CINCO PERGUNTAS PARA FÁBIO DUTRA, DA AMAHOR

Eleito presidente da Associação dos Moradores do Horto no final de outubro, Fábio Dutra Costa conhece bem os problemas da região onde nasceu, há 45 anos. Seu avô trabalhou por mais de 40 anos no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Sua mãe, Tânia Costa, ficou menos tempo na instituição, porque, na década de 1980, assumiu a presidência da associação e houve conflito de interesses nas duas funções. Fábio ficará à frente da AMAHOR até 2025 e conta com o apoio de uma equipe participativa, encabeçada pelo vice-presidente Felipe Melo, morador da Vila da Major, em casa construída por seu avô há 77 anos.

JB em Folhas: Antes de ser eleito presidente da AMAHOR, qual era seu envolvimento com as questões do bairro?

Fábio Dutra: Sempre ouvi muitas histórias em família, a começar pela minha casa, construída há mais de 70 anos pelo meu avô e pela participação da minha mãe, uma das primeiras presidentes da associação. A partir de 2006, passei a me interessar mais.  Ao ver a necessidade de maior engajamento de todos, comprei, junto com um amigo, uma caixa de som que colocava no meu táxi para chamar as pessoas para as assembleias e manifestações.

JBF: Qual é seu principal objetivo à frente da associação?

FD: O mais importante é a manutenção da comunidade em sua totalidade. Não aceito o despejo de ninguém. No início do século XX, era muito difícil chegar à região e, por isso, os funcionários do JBRJ foram autorizados a construir suas casas perto de seu local de trabalho. Naquela época, por lei, todo trabalhador de horto tinha que morar perto. Esse processo de reintegração de posse é absurdo, pois o terreno nunca pertenceu ao JBRJ, mas sim ao Ministério da Agricultura, ao qual o instituto de pesquisas era ligado. Ninguém aqui é invasor. Um exemplo é a Escola Municipal Júlia Kubitschek, onde eu e minha mãe estudamos. Ela ficava fora do JBRJ e, recentemente, teve seu muro derrubado e 2/3 de seu pátio de recreação transformado em estacionamento. Será que a escola também é invasora?

JBF: Como era a relação dos moradores do Horto com JBRJ antigamente?

FD: Até a década de 1990, os moradores podiam frequentar o parque e usá-lo como corta caminho entre o Horto e a Gávea. Jardineiros, seguranças e parte do pessoal administrativo eram, em sua maioria, moradores da região. A relação era humana, havia festas de confraternização. Hoje, esses trabalhos foram terceirizados e algumas dessas empresas passaram a ocupar casas dos antigos funcionários, que foram construídas por eles, com autorização do Ministério, para eles morarem, como a casa da Associação de Amigos do Jardim Botânico. As próprias instalações do JBRJ, como a carpintaria, a oficina e o almoxarifado, viraram o Teatro Tom Jobim. Com isso, transferiram todo o setor operacional do parque para um prédio novo, construído na beira do rio. Posso citar vários casos em que a integração de casas se deu não para a recuperação da área verde, mas, sim, para construção de prédios e estacionamentos. No número 2.040 da rua Pacheco Leão, havia uma área de lazer usada pelos moradores. Há dez anos, o JBRJ vem despejando resíduos orgânicos no local e diz “estar analisando o uso para projetos futuros”. O que fizeram no Clube Caxinguelê foi horrível e ainda destruíram a casa do Marcelo de Souza Alvarenga. A família não recebeu nenhuma indenização e teve que ir morar em Magé. Diziam que iam fazer um orquidário, depois disseram que as condições não eram favoráveis e, até hoje, não fizeram nada. É preciso lembrar que não houve crescimento territorial da comunidade, só demográfico. Seguimos ocupando os mesmos espaços de nossos antepassados, com quem aprendemos a plantar e a preservar o meio ambiente. Outro dado importante sobre a reintegração de posse está no Artigo 5º da Constituição, que diz que antes de remover uma família, é preciso avaliar o imóvel, efetuar uma prévia indenização à família e dar uma finalidade pública para a área.

Não é isso que acontece aqui. Cada vez fica mais claro que é um processo de gentrificação. Dizem que o Horto é área de risco. Eu brinco que é área de rico. Nós cansamos de denunciar obras acima da Cota 100, na rua Sarah Vilela, e nada foi feito, assim como os desvios de curso de rio para abastecer piscinas, que ficam por isso mesmo. No caso do condomínio Canto Melo, na Gávea, foi imposta uma multa de compensação ambiental de 300 mil reais. Aqui nunca tivemos essa possibilidade. Tenho certeza que a gente conseguiria o dinheiro para pagar e acabar de vez com tudo isso. Por que residências de filhos e netos de antigos funcionários do JBRJ não merecem o mesmo tratamento?

JBF: Neste contexto, qual é o maior desafio da AMAHOR?

FD: Sem dúvida, aumentar a participação e o engajamento de todos os moradores dos 19 núcleos da região. Perdemos os documentos da associação na enchente de 2019. Em apenas três meses, registramos 258 associados, mas queremos que todos se juntem a nós. Nosso maior desafio é convencer o morador a participar; se o povo for pra rua, a gente consegue as coisas, ainda mais em ano eleitoral. O que os políticos mais têm medo é da força do povo na rua para mudar a história.

A mobilização é fundamental. Na última segunda-feira, estive na Câmara Municipal com o vereador Reimont – autor do Projeto de Lei 161/2009, que foi aprovado em dezembro de 2021, confirmando a comunidade do Horto Florestal como Área de Especial Interesse Social (AEIS) – e o ex-senador Eduardo Suplicy para conhecer o programa de renda básica e economia solidária.

Fábio em frente a sede da AMAHOR

JBF: Além da questão fundiária, quais são suas propostas para a AMAHOR?

FD: Estamos realizando obras na sede da associação para abrigar novos projetos. A ideia é promover cursos técnicos e profissionalizantes para melhorar a realidade social dos moradores, além de atividades esportivas. Já acertamos com um grupo de médicos voluntários o atendimento gratuito em uma das salas da sede. Com isso, pretendemos trazer os moradores mais para perto da associação e das questões que afligem a todos.

AMAHOR: Rua Dona Castorina, 69
Contato: amahor@amahor.org

*Por Betina Dowsley

10 comentários em “CINCO PERGUNTAS PARA FÁBIO DUTRA, DA AMAHOR

  1. Parabéns pela matéria, já passou da hora de todos reconhecerem a legitimidade dos moradores do Horto. Uma comunidade bicentenária, que construiu, literalmente o IPJB, que teve autorização do Ministério da Agricultura, para construção de suas casas, por meios próprios. Casas essas, que até hoje as famílias residem. Atualmente estão sendo alvo de uma perseguição infundada e covarde.

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      • Aprendi nos meus 15 anos de serviço público que qualquer ato administrativo seja ele praticado por qualquer agente ou servidor público precisa agir com impessoalidade, para não ferir um princípio constitucional do art.37 que todos são ” obrigados a cumprir no exercício da função ou do seu cargo”, portanto todo e qualquer servidor público seja ele um juiz, um( uma) Presidente de uma autarquia precisa agir com a realidade dos fatos, nesse caso a comunidade do Horto é composta por descendentes de funcionários e ex funcionários que construíram o Jardim Botânico hoje IPJB, que seus moradores vivem em casas não funcionais, mas que foram construídas com seus próprios recursos à época à convite do antigo diretor Paulo Campos Porto para que os seus funcionários pudessem residir próximo ao seu local de trabalho. Somos filhos, netos desse terra( desse habitat) que nos pertence por direito sagrado e fundamental que é o direito à moradia conforme diz a CF/88 e o próprio estatuto da cidade lei 10257/01. A história do Jardim Botânico se entrelaça com a história das nossas famílias, pois não existe Jardim Botânico sem a comunidade do Horto e seus 11 núcleos e vice-versa! #Respeitem a nossa história #Hortofica #viladamajorfica

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  2. Parabéns ao nosso querido e dedicado presidente da Amahor, que não tem medido esforços e tem se desdobrado no dia a dia para atender a todas as demandas. À toda diretoria, que continue com essa garra para que as conquistas aconteçam e a gente possa gritar que o HORTO FICOU!!!

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  3. A trinta e dois anos vim morar nesse Paraíso, aonde meu sogro e os pais dele sempre trabahou que se chama horto! e des de então escuto,essa história que um dia sairemos da qui, mais sempre pedi a Deus pra isso nunca acontecer pois não sei como viveremos longe desse paraíso ! quero agradecer ao Fábio Dutra e a tds que estão lutando pra isso não acontecer Meu agradecimentos a tds e pra poder gritar o Horto fica !!

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  4. Nesses trinta e tantos anos de luta eu nunca tinha visto uma Diretoria da Amahor tão atuante como a atual. Méritos para o nosso Presidente Fábio Dutra por sua garra competência e disponibilidade para estar presente onde for de interesse para que o Horto fique. Parabéns a todos os envolvidos na luta pela
    nossa permanência.

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