AS MIL FACETAS DE JOSÉ LAVIGNE

Numa época em que imagem vale muito, José Lavigne pode passear incógnito pelas ruas do Jardim Botânico, bairro que escolheu para morar há cerca de 50 anos. Além dos óculos escuros, a maioria de seus papeis é por trás das câmeras e, como ator, a maquiagem pesada preserva sua identidade, já que encarnou – ou seria “desencarnou”? – o Tio Gerúndio, do infantil “Pluft, o Fantasminha”, cinco vezes no teatro e a sexta, agora, no cinema. A primeira vez foi em 1972, quando ingressou no Tablado. A menina Maribel era interpretada por Cacá Mourthé, sua primeira namorada.

Lavigne com Cacá e Rosane nos bastidores de “Pluft”

Os dois ficaram amigos a vida toda. Além de outras montagens, eles assinam o roteiro da versão cinematográfica da peça. Lavigne conta que foi um grande desafio fazer a adaptação, mas garante que se divertiu “horrores” durante os dois anos de trabalho, feito com muito carinho.

– A diretora Rosane Svartman acertou em seguir com foco no público infantil, fugindo do estilo Marvel. O problema é que nos dias de hoje não podíamos dizer que o pirata queria casar com a menina, por exemplo – pontua o roteirista.

Há sete anos, José Lavigne mudou da Maria Angélica, onde morou a metade de sua vida, para um flat perto da rua Pacheco Leão, com vista para o Jardim Botânico do Rio de Janeiro à esquerda e para o Cristo, à direita. Ele já tinha o apartamento, mas até então nunca havia pensado em viver nele. A outra possibilidade era na Lagoa, num ponto um pouco mais afastado, mas chegou à conclusão de que “aos 60 anos, preciso morar onde tem coisa perto”.

Acertou na escolha. Ele diz encontrar tudo a poucos passos de sua casa, “até cueca e meia dá para resolver nas Lojas Americanas”. Lavigne corta o cabelo com o Manoelzinho, da Barbearia do Bairro, adora o Filé de Ouro e frequenta o Nanquim e o Prana, do qual um dos sócios estudou com seu filho. Sem falar do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que ele frequenta “desde que a floração de vitórias-régias era notícia de jornal”:

– Bons tempos aqueles em que as pessoas davam valor a esse tipo de coisa. O Jardim Botânico é o único lugar do mundo que tem essa combinação de árvores, flores, além de um apiário de abelhas silvestres – observa o ator e diretor, que não resiste a um bom pão. – Sempre que chego de São Pedro da Serra, onde passo boa parte do meu tempo atualmente, vou correndo comer um sanduíche qualquer do La Bicyclette.

Se a carreira de José Lavigne começou no teatro, foi a TV que o consagrou. Depois de Armação Ilimitada e TV Pirata, ele fez história no humor, dirigindo a turma do Casseta & Planeta ao longo de 20 anos:

– Já fiz muita coisa nessa vida, mas, sem dúvida, meu trabalho mais importante foi com o grupo Casseta & Planeta, na Globo. O trabalho me proporcionou uma vida legal, com oportunidades incríveis, como ir à Antártida e a Copas do Mundo. A popularidade do programa, exibido em horário nobre, nos permitia viajar, em todos os sentidos. Nós tínhamos uma liberdade enorme, coisa que hoje em dia não existe mais. Era muito divertido, a gente estava sempre buscando uma estratégia para derrubar o Ratinho [programa do SBT] – recorda.

Naquela época, ainda não havia pressão por temas e expressões politicamente corretas. Na sua opinião, tudo isso é importante, mesmo que ele mesmo nunca tenha considerado que o que faziam poderia ser considerado bulling. Ali tudo sempre foi brincadeira, e ele não imaginava que alguém pudesse se ofender com coisas daquele tipo.

– Hoje reconheço que isso pode acontecer. Uma das cenas mais absurdas aconteceu na Copa do Mundo de 1994. Fazíamos muitos quadros exibidos nos programas jornalísticos e, certa vez, antes de um jogo Brasil x Camarões, estávamos no Jornal Nacional e dissemos que íamos entrar na concentração do adversário. Na hora, fechamos o diafragma da câmera, deixando a imagem toda preta por 30 segundos, só com o áudio aberto, enquanto eles soltavam frases racistas, como “Não tô enxergando nada, tá tudo preto aqui” – descreve a cena inimaginável nos dias de hoje.

Fazer graça hoje em dia exige muito cuidado e atenção. Lavigne gosta da turma do Porta dos Fundos, que, na sua opinião, “deu uma polida no humor”: “O programa do [Fábio] Porchat é bom; o [Marcelo] Adnet é um gênio da imitação, tem uma inteligência muito rápida, fora do padrão; mas o Gregório [Duvivier] é hors concours em termos de conteúdo com seu “Greg News”, dele e do Bruno Torturra”, destaca ele, que vem buscando diferentes espaços. Antes da pandemia, curtiu o convite para ser supervisor de uma websérie no YouTube chamada “Sitconha” e dirigiu o filme “Cedo Demais”, com Thati Lopes, Yuri Marçal, Vitor Thiré e Kayky Brito, que aguarda definição de uma data de lançamento da Raccord e da Fox.

– Os jovens não ficam mais sentados na frente da TV, que, atualmente, deveria ser tratada como rádio AM. Ninguém mais fica preso à programação, os nichos são mínimos e difíceis de penetrar – reconhece.

José Lavigne diz que, daqui pra frente, só quer saber de escrever roteiros, como “O dia que John Lennon morreu”, no qual está trabalhando no momento, “com cenas de perseguição, tradição, família e sociedade”. Seu objetivo é transformá-lo em série da Disney. A ideia é dos tempos do grupo Manhas e Manias, que integrou nos anos 1980. Eles queriam fazer um vídeo sobre John Lennon, mas não sabiam que precisariam de dois equipamentos para isso. Como só tinham um, pegaram outro emprestado com o pai do Márcio Trigo, um dos membros da trupe. O aparelho de vídeo quebrou logo no primeiro minuto e, para ressarcir o prejuízo, teve que distribuir filipetas vestido de galinha e fazer animação de festa infantil. Com 50 anos de experiência, Lavigne retoma o projeto, agora com André Pellegrino, seu parceiro do “Sitconha”, com quem vem trabalhando há três anos pela internet.

O maior desejo de Lavigne, no entanto, é ver o filme “Pluft, o Fantasminha”, que estreia em 21 de julho, fazer carreira internacional: “A história tem uma poesia perene. As piadas que fiz com a Cacá funcionam, mas o texto da Maria Clara Machado é uma obra-prima do teatro brasileiro. Seu discurso de tolerância, em que tanto faz ser gente, fantasma, gay ou o que for, está mais atual do que nunca. Estamos precisando muito disso no Brasil de hoje”, analisa.

*Por Betina Dowsley

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