Não há como negar o vínculo forte entre a região do JB e a sétima arte. Entre seus moradores, encontram-se executivos e criativos da área, e isso ficará mais evidente do que nunca no dia primeiro de outubro, quando começa o Festival do Rio, que usa as salas do Estação Claro Gávea como palco principal do evento. Até o dia 11, as salas estarão lotadas com um público ávido por filmes selecionados pelo festival de prestígio, com categorias de premiação, como a Premiére Brasil, enaltecendo obras nacionais, a Novos Rumos, que dá luz e oportunidade ao trabalho de jovens cineastas e o Prêmio Félix, que traz à tona a importância da representatividade LBGTQIAPN+, além de mostras de muitos outros filmes do mundo todo.
É claro que cada uma das obras selecionadas – centenas delas entre curtas e longas, ficcionais e documentais – não está lá por acaso. O festival conta com uma curadoria dedicada, que busca filmes adequados ao público e ao momento global. Ricardo Cota, morador do Horto, é um dos membros dessa equipe de curadores, sendo crítico de cinema e curador de diversos outros festivais. Ele tem olhar treinado para a função e diz que um dos aspectos mais importantes de uma obra, é que ela “cumpra com a mensagem que quer passar de maneira bem sucedida”. Para julgar e analisar uma obra para além dos aspectos técnicos, independentemente do festival em que esteja inserida, Ricardo acredita que uma equipe de curadoria precisa de diversidade ampla.
É importante compreender de que maneira o discurso de cada filme impacta o público e suas mensagens. Sendo assim, critérios técnicos são apenas uma parte do que é julgado da obra. Tendo isso em vista, entre as recomendações especiais do morador do Horto para o festival, está o filme de abertura “A Bola Preta”, vencedor do prêmio de melhor direção no festival de Cannes, e as sessões inéditas na FGV, na praia de Botafogo, que serão gratuitas e exibirão três obras documentais cariocas filmadas com câmera Super 8 nos anos 1970: Pluft, dirigido por Sergio Schlesinger, mostrando os bastidores da montagem clássica do Teatro Tablado; Eleição do Grêmio do Colégio São Vicente, dirigido por Toninho Muricy; Doença e Normalidade, dirigido por José Joffily e Roberto Moura.

Público participa da programação do Festival do Rio, um dos principais eventos de cinema do país, que reúne produções brasileiras e internacionais em sessões espalhadas pela cidade.
– Hoje, o Festival do Rio, especialmente a categoria Premiére Brasil, é a grande vitrine do cinema brasileiro. O país tem produzido diversos filmes nos últimos anos, e é importante ter um lugar onde eles possam ser reconhecidos – explica Cota.
O cineasta Luiz Carlos Lacerda, “Bigode”, morador do Horto, está acostumado com o Festival do Rio. Com mais de 60 anos de carreira audiovisual, ano sim, ano não ele participa do Festival com alguma de suas obras. Porém, por mais que uma obra seja bem sucedida no circuito de festivais, uma distribuição justa não é garantida. O reconhecimento crítico e o sucesso de audiência acabam sendo ofuscados pelos filmes estadunidenses, que conseguem mais verba para divulgação e sequestram as salas que deveriam exibir obras nacionais, de modo que, se forem exibidas, é em horários inacessíveis.
– As distribuidoras americanas boicotam a distribuição dos filmes brasileiros. Agora, o que eu acho é o seguinte: tem um negócio chamado filme, e outro chamado cinema. Filme a gente assiste uma vez e pronto, mas o cinema permanece. Tenho filmes antigos que ainda são exibidos nas telas. For All – O trampolim da vitória, por exemplo, é exibido todos os anos para os cadetes da aeronáutica, em Natal. Está há décadas em cartaz – conta o diretor.
Para este ano, o cineasta apE com uma vida inteira dedicada à sétima arte, Bigode escolheu exibir, no Festival do Rio de 2026, um filme sobre “um grande campeão do cinema brasileiro e da cultura”. O filme “O Cinema Possível” é um documentário que narra a trajetória de Cavi Borges, muito conhecido pelos moradores do Humaitá por ser o dono da Cavídeo, a locadora especializada em filmes “cult” que fez história na Cobal e hoje levou seu acervo imenso de mídias físicas (raridades cada vez mais preciosas nos dias de streaming) para Laranjeiras. A locadora se encontra na Rua das Laranjeiras, número 307, e disponibiliza a coleção de maneira gratuita.
Cavi não é intitulado pelo diretor como campeão à toa. O cineasta de 50 anos trilhou um caminho incomum, tornando-se referência nacional do cinema “por acaso”, como gosta de dizer. Quem o vê hoje, organizando diversos cineclubes e produzindo centenas de filmes – sendo o diretor de muitas dessas obras – através da sua produtora, também chamada Cavídeo, não imagina que seu primeiro sonho foi defender o Brasil nas olimpíadas, como atleta de judô. Na época, sem a disponibilidade das redes sociais, conseguir vídeos de lutas e torneios de artes marciais era um verdadeiro desafio. Sabendo disso, depois de uma lesão que o impediu de viajar com a delegação nacional para Atlanta, em 1996, ele teve a ideia de abrir uma locadora especializada em artes marciais e se aproveitar do fato de viajar com frequência, como atleta, tendo acesso a obras inéditas no Brasil.
A locadora já estava montada em 1997, mas Cavi ainda não tinha alvará para operar. Nesse meio tempo, num bairro que respira cinema, diversos futuros clientes passavam por lá e pediam por filmes que o atleta sequer tinha ouvido falar. Ele anotava todos os títulos, para que pudesse buscá-los em suas viagens, começando a se familiarizar com o nome de diretores renomados e filmes clássicos pelos quais a futura clientela clamava. Quando finalmente pôde tocar o negócio adiante, ainda dividindo o tempo entre a locadora e o tatame, Cavi já tinha um acervo impressionante, que atraiu cineastas renomados e estudantes de cinema da cidade. Logo mais, começou a se envolver com o pessoal que hoje chama de colega. Nelson Pereira dos Santos, Walter Salles e Eduardo Coutinho, para citar alguns, já foram clientes da locadora.
O morador honorário do Humaitá, após tantos anos de Cavídeo, treinava no Japão, se preparando para as olimpíadas de Sydney, no ano 2000, quando teve mais uma lesão que fez com que ele abrisse mão do judô. Esse foi o estopim para que se dedicasse totalmente ao cinema, e ele voltou da viagem com uma câmera exclusiva. A partir dela e dos contatos feitos na locadora, ele redefiniu o rumo de sua vida. Essa história é contada com detalhes, através de um acervo de imagens e diversas entrevistas no filme de Luiz Carlos Lacerda, que pôs Caví agora diante das câmeras.
Em seus tempos de locadora, o cineasta percebeu como os filmes nacionais não tinham o reconhecimento que mereciam. Por isso, hoje, além de produzir filmes premiados e presidir diversos cineclubes, ele segue tornando o cinema nacional mais acessível, ajudando a renovar o canal CineBrasil TV, fazendo dele uma plataforma focada no tema. Em breve, seu catálogo estará disponível no Prime Vídeo, disponibilizando diversos filmes nacionais, sendo vários deles produções da Cavídeo.

Cavi Borges, fundador da Cavídeo e personagem do documentário O Cinema Possível, exibido no Festival do Rio 2026.
– Na época as distribuidoras iam à locadora para me vender filmes. Lembro de uma vez quando o vendedor tinha dois DVDs brasileiros e três gringos. Quando perguntei quanto custava os nacionais ele disse: “Se eu fosse você, não comprava. Ninguém gosta de filme brasileiro”. Foi aí que decidi que a Cavídeo ia investir em filme nacional – lembra Cavi.
E por mais que o Festival dê o devido destaque ao cinema, o morador do JB tem programação para o ano todo. A atriz Flora Camolese, de 24 anos, criou o “Cine Manouche”, com exibições que acontecem toda última quinta-feira do mês, prestigiando obras nacionais. Conforme sua carreira como atriz deslanchou, interpretando personagens notórios na televisão, ela pôde ter contato direto com artistas que sempre admirou. Com isso teve a ideia de, após as sessões do cineclube, mediar um debate com o público, convidando criativos relacionados às obras exibidas. Na estreia do cineclube, em julho, a exibição de “Sem Coração” contou com a presença de Nara Normande, que dirigiu o filme com Tião, e com a montadora, Juliana Munhoz. Em agosto, o filme vencedor do Troféu Redentor do Festival do Rio de 2024, “Malu”, passou na tela, seguido de um debate com o diretor, Pedro Freire, e o cinematógrafo, Mauro Pinheiro Jr.
Apesar de atuar desde nova e sempre ver filmes, foi durante a pandemia, em isolamento social, que ela firmou os laços com esse universo, vendo praticamente uma obra por dia desde então, explorando seu gosto eclético. Mas por mais que, acompanhada ou não, os filmes a convidassem a mergulhar em universos transformadores, ela sempre soube que a experiência cinematográfica vale muito mais quando compartilhada. Por isso, não abre mão de fazer com que o Cine Manouche seja sempre acessível, ajudando a democratizar a experiência cinematográfica.

A atriz Flora Camolese, de 24 anos, criou o Cine Manouche, cineclube que promove sessões de filmes nacionais e debates com realizadores no Jardim Botânico.
– Existe algo muito precioso em assistir filmes coletivamente. As pessoas pegam menos no celular, riem juntos, se emocionam junto, passam raiva junto. E, para mim, o grande diferencial desse cineclube é você poder bater um papo com os realizadores depois, podendo ter as perguntas sanadas. Eu quero fazer isso para todo mundo – conta Flora.




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