O ALTO ASTRAL DE PATRÍCIA SAUER

Para Patrícia Sauer, todo mundo é gente boa! Alegria e espontaneidade regem a vida da bailarina e coreógrafa, que mora no Jardim Botânico desde os 9 anos de idade e que, há 23, abriu a Sauer Danças, na esquina das ruas Lopes Quintas e Engenheiro Pena Chaves. Se num primeiro momento houve resistência de parte dos moradores, que temiam uma grande movimentação de carros e pessoas no local, o tempo mostrou que não poderia haver vizinho melhor.

Durante o dia, a casa verde está sempre com o portão aberto e virou ponto de encontro para crianças e seus responsáveis, bem como tutores e seus cachorros, que entram sem bater e usam o pátio como se o espaço fosse público: “Eles têm certeza que isso aqui é uma praça!”, brinca Pat. As mesas na área externa são usadas para reuniões de trabalho e sociais, tanto por grupos, quanto por vizinhos solitários. Sem falar do banheiro, cujo acesso é liberado para seguranças e outros trabalhadores da região. Para muita gente, isso seria um incômodo; para Pat, é um prazer: “Adoro ver a casa cheia e animada. São raras as vezes que é preciso pedir para diminuir a algazarra”, garante ela, observando que muitos dos que não queriam o estabelecimento na região hoje fazem aula no espaço.

Tanta simpatia e acolhimento desencadearam uma rede de solidariedade, quando, em abril de 2019, uma forte chuva destelhou parte da escola, derrubando o forro e estragando o piso de uma das salas. Naquela ocasião, Pat recebeu mais de 250 mensagens de apoio e, ao saber que o seguro da casa não cobria os danos da tempestade, contou com a mobilização de amigos e familiares para realizar um evento em prol do lugar. Eles organizaram tudo e cobraram entrada de R$ 10,00 ou R$ 30,00, com direito a uma aula de dança.

A casa da Sauer Danças foi comprada 10 anos antes disso. Pat lembra que estava procurando um espaço amplo para abrigar a escola, quando se deparou com o imóvel atual: “A casa estava em ruínas, a reforma levou seis meses”, conta ela, que herdou o caseiro Sr. Crispim, da família Vitorino:

– Ele chegava sempre às 6h da manhã. Certo dia, não apareceu. Fui até a casa dele com sua filha, e ele havia morrido. No dia seguinte, o Carlos passou por aqui procurando trabalho, e eu logo falei “foi o Crispim que te mandou aqui, né?”. E lá se vão 12 anos – acredita a empresária, que costuma rezar a casa todas as terças e quintas, para limpar e atrair coisas boas e, talvez por isso, nunca tenha tido problema de segurança na região.

A relação de Patrícia com a dança vem de berço. Ela é neta de Enid Sauer, cuja academia Ballet Moderno foi referência na Zona Sul na segunda metade do século passado, primeiro ao lado do Canecão, onde hoje funciona a Casa da Ciência da UFRJ, e depois na cobertura do Shopping da Gávea, atualmente ocupada pela BodyTech. Assim como sua mãe – Cristina Sauer, também moradora do JB –, Pat começou cedo a dançar e, aos 12 anos, já era monitora das aulas para crianças pequenas. Aos 15, assumiu as turminhas como professora e, com a maioridade, passou a treinar também professores. Dos 12 aos 35 anos, Pat costumava passar 20 dias em Nova York, em dezembro, para cursos intensivos de dança: “Eu e um grupo de alunas da Enid fazíamos aulas o dia inteiro. As três aulas da manhã eram mais intensas e, depois de um almoço rápido, engatávamos outras quatro”, recorda-se ela, que emendava com espetáculos na Broadway, uma outra escola.

Nos anos 1990, Pat participava, como bailarina, dos números musicais do Fantástico e integrou o corpo de baile do programa “Não Fuja da Raia”, comandado por Cláudia Raia, na TV Globo. Como coreógrafa, trabalhou para diversos espetáculos teatrais.

– Adoro teatro, no palco ou na plateia. Frequento muito as salas do Shopping da Gávea e o Oi Casagrande. Recentemente, assisti à peça “A Vela”, com o Herson Capri; a comédia “Procuro o Homem da Minha Vida, Marido Já Tive”, com a Totia Meireles; e o musical “A Cor Púrpura do Cairo”, que é maravilhoso, uma obra de arte, melhor do que os da Broadway – indica.

No dia a dia, Pat vai, no máximo, até o Shopping da Gávea. Na verdade, sua rotina resume-se, praticamente, à Sauer Danças. De segunda a sexta, ela bota seus quatro cachorros no carro, chega ao local às 9h da manhã e só volta para casa ao final da aula de dança para pessoas de nível avançado, às 22h30. Ao todo, a bailarina e coreógrafa tem três turmas e ainda faz aula de balé clássico com o francês Jean Marie, de 81 anos, ao lado de Fernanda Abreu e Letícia Spiller, “porque não dá para parar”, garante ela, que acha cansativo caminhar até as cachoeiras e tem medo de andar de bicicleta e cair.

Como está sempre em movimento, nas horas vagas, Pat só quer saber de relaxar. Quando o assunto é gastronomia, ela fica com a culinária japonesa, seja do Blá Blá ou da Temakeria & Cia. Entretanto, em termos de ambiente, ela gosta mesmo é do Bar Joia para tomar um chopp, acompanhado por filé aperitivo ou bolinho de bacalhau, com a mãe, Cristina (81 anos) e as filhas Lis, de 17 anos, e Sophia, de 22 anos, que já segue os passos da mãe, seja dando aula e ocupando-se da parte administrativa da academia da família. Durante a semana, Pat costuma levar uma sopinha para o trabalho. Segundo ela, é uma forma de equilibrar sua paixão por pão, que pode ser do Cris Mar ou da Panificação Lagoa. Para acompanhar, “o melhor salaminho é o da Grano & Farina”, recomenda ela, que raramente sai do bairro.

– As pessoas aqui são geniais, autênticas e gostam de cultura. Me identifico totalmente. Eu me sinto um ET quando vou para Ipanema – analisa.

Além das filhas, Patrícia tem amor incondicional pelos animais – tem seis em casa: quatro cachorros e dois gatos. Sempre que pode, dá uma fugida para “passear” na loja Jimmy Pets para comprar um presentinho para sua “família pet”, que há duas semanas perdeu o papagaio Catarina, com a qual conviveu por 20 anos. Para os itens básicos, não tem muita preferência e compra em qualquer loja, mas, para tosa e banho, costuma levar na Bicho Bacana, aproveitando para deixar as tampinhas plásticas, que segue recolhendo na Sauer Danças para a Rio Eco Pets. O dinheiro arrecadado com a venda do material reciclável é doado para ONGs e protetores independentes de animais recolhidos na rua. Antes da pandemia, por cerca de dois anos, Pat ajudou a encontrar um lar para cachorros abandonados, providenciando vacina e tratamento de doenças antes de serem colocados para adoção. Em 2019, ela chegou a organizar a Pet Sauer, evento que reuniu profissionais e fornecedores do ramo, com direito a música ao vivo, gastronomia e parte da renda doada para protetores de animais.

Além das tampinhas, a Sauer Danças coleta lacres de latas de alumínio para a ONG One by One, da argentina Teresa Stengel, que dá aula de cerâmica na Vila dos Artistas da Engenheiro Pena Chaves e ajuda crianças com deficiência física e cognitiva doando cadeiras de rodas.

Considerando a vivência que tem no bairro, Pat acredita que o JB melhorou muito. A casa verde e acolhedora esteve sempre aberta também para o Circuito das Artes do Jardim Botânico e costuma ser alugada nos finais de semana para grupos espirituais, de meditação, yoga e mesmo cursos profissionalizantes. Assim, a partir de suas ações locais, ela vai contribuindo para um mundo melhor.

Tristeza não cola com ela, que diz ser que nem cachorro, “basta abanar a coleira e dar uma volta no quarteirão, que já esqueço o que estava incomodando”. O temperamento animado e expansivo é de família: “Sou igual à minha mãe. Gosto de todo mundo, sou alegre”. É esse espírito leve e bem-humorado que abraça a Sauer Danças:

– Aqui somos abertos a qualquer corpo ou idade. Como não somos profissionalizantes, não tem essa de primeira bailarina. Objetivo é ter gente de todos os tipos. Meu irmão mais velho só começou a fazer dança depois dos 40 e, aos 57, continua firme e forte – destaca ela, que pretende dançar enquanto estiver de pé.

*Por Betina Dowsley

2 comentários em “O ALTO ASTRAL DE PATRÍCIA SAUER

  1. Parabéns Pat Sauer
    Voce é uma mulher de muita fibra
    Sou fã de carteirinha 👏👏👏👏❤💋🙏

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