GALPÃO DAS ARTES REFLETE O BRILHO DO LIXO

O Galpão das Artes Urbanas Helio G. Pellegrino / Comlurb acaba de completar 20 anos de atividades relacionadas à cultura, sustentabilidade, educação e responsabilidade social. Desde sua inauguração, o espaço busca estabelecer um diálogo com a sociedade sobre um tema perto de todos: o lixo. O lugar reúne artistas, profissionais e cidadãos envolvidos na requalificação dos resíduos sólidos urbanos, com o objetivo de mostrar a importância da preservação do meio ambiente. Para comemorar o aniversário, está em cartaz, até 10 de setembro, a exposição “Resíduos Enquadrados”, do gari-artista Oséias da Matta, que reúne 13 quadros feitos com material reciclado.

Com 50 anos de idade e há 17 na Comlurb, Oséias sempre gostou de arte e começou a reaproveitar os materiais descartados em suas obras depois que sofreu um acidente e ficou impossibilitado de trabalhar nas ruas, passando a integrar a equipe de serviços internos do próprio Galpão. Em suas horas de folga, ele seleciona os materiais doados ou descartados na coleta seletiva para criar peças inusitadas, como um quadro de uma águia feito com penas formadas por pequenos retalhos de couro recortados e um autorretrato com tintas e barbante, ambos com reaproveitamento de telas descartadas.

– Este trabalho é uma viagem. Eu ligo o radinho e viajo para outro universo. O quadro da águia surgiu a partir de uma bolsa cheia de retalhos de couro. Comecei a cortar e foi tomando forma – afirma o artista.

O Galpão das Artes Urbanas é um projeto pioneiro no Brasil, voltado para o reaproveitamento de materiais para a preservação do meio ambiente e conta com participação de inúmeros artistas voluntários, que apresentam exposições, aulas, oficinas e workshops. Ao longo de sua história, o Galpão promoveu atividades de arte e educação, além de ter realizado exposições de dezenas de artistas e artesãos, que utilizam resíduos urbanos como matéria-prima para suas obras. Antes chamado de Galpão das Artes Recicladas Hélio G. Pellegrino, o espaço funciona numa área restaurada embaixo do viaduto da autoestrada Lagoa-Barra e recebe todo o tipo de material reciclável, de lixo eletrônico a tampinhas de metal e rolhas.

Retrospectiva

O Galpão das Artes Urbanas foi inaugurado com a exibição dos trabalhos de Sebastião Feijó (móveis com garrafas plásticas pet), Sérgio César (“Voyer”, de casarios e bolsas em caixas de papelão), Sérgio Marimba (fotos e esculturas de ferro reciclado). O evento contou também com apresentação do bloco Dalailata, formado por um grupo de jovens tocando instrumentos de percussão, feitos com material reciclado; e com o desfile de Moda Reciclada, com participação de Almir França (reaproveitamento de tecidos, refugos de indústrias de moda), Denis Linhares (roupas de penas e restos de carnaval), Jerry Fernando (roupas feitas com aproveitamento de papel de bala, filtro Melita etc).

Entre as exposições que foram destaque do GAU estão “Brincadeira é Coisa de Criança”, de Miriá Couto; “Abreugrafia do Cinema Brasileiro”, de Marimba; “Relações – Instalações de Esculturas”, com o artista plástico português João Castro Silva, com peças de madeira reaproveitadas de mais de 2m de altura; e “Luz do Lixo”, de Rogério Ehrlich, com fotos feitas com restos de alegorias, adereços e fantasias abandonadas após os desfiles de carnaval no Sambódromo. Outras mostras bem-sucedidas foram “RIO, de Tudo um Pouco”, do artista plástico e psicanalista Marco Antônio Figueiredo; “O Papel do Papel”, de Núbia Pinheiro; o “Soldador da Arte”, de Jaime dos Santos, que trabalhava na Fábrica da Comlurb e expôs suas obras em metal; e “Totem da Paz & Etc”, de Samuel Rodrigues de Souza, a partir do reaproveitamento de pneus.

Outras manifestações artísticas tiveram espaço no GAU, como o movimento “Ideias Mescladas”, que levou ao local a arte das ruas e a cultura Hip Hop, com música, dança, grafite e capoeira. A partir de 2015, o Galpão se aproximou ainda mais do carnaval graças a uma parceria com o Vagalume, O Verde, do Horto. O bloco destaca-se por sua proposta sustentável, baseada no reaproveitamento de materiais para confecção de seus estandartes e fantasias, que passaram a ser produzidos no local, em oficinas realizadas antes da folia. Em 2016, foi a vez do arquiteto que dá nome ao espaço ocupar o Galpão com a exposição “Sanha africana”, com suas pinturas em tinta acrílica e desenhos em bico de pena.

O GAU esteve fechado no período mais crítico da pandemia, quando desenvolveu cursos e oficinas de artes e reciclagem on-line, ministrados por artistas voluntários. Em junho de 2021, a solução para homenagear o Dia Mundial do Meio Ambiente foi, mais uma vez, adequar o formato dos eventos ao cotidiano. A mostra “Vida e Arte dos Resíduos” foi realizada ao ar livre, no Parque Natural Dois Irmãos – Dois Cariocas – Sérgio Bernardes e Alfredo Sirkis (Leblon); enquanto “Nós Somos o Meio Ambiente, #oviadutodobem”, foi uma mostra virtual, realizada no canal do Galpão das Artes no YouTube, com obras de artistas da Comlurb, incluindo uma de João “Bives” Burle, que trabalha no Departamento de Comunicação da empresa.

A reabertura do Galpão das Artes Urbanas Hélio Pellegrino ocorreu em março de 2022 com a exposição “A-Fora: Anotações para um Novo Tempo”, de Jorge Chaves.

Galpão das Artes Urbanas Helio G. Pellegrino – GAU
Av. Padre Leonel Franca, s/n° – Gávea
Contato: 3890-4960 / 99002-1981 / galpaodasartes@gmail.com
Horário: de segunda a sexta, das 9h às 16h

*Por Betina Dowsley

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