6 de outubro de 2026
CAMINHOS PARA A ACESSIBILIDADE

Acessibilidade vai muito além de rampas e calçadas. Está no na possibilidade de assistir à televisão, se comunicar, estudar, circular pelas ruas ou frequentar um espaço cultural com autonomia. No Jardim Botânico, histórias de moradores mostram avanços, barreiras que ainda persistem e como tecnologia, informação, convivência e pequenas atitudes podem abrir caminhos para uma cidade mais inclusiva.

Um desses caminhos começou dentro de casa e ajudou a transformar a televisão brasileira. Quando o filho Alexandre perdeu a audição ainda bebê, após uma meningite, a moradora do Jardim Botânico Helena Dale começou a estudar maneiras de se comunicar com ele. Formou-se em Fonoaudiologia e integrou, em 1986, o grupo fundador da ARPEF (Associação de Pesquisa e Reabilitação Fonoaudiológica).

Após o filho perder a audição ainda bebê, Helena começou a estudar Fonoaudiologia e a participar da fundação da ARPEF.

— Ele não podia ver televisão sem que eu estivesse ao lado, traduzindo tudo em Libras, e chegava a me avisar o horário do programa que queria assistir para garantir que eu poderia traduzir — relembra.

A experiência ajudou a impulsionar uma solução. Em 1998, a ARPEF criou o Centro de Produção de Legendas (CPL), primeira produtora do país a fazer legendas ocultas, o closed caption. O grupo levou o recurso para a Rede Globo, ampliando o acesso da comunidade surda à programação televisiva.

A trajetória de Helena mostra uma mudança de perspectiva: acessibilidade não é favor nem diferencial. É direito. A legislação avançou nesse sentido, especialmente com a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, de 2015. Para ela, o desafio é transformar o que está no papel em realidade.

— O Brasil adora criar leis, mas na hora de cumprir é outra história — afirma.

Se a tecnologia abriu novas possibilidades, a Língua Brasileira de Sinais também aproxima as pessoas. O professor Heveraldo Alves Ferreira, de 63 anos, nasceu surdo e dedicou a vida profissional ao ensino da Libras. Criado em uma família ouvinte que não aprendeu a língua de sinais, encontrou no INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos) uma educação adequada e o contato com a comunidade surda.

O difícil deslocamento entre Niterói e Laranjeiras o levou a abandonar os estudos aos 17 anos. Aos 22, incentivado por uma amiga fonoaudióloga que sabia Libras, voltou a estudar e, mais tarde, tornou-se professor do próprio INES. Hoje aposentado, continua oferecendo cursos e defende o aprendizado pela convivência com pessoas surdas.

O professor Heveraldo Alves Ferreira, de 63 anos, nasceu surdo e dedica a vida profissional ao ensino da Libras.

— Saber o básico é muito importante. Quando um ouvinte sinaliza “Oi, tudo bem?”, já me encho de orgulho. Isso mostra que a pessoa está me vendo — sinaliza Heveraldo, interpretado por Thatiana Targine, ex-colega de trabalho que aprendeu Libras no convívio com a comunidade.

“Ver” o outro talvez seja uma das chaves para a inclusão.

A Libras não se restringe à comunidade surda. A professora e moradora do Jardim Botânico Luciana Paes encontrou na língua de sinais uma forma de se comunicar com a filha Juliana, de 20 anos, que tem uma síndrome rara que impõe limitações à fala e à mobilidade. Ainda criança, Juliana aprendeu a sinalizar na ARPEF, e a Libras passou a fazer parte da rotina das duas.

XS\\A professore Luciana Paes encontrou na língua de sinais uma forma de se comunicar, que tem uma síndrome rara que impõe limitações à fala e à mobilidade

— Quando era professora do Tabladinho, ensinei Libras e as crianças amavam aprender. A gente aprende inglês e não aprende Libras. Onde está a inclusão? — questiona Luciana.

Se na comunicação os avanços são visíveis, nas ruas ainda há um caminho a percorrer. Para quem tem mobilidade reduzida, uma calçada bem conservada, uma rampa ou um sinal sonoro representam autonomia.

Desde 2020, após uma operação malsucedida na coluna, a moradora Beatriz Orleander utiliza uma scooter para se locomover. Com ela, circula pelo bairro e vai ao Clube Militar, onde faz fisioterapia. O trajeto, porém, exige atenção.

 

Beatriz Orleander utiliza uma scooter para se locomover, mas os trajetos no Jardim Botânico exigem muita atenção.

— A calçada da Hípica, a do Jockey e a da Nascimento Bittencourt, onde não tem rampa na esquina, são as piores. Às vezes tenho que passar pela rua — conta.

O massoterapeuta com deficiência visual Alexandre Bento também conhece esses obstáculos. Morador do Horto, percorre diariamente o caminho até o trabalho, no Clube Naval Piraquê. Na Saturnino de Brito, desníveis nas calçadas, ausência de sinais sonoros e motoristas que nem sempre param dificultam o deslocamento. Recentemente, quase foi atropelado por causa de uma porta de garagem sem alerta sonoro.

Massoterapeuta com deficiência Visual, Alexandre Bento também conhece os desafios de mobilidade.

Alexandre faz da autonomia uma bandeira. Trabalha, circula pela cidade e criou o canal “Além da Visão”, no YouTube, para orientar pais de pessoas com deficiência sobre como estimular a independência dos filhos.

No Rio, a conservação das calçadas é responsabilidade dos proprietários dos imóveis, enquanto cabe ao poder público implantar recursos como semáforos sonoros, pisos táteis e rampas. Mas há atitudes que dependem de todos. Um carro sobre a calçada, uma passagem bloqueada ou alguém diante de uma rampa podem impedir o caminho de outra pessoa.

A acessibilidade também abre portas para o comércio, a cultura e o lazer. O ator, assistente social e palhaço Pedro Fernandes, que tem paralisia cerebral, chama atenção para um aspecto ainda pouco considerado: pessoas com deficiência também são consumidoras.

Pedro Fernandes, ator, assistente social e palhaço, tem paralisia cerebral.

— O que falta é o empreendedor carioca olhar para o público com deficiência como um potencial consumidor, que tem direito a ir e vir e usufruir do que está sendo oferecido. É uma rede de apoio que tem que se unir para colocar o serviço de uma forma igualitária — afirma Pedro.



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