ALBERTO SARAIVA FALA SOBRE SEU PAPEL NA EAV

Com mais de 20 anos de experiência em gestão de projetos e instituições culturais, o arte-educador, museólogo e curador Alberto Saraiva foi nomeado Diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage há pouco mais de dois meses pela Secretária Estadual de Cultura, Danielle Barros. A nomeação contou com a aprovação do Conselho da Associação de Amigos da EAV e apoio do corpo docente da Escola, onde ele estudou nos anos 1990. Saraiva está terminando seu mestrado em museologia e havia se candidatado a professor da instituição, quando soube da vaga de diretor: “Como disse um amigo, entrei na fila para comprar pipoca e acabei levando o combo”, brinca.

Saraiva é o 18º diretor da EAV e foi escolhido por sua trajetória profissional e produção acadêmica. Ele foi curador do Oi Futuro e desenvolveu trabalhos de curadoria para a Maison Européenne de La Photographie (Paris – França) e o Open Arts Project Varsóvia (Polônia), além de ter sido cocurador no Pavilhão Vozes Indígenas, na Bienal de Veneza (2015). À frente da EAV, ele pretende “desenvolver uma programação com ênfase na produção dos professores, inclusive já adotei uma comissão curatorial, formada pelos professores Adriana Nakamuta, André Sheik e Xico Chaves”.

Hoje, a EAV é, segundo o novo diretor, “o cartão postal ‘queridinho’ do Brasil, recebendo gente do mundo todo – de 16 a 70 mil pessoas por final de semana – para tirar foto à frente da piscina e do Cristo”. Dentre os principais desafios de Saraiva estão administrar essa afluência de público e buscar a harmonia com os órgãos públicos federais ICMBio e Iphan, principais parceiros da instituição.

JB em Folhas: Qual era sua relação com a Escola de Artes Visuais do Parque Lage antes de assumir sua direção?

Alberto Saraiva: Estudei aqui nos anos 1990, por 10 anos, e continuei conectado à escola e seus professores. Já fui curador da maioria deles. Como aluno, fiz os cursos de “Cor”, com o José Maria Dias da Cruz; de “Modelo Vivo”, com o Gianguido Bonfanti; e de “Pintura”, com a Katie Van Scherpenberg, na mesma época da Lúcia Laguna. Minha recepção agora foi muito boa por parte dos professores, porque eles me olham como professor, ex-aluno, curador, teórico e crítico de arte.

JBF: Quais são seus principais desafios à frente da Escola?

AS: O maior desafio é transformar esse público da selfie no público da Escola. A maioria vem fazer a foto sem saber que está numa escola de arte. Agora estamos fazendo um estudo para fazer a recepção desse público. Eu mesmo tenho feito às vezes de guia durante a semana. Me apresento na fila de entrada como diretor da escola e ofereço uma visita guiada pelo palacete. Recebo as famílias e conto a história da Gabriella Besanzoni, do Henrique Lage, da casa, do Rio de Janeiro e suas conexões com a floresta.

Estamos tentando criar os ambientes onde essas informações possam estar e dispensar a presença de um guia, porque isso depende de orçamento – e isso aqui é difícil. Uma das ideias é colocar um áudio da Besanzoni cantando no Salão Nobre, com exibição de um vídeo autoexplicativo. De lá, a visita segue até a copa/cozinha, passa pelo lugar da selfie e desce para conhecer a galeria de exposições do 1º andar, que está sendo reativada.

JBF: Quais foram as consequências da pandemia na EAV?

AS: A escola se abriu para o Brasil e para o mundo. Eu sou do Amazonas. Para estudar aqui, tive que me mudar para o Rio. Hoje é diferente. A escola ganhou em matrícula, cresceu e conseguiu subverter a tendência de fechamento, favorecendo alunos. Nos últimos dois anos, só do meu estado, tivemos oito inscritos, da Bahia foram 35 e de São Paulo, 414, fora alunos de outros países. Este ano, estamos com mais de 600 alunos. Todo mundo precisou se adaptar, percebemos que esse movimento não tem mais volta. Esta foi a segunda missão que a Secretária [de Cultura] me impôs: transformar a escola para que ela funcione, efetivamente, no modo on-line. Para isso, estamos estudando o melhor formato de EAD [ensino à distância] para termos nosso próprio ambiente.

JBF: E qual é o futuro da EAV?

AS: É preciso que a estrutura da escola esteja bem desenhada e sólida para que não fique dependente dos contratos de locação para sua manutenção. Se conseguirmos funcionar como escola para o Brasil e para o mundo, com uma quantidade boa de alunos, acho que a escola consegue se autogerir e ser autossustentável. O dia que isso acontecer, a escola pode até deixar de ter eventos fechados [casamentos e festas particulares]. Somos um case de sucesso, formamos uma geração de pintores, artistas conceituais, fotógrafos, videoartistas e curadores.

A escola entendeu seu compromisso com a sociedade e passou a ter, de forma efetiva, bolsas de estudo e programa de formação para pessoas de todo o estado do Rio de Janeiro, como os programas Formação e Deformação. Nesse caso, ser de outros municípios passou a ser um dos critérios de seleção agora. Com isso, de cada 18 novos selecionados, sete são de outros municípios. Eles recebem bolsa de R$ 300,00 e contam com dois encontros por semana, um presencial e outro on-line.

JBF: Qual está a programação para o próximo ano?

AS: Ainda não foi definida, pois ainda não houve captação de recursos para isso. A ideia é priorizar a programação até o final do ano, reativar a galeria do 1º andar e ocupar as Cavalariças e a Capelinha. Como o ponto focal da minha administração é a aproximação com o corpo docente, a ideia é promover diálogos entre professores e alunos, como as duplas Chico Cunha e Paloma Ariston e Gustavo Alves e Gianguido Bonfanti. Nós somos uma escola de arte. Ao longo do tempo isso se confundiu um pouco com a imagem de um centro cultural. Enquanto escola, temos que mostrar nossa própria produção.

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