26 de fevereiro de 2026
O PÉ QUENTE DE ISADORA RUPPERT

Quando recebeu o Globo de Ouro 2026 de Melhor Filme em Língua Não Inglesa por  “O Agente Secreto”, o diretor Kleber Mendonça Filho dedicou o prêmio aos jovens cineastas e às pessoas que vêm fazendo a diferença no cinema brasileiro. O gesto ajuda a entender uma escolha que atravessa seu trabalho: buscar uma turma nova para compor o elenco. É nesse movimento que surge Isadora Rupert, que, em dois anos, participou de dois filmes premiados internacionalmente. Em “O Agente Secreto a atriz faz a arquivista Daniela, aparição lhe garantiu a chance de ir ao Festival de Cannes acompanhar a equipe na competição internacional, e também integrou o elenco de “Ainda Estou Aqui”, mostrando como personagens pequenos podem abrir portas grandes nesse novo fôlego do cinema brasileiro.

Apesar de ter nascido na Gávea, Isa passou a maior parte da infância morando em uma sítio em Jacarepaguá. Neste lugar, onde podia correr na grama e ser criança, vivia uma outra família que a marcaria para sempre, definindo sua trajetória: A Carroça de Mamulengos, companhia de arte formada em Brasília em 1977 pelo bonequeiro Carlos Gomide. Crescendo tão próxima desses brincantes, atores, músicos, palhaços e contadores de história itinerantes, Isa nunca teve dúvidas de onde estava sua paixão.

O teatro sempre fez parte dela, que começou aos cinco anos em uma montagem de “A bruxinha que era boa”, de Maria Clara Machado, na Escola Parque, onde estudou. Aos 11, quando convenceu sua mãe a matriculá-la no Teatro Tablado, já estava familiarizada com aquele universo, onde atuou, entre outras peças, em “O Cálice” – adaptação da obra “O Cálice Sagrado”, de Monty Python.

Isadora em “O Cálice” no Tablado (Fotos: Divulgação)

 

 

 

 

 

 

 

 

– Foi no Tablado que eu aprendi o meu ofício e entendi que o teatro é coisa séria. Você tem que ter seu corpo e voz sempre em dia para ensaiar. É um compromisso. Hoje, não basta ser atriz, você tem que saber se produzir, entender como montar uma peça, como funciona um teatro, um rider de luz, uma coxia e etc. Decorar falas e atuar é só uma parte dessa profissão – conta a atriz.

A paixão por estudar esta arte vem norteando Isadora e o que aprendeu em seus mais de dez anos de Tablado a acompanhou na faculdade de Artes Cênicas, na UNIRIO. Foi lá, em solo fértil para a criatividade, que se juntou com outros jovens talentos em 2022 para criar a “Má Companhia”. O grupo independente ocupou diversos teatros cariocas com a obra infantil “Ainda Sou Circo” e, recentemente, com “Dia de Jogo”, ambas dirigidas por Gabrielly Vianna e escritas por  Pedro Manoel Nabuco. 

Concomitantemente às atividades diante das luzes da ribalta e nas coxias do Rio, Isadora seguiu buscando espaço no audiovisual, a partir de uma oportunidade que surgiu no próprio Tablado. Aos 19 anos, ela trabalhava como assistente de Cacá Mourthé, diretora artística da escola, quando a cineasta Anita Rocha da Silveira apareceu em busca de atrizes para compor o elenco do longa-metragem “Medusa”, em 2021. Lá, teve a chance de fazer um teste e pode, oficialmente, dar seus primeiros passos em direção a outra grande paixão: o cinema. 

Eu falo que descobri minha vocação no teatro, mas na minha adolescência eu também comecei a ver muitos filmes. O cinema foi uma paixão que veio um pouco depois, mas com 14 anos passei a frequentar as sessões. Hoje vejo como essas duas formas de arte andam juntas na minha vida – explica a atriz que, poucos anos depois, teve a oportunidade de integrar a equipe de “Ainda Estou Aqui” e viajar para o Festival de Veneza.

Na adolescência, quando começava a explorar o universo cinematográfico, Isadora teve um primeiro contato com a obra de Kleber Mendonça Filho na escola, com o curta-metragem “Recife Frio”, e ficou encantada. Anos depois, surgiu a oportunidade de trabalhar com o cineasta quando estava passando um carnaval em Recife e viu uma chamada aberta para fazer parte do elenco do próximo filme de Kleber, que viria a ser “O Agente Secreto”.

A participação especial em “O Agente Secreto” (Foto: Divulgação)

Apesar de não ter o perfil que buscavam para a personagem, Isadora, usou os seus ensinamentos do Tablado sobre “saber se produzir” e foi atrás de uma oportunidade, elaborando um mini curta-metragem em que escreveu, atuou, e dirigiu. Aqueles quatro minutos de vídeo lhe renderam o teste que a colocou em uma das mais aclamadas obras da história do cinema nacional.

– Eu assisti ao filme pela primeira vez em Cannes, e foi uma experiência muito intensa. Eu estava feliz por estar ali, no Teatro Lumière, com duas mil pessoas, a sala completamente lotada. Foi emocionante me ver na tela, cercada de pessoas que admiro imensamente. Logo que acabou a sessão, teve uma coletiva de imprensa, e eu me vi sentada ao lado do Kleber. Eu simplesmente não acreditei – disse Isa em uma entrevista para a revista Rolling Stones.

A atriz junto com a equipe de “O Agente Secreto” em Cannes (Foto: Acervo Pessoal)

Entre seus planos, a atriz ainda tem o sonho de participar de uma novela, por conta do seu alcance popular e, eventualmente, dar aulas. E por mais incerto que o futuro seja, há uma certeza: onde quer que Isadora vá, levará consigo seu pé quente. 

– Fico muito feliz com a oportunidade que tive de trabalhar com dois grandes diretores, Kleber e Walter. Sempre foi um sonho. Quando eu era adolescente, pensava: “Imagina se um dia eu faço um filme que vai pro Oscar?” – lembra, achando graça.

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