O pediatra Daniel Becker tem sempre uma frase na ponta da língua: “o caráter de uma sociedade se mede pela forma como trata suas crianças”. Ao tornar as palavras de Nelson Mandela um mantra, Daniel vem dedicando sua vida à defesa da infância saudável: atende no consultório, grava vídeos com informações sobre alimentação, sexualidade, vacinas, cidadania, brincadeiras ao ar livre (e a região é perfeita nesse quesito!), perigos do uso da tela, saúde mental; é uma referência para a imprensa quando o assunto é infância; escreve uma coluna no Globo sobre os temas; é ativo em postagens em suas redes (Pediatria Integral); e nos últimos dois anos fez um trabalho forte de advocacy contra o uso do celular nas escolas, que culminou com a Lei 15.100/2025, que proíbe os aparelhos para todos os estudantes do ensino básico em aulas, intervalos e atividades extracurriculares.
Neste mês em que se comemora o Dia das Crianças, Daniel Becker conversou com o JB em Folhas sobre o que considera os pilares para o desenvolvimento saudável das crianças num mundo em que as telas ocupam o lugar das brincadeiras, os ultraprocessados substituem alimentos de verdade e o tempo em família se torna escasso.
– É muito difícil eleger uma única coisa fundamental para uma infância saudável: há fatores individuais e coletivos, que passam pela família, pela sociedade, pelo Estado, pela educação, pela escola. Mas se eu pudesse resumir, acredito que ter uma família, uma sociedade, um estado que cuidem das suas crianças, que as proteja de toda forma de violência, com uma educação universal, de qualidade, com a possibilidade de garantir direitos fundamentais, fazendo um mínimo de supervisão na vida digital, em que a criança é prioridade, certamente se terá uma infância melhor – garante Daniel.
Esses pilares começam pela base: a família. O primeiro e mais essencial deles é o vínculo afetivo — a capacidade de estar presente, escutar, acolher, conversar, cantar, brincar e criar uma relação de confiança e afeto.
– É algo muito simples e, ao mesmo tempo, transformador. São gestos cotidianos, como escovar os dentes juntos, contar uma história antes de dormir ou compartilhar o café da manhã, que constroem esse vínculo. Quando uma criança tem esse contato próximo, esse olhar atento e esse afeto, ela cresce mais segura e aprende melhor. É importante também que os pais exerçam sua autoridade, colocando limites com firmeza, mas sem recorrer à violência. O autoritarismo é tão nocivo quanto a permissividade excessiva. Crianças precisam de regras e frustrações para aprender a lidar com os desafios da vida, mas isso não exige rigidez: exige presença e diálogo – explica o pediatra.
Segundo o pediatra, outro pilar essencial é o brincar livre. Brincar é a linguagem natural da criança, é onde ela desenvolve habilidades cognitivas, emocionais e sociais. Bonecos, massinha, desenhos, instrumentos musicais, brincadeiras na natureza — tudo isso alimenta a criatividade, a imaginação e o corpo. E há ainda o direito ao movimento e ao ar livre. Crianças precisam se mexer pelo menos uma hora por dia. Parques, praças, clubes populares, ruas arborizadas — tudo isso contribui para a saúde física e mental. Por isso, Becker defende as chamadas “cidades amigas da criança”: espaços urbanos planejados para o convívio, o brincar e o contato com a natureza. Ele lembra que investir em praças, árvores e áreas verdes é investir em saúde, convivência e também em sustentabilidade.
O pediatra costuma frequentar a feira orgânica aos sábados
A alimentação saudável também é fundamental. Quanto menos ultraprocessados, melhor. É preciso garantir que todas as crianças, inclusive nas periferias, tenham acesso a alimentos frescos e nutritivos. Isso depende de políticas públicas: hortas comunitárias, feiras locais, educação nutricional e leis que proíbam produtos ultraprocessados nas escolas.
O pediatra destaca que a responsabilidade não pode recair apenas sobre as famílias.
– Uma sociedade saudável precisa cuidar coletivamente de suas crianças, oferecendo acesso a direitos básicos — educação de qualidade, segurança alimentar, espaços de convivência e políticas públicas que reduzam desigualdades – garante.
Estar com o calendário de vacinação em dia é outra medida importantíssima para uma infância saudável. Segundo Becker, o Brasil teve um histórico exemplar na vacinação infantil, mas a cobertura começou a cair a partir de 2017, agravada pelo negacionismo durante a pandemia. “A vacinação é um ato de amor coletivo”, ele afirma, destacando o papel da imprensa e das campanhas de informação na recuperação da confiança da população nas vacinas.
E as telas? Essas mereceriam uma reportagem inteira só dedicada a elas, tamanho o esforço que Daniel Becker vem empenhando para conscientizar as famílias e para obter avanços nas políticas públicas.
– As telas mudaram a forma como o cérebro das crianças se desenvolve. Estamos vivendo um experimento social sem precedentes, em que crianças e adolescentes passam horas confinados, sem brincar, sem se mover e expostos a conteúdos inadequados. O resultado é o aumento de transtornos emocionais, cognitivos e comportamentais. É uma geração inteira com dificuldades de atenção, raciocínio e criatividade, além de mais ansiosa, deprimida e insegura – assegura.
A recomendação é clara: nada de telas antes dos 3 anos e, idealmente, o primeiro celular só depois dos 13 ou 14 anos. O acesso às redes sociais deve vir ainda mais tarde, por volta dos 16, e sempre com supervisão. Ele também incentiva que pais formem comunidades familiares, grupos de apoio entre famílias que compartilham valores semelhantes e ajudam a sustentar essas escolhas juntos — especialmente em um mundo hiperconectado.
Cuidar das crianças, para ele, é um ato político e social, e o fortalecimento do senso de comunidade é fundamental para enfrentar desafios globais, como a crise climática, a desigualdade e a própria ameaça da tecnologia descontrolada.
Daniel defende que a infância é o começo de tudo — é o espelho do tipo de sociedade que estamos construindo.
– Se quisermos um futuro mais justo, saudável e solidário, precisamos começar pelas crianças. E isso significa cuidar, brincar, vacinar, dialogar, alimentar e amar.




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