A idade não está na pauta. É apenas um detalhe, que passa despercebido quando se ouve Dalal Achcar falar da sua carreira e do quanto contribuiu para a história da dança nacional. Mas quando o assunto é tempo, a coreógrafa sabe o seu significado. São 50 anos à frente do Centro de Arte e Cultura Ballet Dalal Achcar, na Gávea e mais do que meio século de ensino da dança clássica no Brasil, o marco representa a construção de uma escola, de uma linguagem e, sobretudo, de um pensamento sobre a arte que atravessou gerações.
Antes de se tornar um dos endereços mais simbólicos da dança carioca, o casarão na Rua dos Oitis era o colégio Fontainha. Foi a coreógrafa que, ao transformar a garagem em sala de aula, deu uma nova vida para aquele lugar.
– A Gávea parecia um pouco distante, mas era um período áureo de um bairro ainda familiar, com as crianças jogando futebol na rua. O shopping da Gávea ainda nem existia.”, recorda.
Dalal nasceu e vive até hoje no Leblon, mas foi na Gávea que firmou raízes e construiu uma escola de pensamento. Sua trajetória começou cedo, aos 18 anos, quando decidiu que não bastava dançar: queria dirigir, criar, ensinar.
– Perdi meu pai muito nova, isso me deu uma maturidade precoce. Virei um pouco mãe da minha mãe e do meu irmão. A dança era o que me dava alegria.” – relata.
A coreógrafa posa em frente das fotos de algumas de suas realizações
No início, em um pequeno estúdio em Ipanema, Dalal começou a ensinar a metodologia da Royal Academy of Dance que trouxe de fora, oferecendo aos professores uma orientação inédita sobre como ensinar com técnica e sensibilidade. O espaço ficou pequeno — e a busca por uma casa maior levou-a até a Gávea, onde o estúdio se tornaria referência e formaria gerações de bailarinos e professores.
Foi Margot Fonteyn, a lendária bailarina britânica, quem encorajou a brasileira a voltar ao Brasil para ensinar. O conselho se transformou em missão. Dalal convidou as professoras de dança do Rio para um curso de capacitação, trouxe uma jovem da Royal Academy para demonstrações, com a pequena sala lotada.
Com o passar dos anos, o Ballet Dalal Achcar consolidou-se como um centro de excelência e de experimentação. Além das aulas de balé clássico, o espaço oferece jazz, dança contemporânea, alongamento e até aulas de Broadway para adultos.
– Tenho alunas que começaram com mais de 50, 60 anos. Outras, que foram minhas alunas crianças, hoje trazem os filhos e netos. É uma corrente bonita de continuidade.”
Em meio à rotina intensa — “trabalho uma média de 14 horas por dia” —, Dalal ainda encontra tempo para apoiar novos projetos, como o Aulão do Bem, que acontece no primeiro sábado de cada mês, em diferentes espaços da cidade, levando o balé para todos, unindo solidariedade, cultura e transformação social. A iniciativa que tem conquistado conta com uma madrinha de peso: a Primeira Bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Ana Botafogo. O projeto vem transformando vidas e mostrando que nunca é tarde para dançar, graças ao empenho da professora Lu Fernandez, de 64 anos, que se tornou referência nacional ao incentivar pessoas adultas, de todas as idades e corpos, a experimentarem o balé como expressão de arte, saúde e longevidade. Entusiasta da iniciativa, Dalal Achcar, não apenas abriu as portas de sua escola para os ensaios como também convidou um grupo de participantes para uma apresentação no dia 3 de dezembro, no antigo espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico.
Cheia de energia, Dalal ainda acompanha os ensaios. (Foto: Divulgação)
A educadora e coreógrafa sempre fez da arte uma ferramenta social. Durante mais de 30 anos, manteve projetos em comunidades como o Pavão-Pavãozinho, Rocinha, Vidigal e Madureira. (Leia em Cidadania)
Nos anos 1980 e 1990, enquanto dirigia o Theatro Municipal do Rio, ela criou obras marcantes como “Floresta Amazônica”, que se tornou um símbolo de sua carreira e foi reapresentado recentemente, em 2024, lotando novamente o palco do Municipal em comemoração aos 50 anos da estreia.

– Meu sonho agora é levar a ‘Floresta Amazônica’ para a Europa, mostrar o potencial dos bailarinos brasileiros para o mundo”, sonha a empresária..
Dalal Achcar também é um espaço vivo de criação. Recentemente, ela tem se dedicado à “Águas de Meninos”, balé inédito com partitura escrita por Antonio Carlos Jobim especialmente para ela há cinco décadas. Com estreia marcada para 22 de novembro na Cidade das Artes, o espetáculo – que tem produção tem apoio da irmã, a produtora cultural Aniela Jordan – reúne 21 bailarinos, oito crianças e quatro atores, e narra o encontro da coreógrafa com Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
– A partitura ficou guardada por todos esses anos. Agora, finalmente, consegui orquestrar e montar o espetáculo”, comemora.
Do alto de sua experiência, Dalal reflete sobre o tempo presente com lucidez. Para ela, a humanidade está regredindo e se tornando individualista, dando muita importância ao dinheiro.
– Eu acredito na arte como instrumento de resistência e memória. Um país sem memória não tem história. – enfatiza.
Com esse propósito, a empresária criou o videocast Dalal & Companhia, no canal do YouTube da escola e dedicado a relembrar grandes nomes da cultura brasileira — da dança à música, do teatro ao cinema.
– O que deixamos para as próximas gerações é o que dá sentido à nossa existência — arte, filosofia, música, pensamento. É isso que fica. – reforça.
Cinquenta anos depois, a jovem que começou em um pequeno estúdio de Ipanema transformou-se em uma das figuras mais importantes da dança no Brasil. No seu estúdio, Gávea, onde faz questão de ensaiar acompanhada pelo piano, Dalal Achcar continua a formar não apenas bailarinos, mas cidadãos sensíveis à cultura. Para ela, o balé clássico continua sendo a base de todas as formas de dança.
– Mesmo o jazz, o sapateado ou o contemporâneo precisam da base clássica. Você pode não querer dançar o clássico, mas precisa conhecer o fundamento. O que mais me preocupa hoje é a falta de cultura e estilo nas novas gerações de bailarinos. A técnica melhorou muito, mas falta o entendimento de que o balé é uma arte teatral.”




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