, a PM e a Associação de Moradores do Humaitá (AMAHU), da qual Milene também é diretora, estão sempre dispostos a ajudá-la: “O que falta é vontade política”, avalia.

– O que a gente está buscando é o embarque desse patrimônio na cidade ou no estado. Basta uma canetada do Presidente da República em benefício da cidade do Rio de Janeiro.

Segundo a advogada, a Ministra afirmou que o Presidente da República teria pedido para resolver a questão de acordo com os interesses da associação dos empresários. Mesmo assim, nada acontece: “Em reunião, ela chegou a bater no peito e dizer que ‘agora o assunto está comigo’”, relata Milene, surpresa que uma mulher diga isso, mas não leve o assunto até o final:

– Eu sigo com os assuntos até o fim. Fui perseguida e prejudicada comercialmente na Cobal. Já propus várias ações contra a diretoria da Conab, denunciei ao Ministério Público e denunciei à Procuradoria. A Conab alega que há débitos, mas o Brasil também tem dívida externa. Débito é uma coisa que, quando se quer pagar, é possível parcelar. Se o outro quiser receber, ele receberá – garante ela, aberta a negociações.

Quando questionada se ela acredita que isso tudo acontece por ela ser mulher, a resposta vem de pronto:

– Eu incomodo por ser mulher, meu discurso se torna muito mais pesado por eu ser mulher. Já deixei bastante claro que não tenho partido. Entendo que cada representante político que esteve conosco está ali na condição de funcionário do cidadão e não tenho dúvida que os impactos que provocam uma animosidade passam pelo pensamento “Nossa, como ela é atrevida, como é que ela pode falar assim conosco”. O nosso executivo, principalmente o executivo político, está muito despreparado para lidar com mulheres fortes, éticas e honestas.

O sorriso largo é uma marca de Milene.

Sinceridade e senso de justiça não faltam à presidente da AE da Cobal. Ela não costuma “bater continência” para deputados, senadores ou governador, quando chegam para uma reunião com uma dezena de assessores. Muito pelo contrário, mas o simples fato de ser mulher, muitas vezes, pode intimidar e tornar o interlocutor agressivo: “A Conab tem uma administração arcaica e, em pouquíssimas vezes, teve mulheres em sua administração. O atual diretor não decide nada, sente pena de tudo e compaixão de si próprio”, afirma.

O fato é que a realidade agora é bem diferente de quando a Cobal foi criada. Produtos hortifrutigranjeiros são comprados em qualquer lugar, diretamente do pequeno produtor às grandes redes. Não há mais necessidade de um entreposto do governo. Para ela, a frequência do mercado aumentaria muito se houvesse um mix de produtos: “A Cobal poderia ter uma farmácia pequena, um posto avançado da prefeitura para atendimento ao cidadão, lojas de presentes e de produtos eletrônicos, açougue, padaria e salão de cabeleireiro, além de dar uma aparência mais bonita e atraente para os hortifrutigranjeiros já instalados no local” enumera, enfatizando que os empresários não estão deixando o lugar apodrecer por vontade própria:

– Nós não podemos fazer nada para que o espaço comum seja beneficiado. E aí precisa ter uma liderança feminina, porque os homens não aguentam e desistem. Isso cansa muito. Eu posso até não alcançar a vitória que almejo, mas não vou ficar escrita como alguém que não lutou.

Quem acompanha as postagens da Associação nas redes sociais logo reconhece esse espírito aguerrido, marcando políticos e executivos, cobrando apoio e promessas não cumpridas:

– É vergonhosa a postura deles em relação a nós. Um exemplo que me entristece é o Marcelo Calero [secretário municipal de Governo e Integridade Pública] que nos bloqueou em suas redes sociais. Mas este ano tem eleições e a gente não esquece de quem esteve conosco, quem virou a casaca, quem não cumpriu o que prometeu. Pode ser senador, deputado federal ou estadual e até pessoas do nosso segmento, como o Armed Nemr Sarieddine [dono de restaurante no Cadeg e atual coordenador executivo de Diálogos Setoriais]. Ele agora está na prefeitura e faz de conta que não tem nada a ver com os problemas da Cobal. O problema é que mulher não esquece! – conclui.

Entenda o problema

A Cobal do Humaitá dispõe de 85 espaços, sendo que, atualmente, apenas cerca de 25 estabelecimentos geram renda e trabalho. A Associação de Empresários, entretanto, reúne 34 filiados, pois muitos comerciantes têm mais de uma empresa e fizeram questão de associar todas, mesmo as que não estão operando, por ainda terem interesse pela Cobal. Pelo mercado daqui, passavam cerca de 10 mil pessoas por dia, hoje o público não chega a três mil. Na pandemia, para aumentar o movimento, a associação atraiu eventos, como o Circuito Carioca.

Os problemas de manutenção afetam diretamente as tentativas de levar público para o local: os banheiros estão em estado precário, houve um incêndio em janeiro deste ano, o telhado está em péssimas condições, o esgoto da área de carga e descarga, do lado da rua Marques, está purgando… Os empresários alegam que não podem fazer nenhuma melhoria no espaço, sob pena de serem impedidos pela Conab, com a justificativa de que não terão direito algum. Com isso, alguns restaurantes criaram seus próprios banheiros para dar algum conforto a seus clientes.

A proposta da AE da Cobal é transferir o imóvel para o governo municipal ou estadual por meio de um PPI [Programa de Parcerias de Investimentos]. Um estudo encomendado pelos empresários conclui que, mesmo com o débito que a Conab afirma existir, em cinco anos, com renegociação de contratos, é possível devolver tudo aos cofres públicos.

*Por Betina Dowsley

3 comentários em “A FORÇA FEMININA À FRENTE DA COBAL

  1. Sou comerciante na Cobal há 50 anos, pagando impostos, gerando renda e principalmente dando dignidade e cidadania aos que lá trabalham. A contrapartida do poder público? Descaso,indiferença, tratamento como se fôssemos uma praga e total descaso com o patrimônio público. Mas como disse a presidente estamos longe de desistir de lutar.

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    • Prezado Ronaldo, eu pessoalmente não devo nada a CONAB, mas venho a muito tempo lutando por via judicial para resolver e pagar débitos que envolvem pessoas vinculadas a mim., como também resolver o problema de vários que estão ali. Estou à sua disposição para pessoalmente conversarmos. Att. Milene Bedran

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