Conheci o jornal Fala Roça, ano passado, durante a aula de Jornalismo e Cidadania na PUC-Rio, em que eles são parceiros, junto com o JB em Folhas — e foi um daqueles encontros que mudam a forma como a gente enxerga o próprio ofício. Ouvir sobre a trajetória do projeto, nascido dentro da Rocinha e construído por moradores e comunicadores populares, reforçou em mim o sentido do jornalismo como ferramenta de escuta e visibilidade.
O Fala Roça saiu da teoria e foi para a prática em 2013, como jornal impresso, fruto do trabalho de jovens da Rocinha que participaram das atividades da Agência de Redes Para Juventude. O nome traduz a identidade local: “Fala” amplia vozes; “Roça” resgata a memória da antiga fazenda que deu origem à Rocinha.
Visitar a redação com a turma da universidade, acompanhar a rotina de produção e ouvir os bastidores da apuração oferece um aprendizado importante para essa galera jovem que ainda não tem prática. Ali fica evidente que o jornalismo é um trabalho coletivo: cada pessoa tem um papel, da pauta à edição, da reportagem à distribuição. Há resistência em cada escolha, em cada edição que vai para a rua.
Veículos comunitários ampliam o debate público, fortalecem identidades locais e criam pontes entre moradores e coletivos. Ao retratar o cotidiano da favela com olhar atento e respeito, o Fala Roça constrói memória, promove pertencimento e ajuda a combater estigmas.
Ter o Fala Roça e outros veículos com foco em uma região, mostra que o JB em Folhas não está sozinho. O trabalho é similar: comunicar para uma comunidade específica, valorizar o território e cobrar ações das autoridades. Neste momento em que o jornalismo está em xeque, pressionado pela desinformação e pela velocidade da internet, é um alento perceber que a essência do ofício continua viva nesses exemplos que nascem do território. Seria fundamental que a cidade contasse com mais jornais de bairro, capazes de acompanhar a rotina da região, fiscalizar as ações do poder público e lançar luz sobre questões polêmicas que raramente ganham espaço no noticiário tradicional. Quando o jornalismo se ancora no território, ele amplia vozes, fortalece vínculos e cumpre seu papel público.




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