Se ser mãe é padecer no paraíso, ser avó parece reunir o melhor dos dois mundos. Com mais experiência, menos cobranças e uma boa dose de maturidade, elas podem desfrutar do crescimento dos netos sem a pressão diária da criação dos filhos. Há apenas um detalhe: ao contrário das avós de antigamente, muitas das mulheres que hoje comemoram o Dia dos Avós, em 26 de julho, continuam trabalhando, frequentam academias, viajam e mantêm uma rotina intensa.
A imagem da avó sentada na cadeira de balanço ficou para trás. Aos 50, 60 ou 70 anos, elas estão conectadas, ativas e fazem questão de participar da vida dos netos, ainda que precisem disputar espaço na agenda entre reuniões, compromissos profissionais e atividades físicas. Afinal, acompanhar uma criança pequena exige fôlego.
Para a gerontóloga e psicóloga Eloisa Adler, a chegada dos netos representa uma importante ressignificação afetiva nessa etapa da vida.
— Esse momento surge como uma nova aquisição de fonte de amor, de novos vínculos, algo que nem sempre é tão fácil nessa fase da vida. É uma experiência gostosa e importante — afirma.
É o caso da educadora e comunicadora Heloisa Fischer, de 59 anos. Avó de Noah, de um ano, ela ainda administra uma rotina profissional intensa, mas protege com firmeza os dias reservados ao neto, que mora em Nova Friburgo.
— O plantão-avó é sagrado — resume.
A distância, aliás, é um desafio compartilhado por muitas famílias. A economista Isabella Nunes Pereira, de 64 anos, acompanha o crescimento do neto Bento, de 1 ano, por vídeos enviados quase diariamente pela filha. O menino mora em Amsterdã e os encontros presenciais dependem de longas viagens. No início de julho, Isabella embarca para a Holanda para participar da comemoração do primeiro aniversário do neto.
— Meu maior ajuste tem sido planejar a aposentadoria para poder passar mais tempo com ele durante as visitas. Enquanto isso, acompanho tudo pelos vídeos que chegam quase todos os dias — conta.
A tecnologia ajuda a reduzir a saudade, mas não substitui o contato presencial.
— Nada se compara a olhar no olho, abraçar apertado, brincar, cantar e dançar — diz Heloisa.
Conciliar a vida profissional com a vida de avó é uma das marcas dessa geração. Muitas dessas mulheres ainda estão no mercado de trabalho e precisam encontrar formas de equilibrar compromissos e afeto. Heloisa aprendeu a cercar os dias reservados ao neto com “arame farpado”, para que nenhum compromisso profissional invada esse espaço.
Já a editora, produtora e diretora de arte Flávia Lamas Portela divide a semana entre o trabalho e a convivência com a neta Antonia, de 1 ano. Os fins de semana são dedicados à família.
— Sou apaixonada pela Antonia. Brinco, converso, faço palhaçadas, leio para ela. Como trabalho muito, inclusive à noite, nossos momentos acontecem principalmente nos fins de semana.
A convivência também trouxe novos aprendizados. Flávia observa que muitas das práticas adotadas pela filha são bem diferentes daquelas que utilizou quando foi mãe.
— Muita coisa mudou. Hoje aprendemos junto com os filhos uma nova forma de cuidar e educar. É uma troca muito interessante.
Se o tempo é curto, a disposição precisa estar em dia. Não por acaso, muitas dessas avós incorporaram a atividade física à rotina. Heloisa treina força pelo menos três vezes por semana e comemora conseguir brincar no chão com Noah e levantar sem apoio. Flávia Lamas também mantém uma rotina de exercícios ao ar livre na Lagoa.
A publicitária Flávia Paranhos, de 60 anos, avó de Serena Pilar Andrade, de 3 anos, acredita que a figura dos avós passou por uma transformação importante nas últimas décadas.
— Hoje somos mais jovens, mais ativos e, em muitos casos, continuamos trabalhando. A grande responsabilidade da criação continua sendo dos pais. Nossa participação está muito mais ligada ao lazer, à convivência e à diversão.
No caso dela, os programas com a neta incluem passeios ao ar livre e atividades culturais.
— Andamos de bicicleta, fazemos trilhas, vamos a exposições, teatro, circo e atividades na natureza. Isso exige uma boa preparação física para acompanhar essa energia pulsante das crianças.
Além da disposição física, as avós contemporâneas também enfrentam desafios típicos do século XXI. Entre eles, a presença cada vez maior das telas no cotidiano infantil.
— Mesmo as crianças pequenas já demonstram uma atração muito forte pelo celular e pelos jogos. Precisamos estimular outros interesses, incentivar as brincadeiras, a imaginação e as experiências fora do ambiente digital. Trazer esse lado mais lúdico é uma função desafiadora e deliciosa para nós, avós modernas — afirma Flávia Paranhos.
Ela acredita que a relação entre avós, filhos e netos também se tornou mais aberta.
— A troca com os filhos é mais rica e a escuta é mais bem absorvida. Isso faz com que a convivência entre as gerações seja mais saudável.




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