O CLÁSSICO INFANTIL “PLUFT” CHEGA AOS CINEMAS EM 3D

*Por Betina Dowsley

Depois de anos de expectativa, o filme “Pluft, o Fantasminha” estreia nesta quinta-feira, dia 21 de julho, nos cinemas. A produção estimula, com efeitos especiais e imagens em 3D, o encantamento das novas gerações pela obra e sua narrativa de inclusão e tolerância fundamental nos dias de hoje.

A ideia de transformar a peça em filme foi da diretora Rosane Svartman, que, junto com sua sócia Clélia Bessa, procurou a herdeira de Maria Clara, Cacá Mourthé, há cerca de dez anos. Como a proposta não era inédita e havendo outras semelhantes na disputa, era preciso pensar em algo realmente novo. A solução encontrada foi usar efeitos especiais e técnicas de ilusionismo, além de linguagem 3D. O roteiro ficou por conta de Cacá e de seu amigo de longa data José Lavigne, que trabalharam muitos anos com a própria autora no Tablado. Até aqui, todos os envolvidos são moradores do JB.

– Foi maravilhoso mergulhar no universo do “Pluft, o fantasminha” com uma outra ótica. Graças à sensibilidade e ao cuidado da Rosane, da Clélia e de toda a equipe, conseguimos fazer um belo trabalho. Sem falar na ótima parceria com meu grande amigo José Lavigne para escrever o roteiro – comenta Cacá.

A história do clássico da dramaturgia infantil brasileira, escrita por Maria Clara Machado em 1955, está intimamente ligada ao Jardim Botânico. Das primeiras montagens teatrais no palco do teatro O Tablado à idealização, roteiro e produção deste novo filme, sem falar de sua primeira versão cinematográfica, de 1962, que tinha música de Tom Jobim e trazia, como a menina Maribel, a artista plástica Ira Etz, moradora do Horto há mais de 50 anos.

O resultado que chega às telas do país nestas férias de julho é o primeiro filme infantil brasileiro de live-action em 3D, além de contar com o pioneirismo na utilização de filmagens subaquáticas para dar vida ao universo dos fantasmas. Tudo isso feito – vá lá – no Brasil, com profissionais nacionais e tecnologia 100% nacional. O elenco mescla atores consagrados, como Fabíula Nascimento (Mãe Fantasma) e Juliano Cazarré (Pirata Perna-de-Pau), com os novos Nicolas Cruz (Pluft) e Lola Belli (Maribel), além de Arthur Aguiar (marujo Sebastião), José Lavigne (Tio Gerúndio) e participações especiais de Gregório Duvivier e Ricardo Kosovski, respectivamente ex-aluno e atual professor do Tablado. Para completar, a trilha sonora é de Tim Rescala e Frejat interpreta a música-tema do filme.


PLUFT E O DOM DE ENCANTAR PLATEIAS AO LONGO DO TEMPO

*Por Chris Martins

Se em Hollywood nunca houve uma mulher como Gilda, aqui, no Brasil, no teatro infantil, nunca houve um fantasma como Pluft. O clássico de Maria Clara Machado foi escrito em 1955 e ganhou projeção internacional, sendo traduzido para diversos idiomas e encenado na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos. Oficialmente, “Pluft, o Fanstaminha” foi encenado oito vezes no teatro O Tablado, além de contar com duas versões cinematográficas (1962 e 2022). E o espetáculo ainda foi narrado em disco de vinil, que hoje é relíquia para alguns colecionadores.

A primeira montagem aconteceu em 1955, com Carmem Sílvia Murgel, no papel principal, e Kalma Murtinho, como a Senhora Fantasma. Kalma, que seguiu a carreira de estilista, foi responsável pelo figurino de todos os espetáculos, salvo o de 2013, quando veio a falecer. Mesmo assim, como explicou Cacá Mourthé, a figurinista foi coautora do jeito do Pluft de ser: “Ela sempre falava que a manga morcego era fundamental porque tirava o formato do braço e da perna, para não ficar caracterizado um menino, e sim um fantasminha. Essa modelagem foi adotada por todas as montagens, mesmo em 2013. Até no novo filme, a figurinista Márcia Tacsir seguiu o estilo da Kalma, com a manga morcego”, observa Cacá.

Nas montagens, os papéis de Pluft, Senhora Fantasma e Tio Gerúndio sempre foram os que mais tiveram destaque.  Lúcia Marina Accioli foi a protagonista em 1964 e, dez anos depois, foi a vez de Louise Cardoso encenar o simpático fantasminha.

– Eu tinha 20 anos e trabalhava como assistente de direção na peça, quando a Sura (Berditchevsky) pegou hepatite e Maria Clara me escalou. Eu pedi para fazer um Pluft mais animadinho, mais criança, e ela topou. Maria Clara sempre foi muito aberta para experimentações. E assim eu fiz um Pluft solar, que corria e pulava no palco – conta a atriz que ficou dois anos em cartaz com o espetáculo.

A diretora Cacá Mourthé interpretou e dirigiu Pluft diversas vezes. Como atriz, nas montagens de 1977 e de 1985, quando dividiu o personagem com Luiz Carlos Tourinho. “Na primeira vez, eu tinha 16 anos e tive que ensaiar rapidamente porque o Tablado estava sem caixa e, quando isso acontecia, Maria Clara tinha três peças que lotavam: “O Cavalinho azul”, “A Menina e o vento” e “Pluft”, que era uma produção rápida e já tínhamos tudo pronto”, lembra ela, que dirigiu as duas últimas montagens da peça, em 2003 e 2013, com Claudia Abreu no papel principal.

Pluft no Tablado: as duas primeiras fotos são de 1974, as coloridas são de 2003 e 2013 e a última, em preto e branco, é de 1977.

O espetáculo de 2003 contou novamente com Louise Cardoso no elenco, desta vez no papel de Senhora Fantasma, mãe de Pluft. “Eu quis fazer uma mãe, diferente, meio louca, com o cabelo arrepiado, que chamava a atenção da plateia”, conta a atriz que, em 2013, não pôde fazer a peça e foi substituída por Maria Clara Gueiros.

E se Pluft e a Senhora Fantasma tiveram seus representantes, o Tio Gerúndio não ficou atrás e também ganhou intérpretes de peso, como Fernando Reski (1964), Bernardo Jablonski (1974) e Leandro Hassum (1995). Mas foi José Lavigne quem marcou mais como o sonolento tio fantasma, nas montagens de 1977, 2003 e 2013. Tanto que ele acabou sendo escalado para a versão cinematográfica.

Para Louise, o segredo de Pluft está na dramaturgia perfeita, que fez com que ele fosse ficando popular, no bom sentido, ao longo do tempo.  “Uma das minhas partes preferidas é quando ele diz “Mamãe, corre aqui que a menina está derramando o mar todo pelos olhos. É muito poético”, lembra a atriz que vai levar a afilhada para ver o filme. “A tecnologia é super bem-vinda, acho ótimo que a história ganhe esta modernização”, apoia.

Além da versão cinematográfica, o clássico infantil brasileiro atravessou o oceano para um evento em homenagem à Maria Clara Machado, na Travessia das Letras 2022. Um elenco “tabladiano”, incluindo Cacá Mourthé, Ricardo Kosovski, Antonio Grassi e Roberto Bomtempo, aportou em Portugal, em maio, para uma leitura dramatizada da peça. E assim o fantasminha que tem medo de gente segue encantando as novas gerações, permanecendo vivo, há quase 70 anos, no imaginário de crianças e adultos.

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