E O OSCAR VAI PARA… OS CENÁRIOS DA REGIÃO

Julia Amoêdo*

Na semana da premiação mais importante do cinema mundial, o tapete vermelho é estendido para as ruas da região, que servem de locação para inúmeras produções nacionais e internacionais. E tem cenário para tudo, de filmes históricos e documentários a enredos infantis e de ação.

Misturando natureza, arquitetura eclética, arte e o indispensável charme carioca, o Parque Lage é o recordista da região, aparecendo nas telas desde a década de 1960. Dois clássicos do Cinema nacional foram filmados no local: “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha, e “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade. O primeiro é considerado o marco do Cinema Novo – movimento cinematográfico brasileiro dos anos 1960 e 1970 – e, no ano de seu lançamento, foi aclamado em Cannes. Gravado e lançado durante a Ditadura Militar, o longa faz uma crítica à sociedade da época ao usar o país fictício de Eldorado para retratar a situação política do Brasil. Parte da trama foi ambientada na mansão da família Lage, escolhida para ser a sede do governo da província fictícia Alecrim.

“Macunaíma”, adaptação do livro homônimo de Mário de Andrade, sofreu com a censura daquele período político e teve trechos cortados. Para contar a história do “herói sem caráter”, vários lugares do casarão do Parque Lage foram usados, como a varanda externa, a atual Biblioteca da Escola de Artes Visuais e a piscina, onde foi gravada uma das cenas mais famosas do filme, a da feijoada. Em 1979, o filme foi finalmente relançado sem os cortes.

Desses 50 anos para cá, o Parque Lage continuou em cartaz e foi cenário de “O pai do povo” (1976), único filme dirigido por Jô Soares, que teve grande parte das cenas gravadas no lugar. Depois dele, veio “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” (1977), filme dos Trapalhões dirigido por J. B. Tanko, que, ao contrário dos filmes já citados, não usou o casarão, mas sim as grutas, que também foram cenário para a Cuca, na primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo, também na década de 1970.

A carreira do Parque Lage no cinema avançou pelo século XXI e ganhou destaque internacional com “Os Mercenários” (2010), dirigido por Sylvester Stallone. No longa, um grupo de guerrilheiros é contratado para invadir um país fictício e uma parte da missão foi filmada aos pés do Cristo Redentor. No filme, o casarão é explodido. Em 2018, mais um sucesso de bilheteria passou pelo Parque Lage. Em “Minha Vida em Marte” (2018), os personagens de Paulo Gustavo e Mônica Martelli tomam café da manhã na borda da piscina, um dos passeios turísticos mais badalados da cidade.

“Minha Vida em Marte”, com Mônica Martelli

O trecho da rua Jardim Botânico, entre o Parque Lage e o Clube Militar ganhou visibilidade com o documentário “Ônibus 174” (2002), de José Padilha, sobre o sequestro do ônibus da linha 174, em 12 de junho de 2000. O longa usa imagens de arquivo para montar a narrativa. No mesmo local, foi filmado “Última parada 174”, dirigido por Bruno Barreto, que se baseou no documentário para contar a história do assaltante Sandro Barbosa do Nascimento, sobrevivente da Chacina da Candelária, em 1993, e assassinado ao final do sequestro do coletivo.

Morador do Horto, o diretor Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, rodou o curta “Antonio Parreiras” inteiramente no JB em 1994. Três anos depois, ele aproveitou ruas do Horto e o próprio JBRJ como cenário de seu longa “For All – O Trampolim da Vitória”. Mais recentemente, usou o entorno do Solar da Imperatriz para sequências do filme “O que seria deste mundo sem paixão?” (2018). Ainda no Horto, foi rodado “Missão Cupido”, da Raccord, produtora de Rosane Svartman e Clélia Bessa, ambas moradoras do JB. O filme foi exibido nos cinemas em 2021.

A Gávea também já foi cenário de diversos filmes. Em 1986, “Baixo Gávea”, de Haroldo Marinho Barbosa, ganhou os prêmios de Melhor Ator (Carlos Gregório) e Melhor Atriz (Louise Cardoso), no Festival de Brasília, mostrando para todo o Brasil um dos points mais badalados das noites cariocas nos anos 1980. Na década seguinte, “Como ser solteiro”, que teve roteiro e direção de Rosane Svartman e produção de Clélia Bessa, também incluiu cenas no BG, graças aos personagens de Heitor Martinez, Ernesto Piccolo, Rosana Garcia e Cássia Linhares. Anos depois, o diretor Marcos Prado usou cenas no mesmo local para abordar o tema de uso de drogas por jovens no filme “Paraísos Artificiais” (2012).

Em “Tropa de Elite” (2007), um dos personagens é policial e estudante universitário e, com isso, algumas cenas foram filmadas na PUC-Rio, que podia ser reconhecida nas salas da aula, no pilotis e na vila dos diretórios. Apesar do grande sucesso, o longa causou polêmica entre os estudantes da universidade. Alguns afirmavam que o filme retratava os universitários de forma negativa; outros alegavam que era apenas um retrato da realidade.

Já o suspense “O Crime da Gávea” (2017), dirigido por André Warwar, também foi filmado pelas ruas do bairro. O filme é uma adaptação do livro homônimo de Marcílio Moraes. O escritor e roteirista é morador da Gávea há mais de 20 anos e se inspirou no bairro para escrever o livro, citando ruas da região. Nas filmagens, só é possível reconhecer o Horto, pois a maior parte das cenas internas foi rodada em casas e apartamentos do local.

E até o Bar Rebouças, botequim mais famoso do Jardim Botânico, ganhou as telas recentemente em “Salve o prazer!”, documentário sobre o fotógrafo e artista plástico pernambucano Carlos Filho, que era conhecido como Cafi. Dirigido por Lírio Ferreira e Natara Ney, o filme mostra a trajetória do artista e destaca os lugares que ele frequentou, como o boteco da rua Maria Angélica, até sua morte no réveillon de 2019.

Sem dúvida, a maior vitrine do Jardim Botânico e de muitos de seus moradores – famosos ou não – desfila no documentário “20 anos de Suvaco”, de Paola Vieira, produtora e diretora do curta. O filme conta a história do bloco a partir de uma roda de samba, dos enredos, de depoimentos dos integrantes e de imagens de arquivo do bloco que saiu às ruas pela primeira vez há 36 anos.

Confira onde assistir a alguns dos filmes citados:

– “Terra em transe”: Globoplay e Telecine
– “Macunaíma”: Globoplay e Telecine
– “Os Mercenários”: Globoplay, Telecine e Netflix
– “Minha Vida em Marte”: Globoplay e Telecine
– “Ônibus 174”: Globoplay e Telecine
– “Última Parada 174”: Globoplay e Telecine
– “Paraísos Artificiais”: Globoplay
– “Tropa de Elite”: Globoplay, Star+ e Netflix
– “O Crime da Gávea”: Amazon Prime Video
– “20 anos de Suvaco”: Vimeo https://vimeo.com/509293020/84dbfa1184

* Estagiária, sob a supervisão de Betina Dowsley.

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