UMA FICÇÃO CHEIA DE VERDADES

“É um romance sobre o inimaginável, baseado no ápice do horror que o machismo pode produzir: o estupro.” É assim que a escritora carioca Tatiana Salem Levy apresenta seu novo livro “Vista Chinesa”, que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Todavia. A autora, que mora em Portugal, estará presente na próxima terça-feira, dia 24, às 19h, na Janela Livraria para o lançamento do livro e uma conversa com a jornalista Beatriz Resende.

A história é baseada no estupro que uma de suas melhores amigas – a diretora de TV Joana Jabace – sofreu em 2014. Ela saiu para correr, no meio da tarde, rumo à Vista Chinesa, no Rio de Janeiro, e foi levada para o meio da Floresta da Tijuca. No livro, Joana é a personagem Júlia, sócia de um escritório de arquitetura, que sai para correr no Alto da Boa Vista, e, à certa altura, um homem encosta um revólver na sua cabeça e a leva para dentro da mata. Largada no meio da floresta, ela se arrasta para casa, onde uma amiga lhe presta os primeiros socorros.

“Naquele momento em que quase morri, eu morri. Ele foi embora e eu fiquei morta. Lembro de me virar, olhar para o céu e ter a sensação de que havia morrido, de ver as estrelas, de ouvir o som, como se alguma coisa estivesse se descolando do meu corpo. Eu estava indo embora.” Este é um dos fragmentos da carta que Júlia resolve escrever aos filhos pequenos relatando o estupro que sofreu, cinco anos antes. “Pensando melhor, não é bem uma carta. É mais um testemunho. Um testemunho, não. Um testamento. O testamento que eu não quero deixar para vocês”, diz a personagem.

A história é narrada para os filhos da protagonista anos depois do terrível episódio. Os fatos retrocedem e avançam no tempo. Temos o início de namoro de Júlia, sua lua de mel numa praia paradisíaca, a gestação. São momentos em que habilmente a autora constrói outra visão do corpo e da sexualidade de Júlia como uma prova, para quem cometeu a violência e para si mesma, de que ela é ainda a dona da própria história.

Na obra de Levy, o tempo não é linear, ele é cortado constantemente, como acontece com a memória de Júlia durante os depoimentos à polícia, em que os detalhes do terror se perdem, ao mesmo tempo em que estão, desde a pavorosa realidade de sua experiência, sempre presentes. A decisão de misturar várias memórias foi decisiva para a autora encontrar o ritmo incessante do texto, que faz o leitor não conseguir largar a narrativa.  

Vista Chinesa
Tatiana Salem Levy
Editora Todavia
112 Páginas
R$ 34,90

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