23 de outubro de 2025
E O HORTO FICOU! 

Nesses 22 anos de JB em Folhas e tendo entrevistado centenas de pessoas – entre personalidades, comerciantes, diretor de cinema, apresentador de TV, roteirista, celebridades e, especialmente moradores – existe uma unanimidade:  o Horto é único! Um paraíso escondido dentro do Jardim Botânico, que desde o dia 13 de outubro de 2025 passa a ter seus moradores e suas raízes reconhecidos por direito, graças a um acordo coletivo entre a comunidade do Horto Florestal com o Jardim Botânico – através da Secretaria-Geral da Presidência da República -, que encerra uma disputa de mais de 40 anos pela posse dos terrenos onde residem 621 famílias. .  

A partir de agora a comunidade poderá permanecer na área que pertence ao parque, cumprindo algumas determinações, como, entre outras, não aumentar o número de moradores nas residências e não crescer. O feito é inédito e está sendo feito com sinergia para que todos trabalhem juntos e se transformem oficialmente em uma comunidade que vive com a biodiversidade no miolo de uma região metropolitana de 13 milhões de pessoas, como me disse o Sérgio Besserman, presidente do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, na entrevista que deu ao JB em Folhas em junho deste ano. 

A assinatura do acordo, dia 13/10 no JBRJ (Foto:Divulgação)

Na época, ele revelou que o acordo – em negociação desde 2023 – estava prestes a sair e pediu sigilo pelos detalhes que ainda precisavam ser amarrados. Na entrevista, explicou que o final feliz estava próximo principalmente porque as duas partes concordavam que a comunidade não podia crescer mais para preservar a natureza, as residências e a própria região.  À espreita, está um mal maior: a milícia, que vem aumentando seus domínios em todo o Rio de Janeiro e crescendo especialmente no ramo imobiliário, mas que ainda não fincou raízes nessa área. 

Logo que comecei com o JB em Folhas, por volta de 2004, fui convidada por um antigo diretor da Associação dos Amigos do Jardim Botânico (AAJB) para um café na saudosa Livraria Ponte de Tábuas. Ele estava acompanhado de um outro associado e os dois abriram mapas e apresentaram o terreno do JBRJ e a versão deles sobre o perigo que os moradores do Horto representavam porque não faziam parte do bairro e estavam se aproveitando do parque, etc. Ouvi tudo com atenção e, ao final, dei minha opinião, dizendo que eu não mexeria em time que está ganhando e que a comunidade não representava nenhum perigo, pelo contrário, guardavam a história e cuidavam da região onde nasceram e para onde vieram, quando seus parentes foram convidados a morar aqui, por interesse na mão de obra (certamente barata). Aqui não tinha tráfico e todos viviam tranquilamente. Os dois senhores saíram meio frustrados com a minha negativa de apoiá-los, através do jornal. 

Uma das muitas manifestações que a comunidade fez (Foto: Divulgação)

Ao longo desses anos de jornal, fui estreitando os laços com a comunidade do Horto e continuo mantendo a minha opinião:  é uma turma que não quer briga com ninguém – desde que não mexam com o espaço deles – mas também se for para ir à luta, vão com argumentos, passeatas e, organização, com um espírito de coletividade único, que pode ensinar muito à algumas Associações de Moradores que existem por aí. Acompanhei algumas manifestações dessa turma, que não foram poucas, e eles sempre mostraram o que queriam:  se manter no Horto, nas suas casas, com  suas histórias. E nesse tempo, foram atrás das suas raízes, organizaram passeios 

No dia 13 de outubro, segunda-feira, fui até o largo das Pedras – que fica dentro da estradinha que leva ao IBGE (antigo Serpro) e onde acontece a festa junina do Horto -, brindar com eles essa vitória merecida. Fui recebida pelo Presidente da Associação dos Moradores do Horto (AMAHOR), Fábio Dutra, que repetia feliz:  “se eu bebesse, ia tomar um porre até cair”. 

Julio, Nélia, Fabio e Pedro: juntos na luta do Horto (Foto: Chris Martins)

Na mesma alegria estavam o Julio de Almeida Neto, o Pedro Marins, a Nélia Vasconcelos da TV Horto, que formaram nos últimos anos uma linha de frente em defesa do Horto. Também marcaram presença no evento as historiadoras Laura Olivieri e Lucieni Carris, além da Adriana, do Djair, da Letícia, do Pedro, do Luiz Carlos e  tantos outros moradores que conheço pelo primeiro nome, mas que também fazem parte dessa história. 

Junto com eles, Sérgio Besserman também estava comemorando. Enfim, deu tudo certo. Começa agora um novo ciclo para o Horto. Depois de fazermos uma foto, ficamos conversando e observando a festa até que Besserman disse: 

– Quando eu tinha 9 anos, meus pais me levaram ao Teatro Opinião para ver o Zé Kétti cantando “A voz do morro”.

 

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