Texto: Simone Intrator
Me interessei por Cristina Peri Rossi ao saber que havia escrito um livro de poemas chamado “Nossa vingança é o amor”. Fui atrás dele, na livraria só tinha “A Insubmissa”. Na orelha do livro, me deparei com a seguinte frase: “Mas, um dia, farto dessa invasão permanente da sua biblioteca, meu tio me deteve quando eu fugia do seu quarto com um livro embaixo do braço e me perguntou:
– O que você quer ser quando crescer?
– Escritora – respondi sem hesitação.
Ele fez uma pausa e depois continuou.
– Quantos livros escritos por mulheres tem nessa biblioteca?
– Três – eu disse. – “Um quarto só seu”, de Virginia Woolf, uma antologia de poemas de Alfonsina Storni e outro, de poemas de Safo.
– Você leu a biografia delas? – perguntou.
– Sim – respondi.
– Você leu como elas morreram?
– Se suicidaram — eu disse.
– Pois aprenda a lição – me disse. – As mulheres não escrevem, e, quando escrevem, se suicidam.
Cristina não se suicidou e escreveu. Seu romance autobiográfico, vencedor do Prêmio Miguel de Cervantes, foi eleito pela revista “Quatro, Cinco, Um” como a melhor obra de Literatura Estrangeira do ano. “Nossa vingança…” venceu na categoria poesia. Uruguaia, Cristina conta nesta obra sua infância e juventude, coisas que estranhava, modos que não correspondiam ao fato de ser mulher, suas vontades incompreendidas (querer ser escritora, ser inapetente, amar mulheres, ser insubmissa, amar a linguagem). São memórias, ficcionais ou não, o que pouco importa, de uma vida brutalmente interrompida por um governo ditatorial que a fez fugir correndo do Uruguai. Tem tanta história, tantos questionamentos, estranhamentos, insubmissões e literatura que não deveríamos passar mais um dia sem este livro em mãos.
“A Insubmissa”
Cristina Peri Rossi
Bazar do Tempo
208 páginas
R$ 69,42




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