10 de julho de 2025
CORRENDO NA LAGOA OU DA LAGOA?

Texto:  Bernardo Cotta e Vitor Tibana*

     Nos últimos meses, a corrida de rua tem ganhado cada vez mais adeptos  em busca de uma vida mais saudável. Correr é uma opção acessível e eficaz para quem quer sair do sedentarismo. A prática regular do esporte melhora a capacidade do coração e dos pulmões, aumentando a eficiência na distribuição de oxigênio pelo corpo e fortalecendo o sistema cardiovascular. Um ponto de encontro de corredores é a Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio de Janeiro, que conta com paisagem tropical e clima fresco proporcionado pelas árvores do local. Só não é considerado unanimidade entre os praticantes porque alguns reclamam da segurança da região, devido a áreas ermas e escuras.

A equipe “Filhos do Vento” trabalha desde 2000 como assessoria esportiva em todo o Rio de Janeiro, com treinamentos especializados para cada propósito e cada corredor. Além de dar treinos na Lagoa, também atua no Aterro do Flamengo e no Leblon. O professor da assessoria Flávio Aguiar acredita que os benefícios da corrida são muitos, tanto ligados às questões físicas, como às mentais.

– A corrida é boa para a nossa saúde cardiovascular e traz alguns elementos de alívio de pressão mental. Tem gente que nos procura para objetivos mais físicos e alguns para solucionar desafios mentais. Quando corremos,  os hormônios neurais promovem uma sensação de conforto – explica o professor.

Para ele, o problema de segurança pode ser minimizado com a corrida em grupo. Rotineiramente, a equipe tem grupos que marcam corridas mais cedo para praticarem juntos a fim de não serem abordados. Flávio também acredita que o ‘Lagoa Presente’, programa de proteção e segurança em alguns bairros da Zona Sul, poderia começar mais cedo.

– Recentemente, em alguns pontos da Lagoa a luz está falhando. Por acaso, ou não, são pontos que temos de tempos em tempos abordagens a corredores, principalmente quando as pessoas estão sozinhas – relata Flávio.

A tenda Filhos do Vento fica perto do Clube Caiçaras (Foto: Bernardo Cotta)

A estudante de Estudos de Mídia da PUC-Rio Ana Luiza Guinle, moradora da Gávea, faz parte da equipe de corrida “Filhos do Vento”. Ela corre três vezes na semana e acredita que a Lagoa Rodrigo de Freitas é propícia  para o esporte.

– Eu acho que as pessoas veem o crescimento das corridas como moda. Apesar de pensar o contrário, sou favorável a qualquer iniciativa que faça as pessoas praticarem esportes –  esclarece a estudante.

Para muitos, o ambiente que a Lagoa Rodrigo de Freitas proporciona ajuda na atividade física e na preparação para práticas mais profissionais. O empresário e corredor Sérgio Krikor destaca que a Lagoa contribui para seu desempenho e prefere treinar aos sábados, sempre nas primeiras horas da manhã. Para ele, correr no local é agradável, principalmente por conta da sombra das árvores e pela paisagem, que ajudam na realização de um treino mais fluido. Contudo, nem tudo é perfeito. Apesar de correr sem objetos valiosos e, normalmente, em grupo, Sérgio não se sente totalmente seguro para a prática no local e acredita que a estrutura também poderia melhorar.

– A iluminação é ótima e o piso é bom na maior parte do trajeto, mas há áreas muito estreitas que dificultam a passagem, especialmente quando há pedestres e ciclistas no caminho. Em horários mais cheios, evito treinar ali. Nunca fui assaltado, mas já ouvi relatos preocupantes e percebo que há pouco monitoramento em alguns trechos, principalmente na reta da sede náutica do Botafogo, na Avenida Epitácio Pessoa –  reclama Sérgio.

Sérgio evita correr em horários cheios  (Foto: Acervo Pessoal)

Mas tem quem ache a iluminação do local ruim. Principalmente no outono e no inverno, quando demora a clarear. Segundo Vinícius Porto, corredor e aluno da “Filhos do Vento”, isso é um fator que prejudica bastante a corrida na Lagoa Rodrigo de Freitas.

– Já ouvi muitos relatos de furto e assalto de alguns colegas que começam mais cedo, na época de ciclos de maratona, para evitar o calor. É tudo escuro, não tem tanta segurança nesse horário e nem policiamento –  desabafa o corredor.

Alguns moradores da região não correm pela Lagoa, porém frequentam o local e também percebem problemas na estrutura e segurança. É o caso de Thiago Henriques, morador do Leblon, que caminha com a família e costumava andar de bicicleta à noite. 

– Hoje eu evito frequentar a Lagoa à noite. De dia, amo. Mas final de tarde e à noite já estou optando pela orla – explica Thiago.

Corredor desde jovem, André Valente e suas medalhas (Acervo Pessoal)

Morador do Jardim Botânico desde pequeno e corredor há 44 anos,  André Valente tem uma outra visão da Lagoa. Presença constante no trajeto desde os anos 80, André percebeu mudanças significativas no local, tanto positivas quanto desafiadoras. Para ele, a estrutura hoje é melhor. 

– Antes a área não tinha ciclovia, o piso era bem pior e até os trechos que sempre alagavam estão melhores. Mas o problema agora é a lotação, principalmente com as bicicletas elétricas, que atrapalham bastante. Tem parte que fica tão apertada que nem dá para correr em três pessoas –  afirma o corredor. 

Já sobre a segurança, André acredita que a Lagoa não é tão perigosa como todos relatam. Porém, ele atenta que, para as mulheres, a experiência pode ser um pouco diferente.

– Depois das 20h30, fica perigoso. O carioca sempre reclamou disso. Eu corro à noite e ninguém mexe comigo. Eu já salvei quatro pessoas correndo próximo ao Piraquê e olha que ali tem segurança –  afirma André, que às vezes acompanha as irmãs Patrícia e Luize no treino.

Patrícia, André e Luize costumam correr juntos. (Foto: JB em Folhas) 

Ana Luiza Guinle tem críticas em relação à estrutura. Ela acredita que a área poderia ser mais iluminada principalmente no inverno. A estudante aconselha que a prática esportiva deva ser feita em grupo, não só pela segurança, mas pelo estímulo ao esporte.

– Correr em grupo traz mais segurança. Além disso, estimula você  a melhorar seu potencial. Quando você corre sozinho, é muito mais fácil desistir. Mas não me sinto segura. Inclusive, uma vez indo à assessoria, fui seguida na altura da Cobal do Leblon por um homem. Só parei quando entrei em um táxi. Vejo poucos policiais da ‘Lagoa Presente’ nos arredores, acho que poderia ser algo a melhorar – relata a corredora.

Os benefícios da corrida

Correr faz bem. Além de ajudar a perder peso e a melhorar o condicionamento físico, a corrida também desempenha um papel importante na saúde mental dos praticantes. Estudos feitos pela Unimed indicam que a prática regular da corrida causa a liberação de endorfinas, neuro-hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano que promove a sensação de recompensa e bem-estar. O contato com a natureza na Lagoa Rodrigo de Freitas, aliado à prática do exercício, favorece a melhora do humor, da autoestima e da qualidade do sono, tornando a corrida não só um esporte com benefícios físicos, mas um auxílio para uma vida mais leve e equilibrada mentalmente. Segundo a professora de Educação Física Mônica Medeiros, os atrativos da corrida vão muito além do fato de ser um esporte com poucos pré-requisitos — além de um par de tênis e força de vontade.

– A corrida melhora a capacidade cardiorrespiratória, a circulação sanguínea e fortalece os músculos, principalmente dos membros inferiores. Além disso, ajuda a reduzir a ansiedade, o estresse e pode até diminuir o risco de desenvolver quadros de depressão – explica a profissional.

A corrida de rua na Lagoa, além de ser uma atividade prazerosa em meio à natureza, é também uma grande aliada da saúde cardiovascular. A  cardiologista Michelle Magalhães destaca a importância de  fazer uma avaliação clínica antes de iniciar qualquer treino.

– Mesmo quem não tem histórico de doenças cardíacas deve procurar um cardiologista para confirmar a ausência de riscos e receber orientações personalizadas – explica a médica.

FILHOS DO VENTO
equipefdv@equipefdv.com.br
Contato: 21.3597-4122 | 21.99568-3350

*Conteúdo produzido pelos alunos Bernardo Cotta e Vitor Tibana, por meio da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania, ministrada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.

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