10 de julho de 2025
20 ANOS DE ELEGÂNCIA E CULTURA

Texto: Gabriela Chambarelli | Fotos: Chris Martins e acervo pessoal

Com olhar atento e sensibilidade apurada, Roberta Damasceno construiu, ao longo dos anos, um espaço singular no cenário da moda brasileira. Desde 2005, a  Dona Coisa, loja multimarcas que fundou no Jardim Botânico, tornou-se referência em curadoria autoral, sofisticação e um olhar que alia moda, cultura e vida cotidiana com naturalidade.

– Queria ter numa loja tudo o que eu amo – diz Roberta, com simplicidade, ao relembrar o surgimento da loja, que mantém há 20 anos. 

A ideia nasceu do desejo de oferecer roupas, objetos e marcas que ela mesma admirava, em um espaço que fosse, ao mesmo tempo, loja e extensão de suas referências pessoais. O nome, que poderia parecer estranho à primeira vista, acabou se tornando assinatura, um lugar onde cabem peças de moda, joias, chocolates, flores e, sobretudo, histórias.

Antes de entrar no universo da moda, Roberta passou pelo mercado financeiro. Mas o gosto por roupas a acompanhava desde sempre. Ainda nos anos 1990, quando morou em São Paulo, teve seu primeiro contato mais direto com o setor e, anos depois, de volta ao Rio, abriu um brechó ao lado do irmão cenógrafo. “Minha trajetória foi se construindo aos poucos, com muitas voltas”, –  conta. Depois de perder o irmão, transformou o espaço do brechó em galeria de arte e, mais adiante, com o apoio do então marido Luís Clemente realizou o sonho de abrir a loja que há anos idealizava.

– Tinha tudo para dar errado, com uma loja com um nome fora do comum, em um lugar onde o comércio de roupas não era o forte.  Uma reportagem no jornal O Globo impulsionou o negócio. Com o tempo, Dona Coisa passou a ser o destino almejado dentro do bairro – afirma Roberta, ciente de que o reconhecimento se deve à sua curadoria, precisa, sensível e aberta. Ela apostou desde cedo em nomes como Marisa Ribeiro, Gilda Midani e Sônia Pinto, além de receber estilistas que chegavam com pouca estrutura, mas muito talento.

A empresária criou a sua própria marca há 10 anos  (Foto Chris Martins)

Em 2015, para celebrar os dez anos da loja, nasceu a N.Dez, marca própria pensada inicialmente para suprir um desejo pessoal: roupas bem cortadas, com bom tecido, de que Roberta sentia falta no mercado. O projeto cresceu com o apoio do atual marido, Paco Rodrigues, e a produção é vendida em multimarcas pelo Brasil, além de ganhar um espaço próprio em Pinheiros, São Paulo, com o mesmo cuidado estético e filosófico da loja-mãe.

Apesar do crescimento, a essência da Dona Coisa permanece a mesma. “Sempre pensei na moda com o tripé, qualidade, conforto e atemporalidade –  diz Roberta. Sua visão vai na contramão do consumo acelerado, aposta em peças que duram, valorizam o corpo sem precisar seguir tendências.

Dentro da Dona Coisa, um bazar reúne peças de coleções antigas (Foto: Chris Martins)

– Uma roupa boa custa mais, sim, mas também dura mais, não vira lixo, e te faz se sentir melhor com você mesma – reflete a empresária que mantém um brechó dentro da loja com peças de outras coleções.

Moradora do Jardim Botânico, Roberta vive o bairro com intensidade. Começa o dia às quatro da manhã, pedalando de bicicleta até o Cristo, acompanhada por Paco, frequenta os restaurantes locais, e costuma levar seu cachorro, Leonardo, o segundo filho como brinca, para passear. Cruza a rua até a loja como quem atravessa a sala de casa. Seu estilo de vida reflete o espírito da Dona Coisa: elegante, mas sem afetação, refinado, mas próximo.

  Roberta com o marido Paco e o cão Leonardo, o segundo filho (Foto: Acervo pessoal)

O mundo de Roberta está em um quarteirão da Rua Lopes Quintas. Para além da moda, a loja teve, como anexo, o Café Lá em Cima, também pontuado por marcas conhecidas como a Granado — e está sempre promovendo cultura. Seja através de exposições, lançamentos de livros ou com as reuniões do clube do livro. Ali, clientes apaixonadas por literatura se encontram para ler e debater sobre clássicos ou alguma novidade do mercado editorial, sob a curadoria de Simone Barata. O próximo acontece dia 30 de julho, quarta-feira, a partir das 17h30.

– Sempre achei que a moda sozinha não se sustenta. Precisa estar junto de arte, de cultura, de encontros – reflete a empresária.

O Clube do Livro se reúne uma vez por mês. O próximo encontro será 30/7 (Foto: Divulgação)

A ideia de comunidade também permeia sua relação com o bairro. Roberta fala com carinho das lojas e cafés que resistem, dos vizinhos, das mudanças no comércio local. Reivindica mais segurança e sonha com um hotel charmoso na região, algo que acredita que falta para valorizar ainda mais o Jardim Botânico.

Aos 20 anos de Dona Coisa e quase dez da Número 10, Roberta segue em movimento, entre a loja, a fábrica, os encontros com clientes e o cuidado com os detalhes. Realizada profissionalmente, ela construiu um modo de ver e viver a moda e, com ele, um espaço afetivo que permanece relevante porque escolheu não se moldar ao tempo, mas atravessá-lo com coerência. Sem pressa, sem exageros, mas com firmeza e clareza de propósito.

– Manter uma loja por duas décadas no Brasil é quase um milagre. Mas eu acho que conseguimos porque nunca fugimos da nossa essência.

 *Conteúdo produzido pela aluna Gabriela Chambarelli, através da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.

 

 

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