10 de maio de 2024
BIANCA RAMONEDA E SUAS MULTITAREFAS 

“Uma pessoa que vive de histórias”. Assim, Bianca Ramoneda se apresenta logo no começo da entrevista, quando é questionada sobre sua principal função. Formada em Jornalismo e Artes Cênicas, ela também é poeta, escritora, roteirista, e ainda tem no currículo funções como diretora de audiovisual e compositora. Tijucana de nascença, ela adotou a Gávea há 12 anos, justamente quando nasceu o filho Teo e tem uma rotina tranquila no bairro, do jeito que ela e o marido, Alexandre dos Santos, planejaram: sem o uso do carro.  

– Fazemos tudo a pé. Gosto da ideia de deixar o filho na escola, passar para comprar pão e conversar com o padeiro; e depois ir para minha sala de trabalho. Adoro ter um teto todo meu”,  diz a jornalista fazendo referência a um texto da escritora Virgínia Wolf”. 

A pessoa múltipla – outra definição cunhada por ela – usa de metáforas para levar a vida e educar o filho Teo. Uma delas é dizer que a vida é uma pizza, dividida em fatias que atuam como limites. Na sua opinião, gerir casa, maternidade e trabalho é tarefa árdua. Daí a importância de estabelecer limites e criar uma organização para dar conta de tudo. “Tento passar para o meu filho que o tempo está dividido em fatias, e a gente tem que aprender a administrar isso. Nada em excesso é bom.  Até para ler um livro tem que ter limite”,  alerta a escritora. 

Com o filho Teo, conhecendo a famosa livraria de Buenos Aires

“Quem anda no trilho é trem de ferro. sou água que corre entre pedras, liberdade caça jeito”. A poeta usa uma citação de Manoel de Barros para explicar sua ideia de educação, que não é rígida, porém pontuada por valores importantes.  “Lá em casa são três gerações diferentes, minha mãe, nós e o Teo com questões particulares e coletivas no mesmo espaço. É importante observar o outro. Educar um filho homem nos dias de hoje tem um peso e ele já sabe que não é não e que tem que ter responsabilidade consigo mesmo”,  reflete Bianca que também não tem irmãos. 

Como todo adolescente, o jovem perdeu o gosto pela leitura e troca qualquer programa pelo futebol, que adora. Mas ainda acompanha os pais em uma exposição, cinema ou livraria Mas o programa favorito dela com o filho é o bate-papo na hora de dormir.  “Ele confia muito em mim e pergunta tudo. Temos conversas profundas.”, revela.

A agenda de trabalho de Bianca beira a loucura. Ela ministra um curso de interlocução para pessoas que estão escrevendo, de várias cidades brasileiras. Além disso, promove encontros de leituras fechados, organizados por grupos interessados em conversar sobre um tema ou uma obra específica e acabou de assinar a curadoria da exposição Alakorô, do amigo e cenógrafo Sérgio Marimba, que abriu no dia 23 de abril na Ocupação Iboru, de Marcelo D2. E já se prepara para conduzir o  do Clube do Livro Encontros & Leituras, que começa dia 3 de junho, na Janela Livraria do Shopping da Gávea, a partir das 19h.

Bianca organiza sessões privadas de Clube do Livro 

Para a escritora, todas as suas atividades se entrelaçam e convergem para um ponto: histórias.  “Eu comecei no teatro, depois fui para a Globo, conheci a poesia no CEP 20.000, que me levou aos livros, que me trouxe mais histórias. Mas foi o jornalismo que me ensinou a escutar”, confessa. Ao todo foram 23 anos de Globo, 18 na Globonews – onde trabalhou em programas como Starte e Ofício em Cena – e cinco na dramaturgia, participando da criação de roteiros para séries, como “Assédio”. Ao longo da entrevista ela confessa que adora ter ideias e não consegue fazer uma coisa de cada vez. 

– Sempre fui assim, é a minha natureza. Eu me realizo tendo ideias e, apesar de não saber pregar um botão, sou bordadeira no sentido de costurar ideias e reunir pessoas com suas afinidades.

Serve para poesia: panos bordados com textos.

E foi seguindo esse instinto que surgiu um novo negócio, junto com o seu último livro “Caderno de Costuras”, lançado no começo de 2023. Para animar o lançamento do livro – e ciente de que noites de autógrafos costumam ser chatas -, ela decidiu fazer algo diferente e criou um varal, com pequenos retalhos de tecidos com alguns poemas do livro bordados, além de pequenos livrinhos com frases. Para isso, contou com a ajuda dos amigos Sérgio Marimba e Gabriela Irigoyen. O público gostou da ideia e começou a procurá-la interessado nas peças dos varal. Diante da demanda, Bianca montou o instagram  @serveparapoesia e passou a oferecer este serviço. Hoje, ela conta com mais de 23 mil seguidores e cuida de todos os detalhes da produção: garimpa os tecidos, lava as peças, coloca para secar e depois escreve o texto com sua e serve como distração. 

– Tudo é memória afetiva. Os tecidos foram um dia de alguém, não sei quem, mas o fato deles voltarem a terem uma nova vida pela poesia é o que interessa. – afirma ela, que não faz nada que não tenha direitos autorais.”Se fizessem isso com meus textos, eu não gostaria.” avisa. 

Quando pensa em algo que só tem na Gávea, Bianca não pensa duas vezes e fala: a janela  da minha casa, com vista para os Dois Irmãos e a Rocinha. “Tenho um fascínio pela  Rocinha e a janela nos desafia o tempo todo”, mostrando que vivemos em um Apartheid humano”,  explica Bianca que costuma frequentar a maior favela da América do Sul para fazer projetos sociais e visitar um afilhado.

 

Só na Gávea: a vista da janela com a Rocinha e o Dois Irmãos

Bianca é encantada com a Gávea e mesmo quando o barulho das motocicletas circulando a irrita profundamente, ela só consegue pensar em se mudar para uma rua transversal. Mas, para a escritora, o bairro tem questões importantes a serem resolvidas. Uma delas é resolver o funil de carro em que a Marquês de São Vicente se transformou. 

– Me incomoda a Gávea ter  a cara de um bairro bucólico, que vc vai a pé aos lugares, mas que na prática, tem outra realidade. É um furdúncio que não cabe numa única rua. Tenho saudade de uma Gávea não tão agitada, que eu não cheguei a conhecer.  – conclui.

 

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