À MODA DE HET DE CARVALHO

Moda sempre foi o forte de Het de Carvalho, proprietária do brechó Só Traças. Não que ela siga suas tendências de olhos fechados. Ela as cria. Quando abriu seu primeiro estabelecimento comercial, em 1981, ninguém falava da importância de reduzir o consumo. E quando decidiu mudar sua vida, aos 40 anos, trocando a tradicional e conservadora Petrópolis pelo Rio de Janeiro, que tem fama de lançar modismos, o termo etarismo sequer existia, e poucas mulheres tinham a oportunidade e a coragem de sair de sua zona de conforto para encarar novos desafios.

Het nasceu, estudou, casou e viveu na Cidade Imperial até os 40 anos. Formada em Turismo, foi numa viagem à Europa que se encantou com o comércio de roupas e objetos usados em lojas e “mercados das pulgas”. De volta à Cidade Imperial, ficou sabendo que o antigo hotel Quitandinha estava alugando suas estrebarias e resolveu criar ali seu primeiro brechó. Levou suas próprias roupas e as do marido e convocou as amigas a trazerem alguma peça que estivesse em seus guarda-roupas para vender.

Com a experiência acumulada ao longo de dez anos em Petrópolis, Het pensou que era hora de mudar de ares e levar “sua moda” para uma cidade mais moderna e aberta a novidades. “Eu conhecia muito pouco do Rio de Janeiro. Abri os classificados e vi um anúncio em Laranjeiras. O espaço era muito grande, e a própria corretora me indicou uma das sobrelojas do Centro Médico Botafogo. Telefonei para uma amiga para saber se o ponto era bom e, com o aval dela, fechei negócio”, lembra Het, que em três meses fechou a loja do Quitandinha e se instalou no Humaitá.

Por 20 anos, o brechó Só Traças funcionou no prédio em frente à Cobal. Neste período, Het morava na Lagoa e ia a pé para o trabalho. Na sua opinião, a região mudou bastante, de uma maneira geral, para melhor. Ela tem saudade do tempo em que era “dona da galeria”. Pelo menos era assim que ela se sentia em relação ao condomínio que a acolheu.

– Fazia muitos eventos lá na galeria, quando as lojas fechavam, depois das oito da noite. Eram, no mínimo, três festas por ano: comemorava o aniversário do brechó, em abril; o meu, em julho; e o Natal. Amigos e clientes eram convidados e cada um trazia uma comidinha. Eu alugava uma tina e providenciava o gelo para as bebidas, além da música – recorda-se ela, que chegou a contratar uma professora de filosofia para dar aulas no estabelecimento.

Durante esse período, o Só Traças ocupou duas lojas. A segunda era melhor posicionada, em frente aos cinco elevadores e, segundo a comerciante, a vitrine era o maior chamariz: “Quando a porta deles abria, a mulherada batia o olho na vitrine e, na descida, dava uma passadinha na loja”. Além do brechó, Het teve ali também um Cyber Café, um dos primeiros na região.

Depois de cinco anos no Rio de Janeiro, Het divorciou-se e passou a curtir ainda mais a Cidade Maravilhosa, onde, segundo ela, namorou muito e fez muitos amigos. Saía para almoçar no Aurora, jantar no Botequim, tomar um cafezinho no saudoso Sorelle, por exemplo. “Em Petrópolis as pessoas são muito fechadas, ninguém convida ninguém para sair ou ir em sua casa. Em pouco tempo aqui formei um grupo grande de amigos”, conta ela, que, agora, confessa estar mais caseira.

A mudança de ponto do brechó não foi iniciativa própria. O condomínio decidiu que na sobreloja só poderia haver estabelecimentos ligados à saúde. Het não precisou ir muito longe para encontrar um outro lugar e achou, não só um novo endereço para o Só Traças, como para sua própria casa. O único senão é que agora ela fica com preguiça de andar e conferir as novidades. No máximo, resolve tudo na Cobal ou andando pela rua Voluntários da Pátria.

– O movimento do brechó é maior na loja de rua, mas antes de fechar negócio tinha receio quanto à segurança. Cheguei até a pensar em contratar os serviços do segurança do prédio antigo, mas, conversando com vizinhos, conclui que isso não seria necessário – admite ela, que mora e trabalha no mesmo prédio, do qual é também a atual síndica.

De fato, nesses 10 anos na Capitão Salomão, Het não teve problemas de segurança, mas já precisou ceder imagens das câmeras que instalou na frente de sua loja para um caso de roubo de celular e outro de estupro. Infelizmente, as imagens não ajudaram na solução ou identificação dos bandidos: “O problema não é só aqui. O país está numa pobreza danada, muita gente morando nas ruas”, lamenta.

Het conhece todo mundo nas redondezas, que, na sua opinião, é ótima para morar e trabalhar. A região conhecida como Baixo Humaitá lhe dá alento, por estar sempre se reinventando, com a abertura de novos lugares, como o restaurante Garagem e os bares Boleia e Macaco Caolho, que convivem bem, apesar de atraírem públicos diversos. “O quarteirão é bastante movimentado, com gente de todas as idades e estilos. Mesmo estabelecimentos antigos, como o Mezza Bar e o Fuscas, mantêm o fôlego”, destaca ela, que sente falta de um bar que toque jazz. Os clientes – assim como ela – sentem falta das festas. Quando o Só Traças completou 30 anos, em abril, a comerciante promoveu uma para amigos e clientes, como nos velhos tempos.

Het, aliás, não só gosta de música, como criou a playlist “Brechó Só Traças”, no Spotify, que já conta com mais de 1800 faixas. A lista é eclética e incluiu pop, rock, jazz, MPB, Bossa Nova e canções francesas e italianas. O brechó tem também um perfil no Instagram, mas a comerciante confessa que, às vezes, tem preguiça de postar.

Ela acredita que grande parte de seu público hoje venha por referência do Google. A modelo inglesa Kate Moss é uma delas, mas muitos atores brasileiros também costumam passar por lá. Entre os que voltam com mais frequência está a atriz Isabela Garcia, moradora do Humaitá e uma de suas clientes mais antigas: “Ela costumava levar o filho João, que é músico e passou a ir ao brechó mesmo sozinho, depois de adulto”, observa Het. Os maiores “ratos do brechó”, entretanto, são os produtores de cinema, teatro e TV. Como as peças que estão à venda são consignadas, Het não pode emprestá-las aos profissionais. No máximo, os produtores conhecidos conseguem levar para os atores provarem, comprometendo-se a comprar o que servir.

– As roupas são os itens mais vendidos, sendo que o inverno é a época de maior procura. Temos sempre casacos, jaquetas, botas, cachecol… Os preços vão de R$ 2,00 a R$ 2.000,00, no caso de bolsas de grife – conclui Het, que tem quase quatro mil peças à venda atualmente em sua loja.

*Texto e fotos: Betina Dowsley

6 comentários em “À MODA DE HET DE CARVALHO

  1. JB, muito obrigada! O reconhecimento do nosso trabalho é muito gratificante!! A matéria ficou excelente, gostei de ler sobre a história do Brechó, relembrar um pouco minha trajetória.

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