Caras do JB

BETTY GOFMAN

Depois de cinco meses em Petrópolis, onde se abrigou da pandemia com a família, a atriz Betty Gofman está de volta ao Jardim Botânico e, aos poucos, começa a retomar sua rotina. Depois de voltar como Dona Bela na edição especial da Escolinha do Professor Raimundo – que imitou a experiência on-line dos estudantes de estabelecimentos de ensino particulares durante a quarentena –, o programa retoma gravações no Projac em setembro, com todos os protocolos de higiene e distanciamento necessários.

Betty caracterizada como Dona Bela

– Me sinto muito privilegiada por ter tido a chance de poder dedicar esse tempo da quarentena às minhas filhas, ficar com elas e protegê-las – confessa a atriz, mãe das gêmeas Helena e Alice, de 9 anos.

Logo no início da pandemia, Betty subiu a serra e ficou isolada, com acesso reduzido à internet, já a fibra ótica só chegou por lá no final do período. Foi um tempo para se conectar com a natureza, acompanhar o dia a dia das meninas e fazer muita yoga.

– Sou muito disciplinada e cuido bastante da minha alimentação, ainda assim tive três crises de coluna durante a quarentena. Meu maior ganho neste período foi descobrir que posso praticar yoga sozinha, mas sinto muita falta dos meus mestres – reflete a aluna de Mahavir, da Yoga One, na Gávea, e de Dani Visco, da Puri, no JB.

Poder manter a prática sozinha, em qualquer lugar, é mesmo muito importante para a atriz, para quem a yoga serve também para levantar a energia e reunir forças para ajudar aqueles que estão à sua volta. Como atriz, Betty se sente diretamente atingida pelo total descaso dos políticos brasileiros com a cultura.

– A doença atual vai muito além da pandemia de COVID-19. Está nas coisas horrorosas e desamorosas que os políticos falam e fazem. Principalmente no setor cultural, em que os representantes não nos representam. Sinto uma tristeza profunda e vergonha – analisa.

A tristeza e o desânimo, porém, logo desaparecem quando o assunto é bicho. Betty adora os animais de uma maneira geral e participa de associações de proteção, integra comissões, organiza vaquinhas e, acima de tudo, pega, cuida e dá abrigo – ainda que temporário – para os bichinhos. No primeiro semestre, continuou apoiando à distância, mas, em mais de dez anos de dedicação, ela já resgatou, cuidou e disponibilizou para adoção cerca de 350 cães e gatos encontrados nas ruas. “Minhas filhas também adoram os animais. Por elas, ficaríamos com todos. Tenho sempre que lembrá-las de que aqui é uma casa de passagem”, orgulha-se ela, que tem um gato e cinco cachorros, sendo que apenas um não veio da rua.

– Não tô nem aí para o que falam ou pensam sobre mim. Não consigo ver sofrimento – admite Betty, que conta com três aliadas fundamentais: as veterinárias Flávia Tavares, da Intergávea; Lucia de Almeida Abt, da Mia Latea; e Carmen Helena Vasconcellos, cirurgiã oncológica do Hospital Veterinário Botafogo.

Betty sempre quis seguir carreira de atriz e vinha da Tijuca, de ônibus, para estudar n’O Tablado. Depois de morar muito tempo no Leblon, mudou-se para o Jardim Botânico há 15 anos. Aqui, seus estabelecimentos favoritos são a Casa Carandaí, La Bicyclette, Empório Jardim e Asa Açaí, “eles trazem o fruto de Belém, de uma cultura de manejo. Um espetáculo!”.

Entre os projetos futuros adiados para 2021, está uma participação na novela “Em seu lugar”, de Lícia Manzo, com direção de Mauro Farias, além de um espetáculo teatral. Mas o que ela mais quer mesmo, quando for possível novamente, é poder fazer uma grande festa, para reunir todos os seus amigos, com direito a abraços e beijos.

LUIZE VALENTE

Correr e escrever são exercícios constantes na vida da jornalista, roteirista e escritora Luize Valente. Os verbos, contudo, não se misturam em seu dia a dia. Desde que deixou a cobertura de acontecimentos internacionais na Globonews, em 2016, ela não corre para escrever, nem escreve correndo. Agora, a pressa só se justifica para ajudar as pessoas que têm fome; afinal, quem tem fome, vocês sabem…

Um fogão aumentou a chama da solidariedade da jornalista. Pouco antes da quarentena, Luize havia comprado um novo e, ao doar o velho, conheceu o Favela Solidária. Sensibilizada, ela juntou-se à irmã Patrícia e conseguiram apoio de Bráulio Ferreira, do Mercado Afonso Celso, para criar uma campanha de arrecadação de cestas básicas para ajudar o projeto que contou com o apoio do JB em Folhas.

– A adesão e a mobilização foram surpreendentes. Começamos postando nas redes sociais e em grupos de WhatsApp. O pessoal do bairro foi muito participativo, mas a gravação de imagens do resultado da captação a cada etapa, mostrando as cestas, foi fundamental para aumentar o alcance da iniciativa. Logo no segundo vídeo, conseguimos doações de pessoas de outros estados e até de outros países – observa ela, surpreendida pela força do boca a boca virtual.

Depois de 21 semanas, foram distribuídas 1270 cestas e 350 kits de limpeza, somando cerca de nove toneladas de alimentos. A campanha perdeu fôlego, mas ainda continua, embora o foco da jornalista agora seja ajudar a zeladora de um prédio no entorno da praça Pio XI a conseguir comprar uma casa própria para ela e os filhos. Além de doações em dinheiro, Luize conseguiu a adesão de Solange Casotti, viúva do artista plástico Guilherme Secchin e também moradora do JB, que doou uma gravura dele para ser rifada. Os 40 números logo se esgotaram e o sorteio acontecerá no dia 1/10, durante a Live in JB, mas ainda falta arrecadar metade do valor necessário para a compra da casa. Quem quiser contribuir, só precisa mandar uma mensagem via Instagram ou Facebook de Luize Valente.

A ligação de Luize com o bairro é muito anterior à pandemia. Ela nasceu no Leblon, e mudou-se com a família para a Saturnino de Brito, em 1978. Há cerca de 30 anos, ela mora no edifício Irebel, mix dos nomes de seus avós Irene e Abel, que construiu o prédio, como contou em entrevista à coluna Meu JB, em 2015.

– Adoro o JB. Apesar de parecer somente um bairro de passagem para quem não mora aqui, ele guarda lugares tranquilos, com muitas áreas verdes. Sem falar no clima de interior, ideal para quem tem bicho – observa a moradora.

No começo da quarentena, Luize correu dentro do próprio apartamento, onde criou um circuito varanda-escritório-sala-quarto, percorridos durante uma hora. Como nunca gostou de dar volta na Lagoa, preferindo correr no Parque Lage, a retomada das ruas foi na praça Pio XI, dando cerca de 30 voltas em uma hora. Aos poucos, o raio foi se ampliando e, hoje, é possível vê-la correndo, à noite, pelas ruas Itaipava, Abade Ramos, Nina Rodrigues, Benjamin Batista e Nascimento Bitencourt. Sair do bairro é mesmo coisa raríssima para ela, que costuma fazer tudo a pé. Se antes da pandemia já prestigiava o comércio local, agora tem concentrado suas compras na vizinhança, incluindo o mercadinho Afonso Celso, o hortifrúti Rede Varejão e a padaria Grano & Farina.

O amor pelo bairro, porém, não se mistura com seu trabalho, uma vez que seus livros são, em sua maioria, romances históricos. Desde o lançamento de seu primeiro livro, em 2012, ela aprendeu que as coisas têm um tempo certo para acontecer.

– Sem conhecer ninguém no mercado editorial, liguei para a Record e pedi o e-mail de Luciana Villas-Boas. Me apresentei, enviei o pdf e a resposta veio somente oito meses depois. Devo muito a ela – confessa a autora de “O segredo do oratório”, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e baseado em documentário feito com Elaine Eiger, premiado seis anos antes.

Luize tem consciência que a ansiedade não ajuda nada no métier de escritora e destaca que o mais importante é trabalhar o texto: “Já ter um livro no mercado não é garantia de nada. Não tem uma fórmula, eu escrevo o que gostaria de ler”, admite ela, que costuma realizar viagens de pesquisa para embasar suas narrativas, misturando personagens fictícios a fatos históricos.

O romance de estreia foi lançado na Holanda em 2013, mas foi o lançamento de seu segundo livro, “Uma praça em Antuérpia”, em Portugal, que firmou o nome da autora no mercado internacional, a partir de 2016. Foi nessa época que percebeu que a internacionalização de sua carreira de autora era incompatível com o jornalismo televisivo, que acabou sendo deixado de lado após 25 anos. Seu terceiro livro, “Sonata para Auschwitz”, encontrou o mercado europeu mais aberto e o título já foi lançado na França e na Itália e, em breve, em países como Polônia e Albânia.

A experiência internacional chamou ainda mais a atenção da autora ao fato de o Brasil não ter política cultural forte como a de outros países: “É importante fazer vários projetos e apostar neles sem saber se vão acontecer”, observa Luize, cujo lançamento mais recente é “Do tempo em que voyeur precisava de binóculos” (2019), seu primeiro livro de contos.

Atualmente, Luize está trabalhando em um roteiro de ficção e em um romance histórico sobre a Inquisição, cujo título provisório é “Confraria das Oliveiras”. Para ela, o tema é mais do que oportuno diante da atual desvalorização dos livros e da cultura, de uma maneira geral, além da discussão em torno de uma maior taxação das publicações:

Os livros são a base do processo de educação. Adoraria vê-los fazer parte da cesta básica – atesta.

TEMPORADA PRODUTIVA PARA TONI PLATÃO


Quarentena pode ser sinônimo de trabalho. Pelo menos é assim que o cantor e compositor Toni Platão (Ilustre Morador da edição 30, em 2009) está encarando esse período. Da segunda quinzena de março para cá, ele lançou um single e fez o clipe de divulgação do mesmo; gravou voz para uma outra música de um outro projeto seu; e assumiu a coordenação artística do Circo Crescer e Viver.


O mais interessante é que nada disso estava previsto antes da pandemia. No dia 10 de março, Toni Platão começou o que deveria ser uma temporada de shows na Da Casa da Táta, na Gávea. “O amor segundo Herbert Vianna”, com Cris Caffarelli, deveria ficar em cartaz por pelo menos um mês ou, como disse o fotógrafo e DJ Maurício Valladares ao final, “esse show vai ficar mais de um ano em cartaz com fila na porta”, lembra Toni, que pensa em retomá-lo, quando for possível.

Se não dá para fazer show, dá para gravar. No início de abril, Toni lançou o single “Sem essa”, de Jards Macalé e Duda. Ele conta que conheceu a música por acaso, deixando-se levar pelo algoritmo dos canais de streaming (Spotify, Apple Music, Deezer e outros):

– Enlouqueci pela canção e logo pensei que havia baixado um espírito de Roberto Carlos no Macalé. Dias depois, dei de cara com ele no Rebouças. Falei sobre a música e ele deu uma gargalhada imensa, confirmando que havia composto a música pro Rei, mas que ele não quis gravar – narra o intérprete.

Com tempo em casa, Toni aproveitou para aprender um pouco de edição de áudio e vídeo para fazer, ele mesmo, o videoclipe da música, usando imagens de viagens e de família, como um álbum afetivo. Para completar, a foto da capa do single é uma brincadeira com a da capa do disco de RC de 1971; por coincidência, o mesmo que Macalé gostaria de ver “Sem essa” incluída.

Com essa música na cabeça, Toni começou a pensar em gravar um disco só com as canções feitas para o Roberto Carlos e que ele não quis gravar. A ideia ganhou força com uma matéria publicada no jornal O Globo com várias outras músicas na mesma situação. Além de “Sem essa”, Toni gravará outras nove faixas de compositores como Gilberto Gil (“Se eu quiser falar com Deus”), Tim Maia (“Você”) e Francis Hime e Vinícius de Moraes (“Anoiteceu”), com produção de Alexandre Elias.

Toni já havia trabalhado com Elias quando foi assistente de Deborah Colker no musical “Dancing Days”, de Nelson Motta, com quem o produtor costuma trabalhar. O entrosamento entre os dois vai gerar mais uma parceria: um disco de intérprete, só voz e piano, com Ananda Torres. A primeira música é “Sacumé Baby”, inédita de Suely Mesquita, para a qual Toni já gravou voz, sozinho em casa.

Uma novidade na vida de Toni Platão é o trabalho como coordenador artístico do Circo Crescer e Viver, cujas aulas devem ser retomadas em outubro: “Estou gostando do desafio e aprendendo muita coisa de planejamento pedagógico e desenvolvimento institucional. Espero contribuir ao máximo com essa iniciativa do Junior Perim, que faz um trabalho muito bonito no circo e em todo seu entorno”.

Para completar a intensa temporada, “Sur”, o álbum de estreia da banda Panamericana, gravado em 2014 com Charles Gavin, Dado Villa-Lobos e Dé Palmeira, obteve todas as autorizações para ser lançado em julho e pode, finalmente, ser ouvido nos canais de streaming. Mesmo com tantas atividades simultâneas, ele não recusa um convite de Alexandre Araújo, com quem dividiu o programa Pop Bola Esporte Clube por 14 anos, ainda mais quando se trata do Fluminense. Sua mais recente participação foi no Boteco Tricolor, na Flu TV, em 16 de agosto.

Na vida pessoal, por três meses, Toni ficou saindo apenas para ir ao supermercado. Com a flexibilização, ele tem circulado um pouco mais, sempre respeitando o distanciamento social, usando máscara e sem usar transporte público. Apesar de reconhecer que os exercícios são bons para equilibrar o corpo e a mente, ainda não conseguiu se organizar para voltar às aulas presenciais de Tai Chi Chuan, da Stella Torreão, que havia começado no início do ano e seguido on-line nos primeiros meses da quarentena.

Toni confessa que, mesmo antes da pandemia, já não gostava de ir muito longe, e sempre deu preferência para os lugares onde conhece os garçons pelo nome, como o Pedro, da Adega do Porto, e o Lacerda e o Boi, do Hipódromo, ambos estabelecimentos já fechados. Sobrou o Jorginho, do Bar Rebouças, que ele voltou a frequentar – por 30 ou 40 minutos, no máximo –, mantendo distância dos outros frequentadores e passando álcool na sua garrafinha de Heineken.

– É preciso valorizar o comércio local. Tenho tentando ir até lá uma vez por semana e, sempre que posso, peço para entregarem comida de lá em casa. No ano passado, oito estabelecimentos da Maria Angélica fecharam, com a pandemia pode ser ainda pior – avalia.

ANA CAROLINA FERNANDES


Se tem alguém que é a Cara do JB, esse alguém é a fotógrafa Ana Carolina Fernandes. Filha de um jornalista e de uma professora, ela nasceu na casa da família na rua Engenheiro Alfredo Duarte, correu o mundo com seu olhar atento, mas seu porto seguro continua sendo aqui.

As memórias são muitas e vão desde os tempos do colégio Souza Leão – quando a meninada fazia fogueira e descia a rua Maria Angélica de skate ou carrinho de rolimã – à constante invasão de macacos prego nas residências atualmente, passando pelos churrascos e pelo barracão do Suvaco do Cristo, que, bem no início, reunia-se em sua casa. Ana Carolina lembra da loja de doces Ondinha; da Quadra, de equipamentos de som; e da loja Bom Desenho, que funcionou até cerca de cinco anos atrás. Sem falar da papelaria da infância, o Bazar Velasquez, do Seu Morgado, que até hoje mantém uma loja de material de construção em parte do antigo endereço e continua vendendo fiado a antigos clientes como ela.

Ana Carolina é saudosista, mas dá valor a lugares e pessoas que contribuem para manter o ambiente agradável do bairro, como o porteiro Fábio, do prédio onde tem apartamento na Praça dos Jacarandás, ou o clássico Jorginho, do bar Rebouças, que já foi eleito melhor garçom do Rio de Janeiro.

– Gostava muito do Le Pain du Lapin, agora a livraria Janela está cumprindo o papel de ponto de encontro da região – observa.

Reconhecida no meio da fotografia documental, Ana Carolina trabalhou nos principais jornais do Rio e de São Paulo até decidir dedicar-se a suas próprias pautas. A cobertura de manifestações nas ruas – seja as de 2013 ou a dos Gilets Jaunes, na França – é uma herança do trabalho nas redações. A mais recente foi a Vidas Negras Importam, em frente ao Palácio Guanabara, em maio. A quarentena diminuiu suas saídas, que agora são no máximo duas por semana. As mais recentes foram para cobrir a manifestação organizada pela ONG Rio de Paz, em homenagem aos 100 mil mortos pela COVID-19, na praia de Copacabana, e o evento de reabertura dos principais pontos turísticos do Rio de Janeiro, anunciada no Corcovado pelo Padre Omar, irreconhecível com os equipamentos de proteção individual. (fotos abaixo)

– Como estou morando com meu pai, de 99 anos, tomo todas as precauções necessárias. Na volta da rua, deixo roupa e equipamentos na varanda, que virou ponto de higienização. Só falta lavar os cabelos com água sanitária – exagera ela, que já fez teste de COVID-19 e cuida de sua alimentação com alho cru, gengibre e produtos da Feira Orgânica, de sábado, na pracinha ao lado de igreja de São José.

Sem ser para trabalhar ou ir ao supermercado, Ana Carolina destaca que as primeiras vezes que saiu foi para ir dar um mergulho na Prainha, quando isso foi liberado; e para abraçar uma árvore no JBRJ: “Sempre fiz isso, a energia é muito boa”, garante ela, que, mesmo sentindo falta de um cinema, não pretende ir tão cedo.

Há mais de dez anos, a fotojornalista vem trabalhando de forma independente, colaborando com vários jornais, revistas e agências de notícias e dedicando-se a seus próprios projetos e interesses, em busca de uma vida mais tranquila. Antes da quarentena, juntou-se ao coletivo PictoRio, criado no final de 2019 para levar imagens do Brasil para o mundo; e, mais recentemente, ao COVID Latam, que reúne profissionais de 16 países da América Latina, sendo nove homens e nove mulheres. Para este último, destaca sua foto da escultura de areia do Cristo Redentor, de máscara, na praia de Copacabana com um barco à vela e uma gaivota ao fundo.

Apesar de tudo, a pandemia tem sido produtiva para Ana Carolina. Ela aguarda o resultado da convocatória do evento Foto em Pauta, que reúne vários festivais de fotografia, para o qual enviou o ensaio “Silêncio ao redor”, com fotos em casa e na praia. Em junho, dentro do projeto Quarentena Books, lançou o livro “Cinderela”, com suas fotos de travestis tiradas entre 2011 e 2017 e com renda revertida para ajuda ao combate da COVID-19. Além deste, fotógrafa já lançou “Prainha”, de 2019, e os coletivos “Blocos de Rua do Carnaval do Rio” em 2012 e “As Donas da Bola” em 2014.

Com olhar sempre atento, Ana Carolina registrou o beijo de um casal de máscara na feira da Frei Leandro recentemente (foto ao lado). No entanto, quando questionada sobre a possibilidade de um livro sobre o Jardim Botânico, ela diz que não tem nenhum plano para isso:

– Prefiro as lembranças que estão escritas no livro da memória. Nenhuma foto que eu possa fazer hoje retratará a imagem das pessoas e dos lugares que eu guardei – admite.

MARCOS PALMEIRA

Nossa terra tem palmeiras e não só as Imperiais, trazidas de longe e plantadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O ator Marcos Palmeira fincou raízes no bairro há mais de 20 anos e costuma dizer que daqui só sai para o mato, ou melhor, para sua fazenda Vale das Palmeiras.

Foi exatamente isso que ele fez durante a quarentena: passou o primeiro mês na cidade e desde abril está direto em Teresópolis. Nos últimos quatro meses veio ao Rio apenas duas vezes para encontrar a filha Júlia, de 12 anos, e resolver coisas práticas que não podia fazer de lá.

Criar cavalos foi o que o motivou a comprar a fazenda que, em 1997, já produzia legumes e verduras. Marcos, entretanto, não demorou a descobrir que ninguém comia o que plantava, pois, segundo os próprios trabalhadores, o costume ali era utilizar muito ‘veneno’. Com isso, acabou interessando-se pela cultura de orgânicos e fazendo dela uma bandeira, sendo hoje um exemplo bem-sucedido no setor.

– Estou gostando muito da administração de Teresópolis, que exige o uso de máscara e adotou o sistema de rodízio para as pessoas saírem, de acordo com o CPF de cada um – admite Palmeira, que está aproveitando para andar de cavalo – Bicicleta só no Rio.

Com a paralisação das atividades culturais, os filmes “Barulho da noite”, de Eva Pereira, “Intervenção”, de Rodrigo Pimentel, e “Boca de ouro”, de Daniel Filho, ainda não têm data de lançamento – os dois últimos tiveram Première no Festival do Rio 2019. Nessa temporada na serra fluminense, ele continua fazendo pilates, só que agora via internet e dedicando-se à adaptação do livro “Desamores”, com o autor Pedro Ayres. On-line também é seu mais recente trabalho como ator na websérie “Sala de Roteiro”, de Antonio Prata e Fernando Meirelles, que mostra cinco roteiristas (além dele, fazem parte do elenco Andréa Beltrão, Mariana Lima, Enrique Diaz e William Costa) discutindo, por meio de vídeo-chamada, o rumo de uma série que já tem várias temporadas. A trama brinca com acontecimentos da política brasileira, mostrando o quão absurda pode ser a realidade.

Elenco da websérie “Sala de Roteiro”: Mariana Lima, Andréa Beltrão, Marcos Palmeira, William Costa e Enrique Diaz

Política, para Marcos Palmeira, é coisa séria. Apesar de ter sido sondado para ser candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva, em 2018, sua maior contribuição é no debate de questões ambientais – participando de eventos como Green Rio e LivMundi – e na produção de orgânicos, tendo, inclusive, recebido o Prêmio Faz Diferença, em 2010.

– A pandemia revelou que o planeta estava doente. Todo mundo tem que entender que não será possível viver da mesma forma que estávamos vivendo antes do coronavírus. Não é normal não ter saúde para todos. Não é normal não ter escola para todos. Não é normal não ter moradia para todos – reflete ele, que se considera um consumidor consciente.

Para o ator, será preciso repensar o consumo de bens materiais, alimentos, roupas, viagens, etc. Ele acredita que o crescimento do consumo de produtos orgânicos tende a se expandir para outros segmentos e estimular os pequenos produtores, aqueles que estão mais próximos da gente. O período na fazenda serviu também para mostrar o que e quem é de fato essencial. Uma das coisas de que ele mais sente falta é dos encontros presenciais com os amigos e da cervejinha no bar Rebouças: “A gente acaba descobrindo poucos amigos de verdade”, observa.

Marcos Palmeira reconhece que todo mundo precisou passar por uma adaptação e não se sente à vontade para dizer como será depois que essa crise passar. De sua parte, adianta que pretende reavaliar todos os seus deslocamentos: “Alguns deles são completamente desnecessários, é preciso lembrar da emissão de gás que isso provoca”, alerta.

– O futuro é hoje. O planeta não tem mais tempo, precisamos nos perguntar que consumidor nós queremos ser, que tipo de cidadão queremos ser – conclui.

RODRIGO SANTOS

Para o músico Rodrigo Santos, o saldo positivo da pandemia foi o reforço dos laços familiares. O isolamento abriu novas frentes de trabalho para ele, que compôs cerca de 70 músicas e participou de mais de 30 lives ao longo da quarentena. Em abril, lançou o CD “Cazuza em Bossa”, com Roberto Menescal e Leila Pinheiro; está terminando um novo livro; passou a dar aulas de violão e baixo; grava músicas e mensagens de presente; e, ainda em agosto, lança novos single e álbum solo. Para fazer tudo isso, contou com o envolvimento da família toda, apesar dos compromissos de cada um:

– O Leo (21 anos) montou um mini estúdio pra mim, o Pedro (14 anos) me ajudou com os aplicativos e a Pati, minha mulher, com os cenários para os vídeos – conta Rodrigo.

Estudante de Direito e com estágio em um escritório grande de advocacia, Leo tem dedicado pouco tempo à banda Amarelo Manga. Apesar da dificuldade em conciliar tudo, o rapaz faz questão de lembrar a melhor lição que seu pai lhe ensinou: “apreciar as pequenas coisas, pequenos gestos, ver beleza no que muitas vezes está escondido para os outros”.

Tempo não é problema para Rodrigo e, para o ex-baixista do Barão Vermelho, ele não para. Uma novidade da temporada são os áudios e vídeos de “Message in a Bottle” e “Every Breath You Take” gravados com o Overdriver Duo e o ex-The Police Andy Summers, que somam mais de 5 milhões de visualizações. A parceria está rendendo até convites para tournês internacionais. Por falar em shows, Rodrigo conta que, em julho, fez sua primeira apresentação depois do início da pandemia em um drive-in: “Estava com saudade de tocar com banda. Foi muito emocionante estar diante de uns 100 carros buzinando e piscando faróis, uma experiência completamente inusitada”, garante.

Enquanto a rotina não volta ao normal, Rodrigo prepara o lançamento de “Livre”, com músicas em parceria com Guto Goffi, Mauro Santa Cecília e George Israel, para o dia 28 de agosto. O tema do novo álbum gira em torno da liberdade, de sua volta ou da falta que ela faz. A maioria das músicas foi composta nas voltas de Rodrigo – de máscara e bicicleta – pela Lagoa: “Livre é como eu queria estar. Ser livre é uma questão que envolve muitas coisas. É combater o racismo, o fascismo, o negacionismo, o vírus. É estar conectado com a natureza. Valorizar o “ser”, a alma, o coração e não o dinheiro”, acredita.

O primeiro single, “Quem sabe mais”, é uma homenagem ao jornalista Rodrigo Rodrigues, que morreu vítima de COVID-19 no final de julho. A música foi composta na madrugada seguinte ao falecimento do amigo, que havia conhecido há cerca de dois anos e com quem dividia duas paixões: a música e o Flamengo.

– O disco já estava pronto, compus embalado pela dor da perda. Foi o que me consolou. Nestes tempos estranhos, minha despedida é esta canção – assume.

GILDA MATTOSO

Nunca houve uma assessora de imprensa como Gilda Mattoso. Última mulher de Vinícius de Moraes, Gilda é referência na cultura nacional e amiga pessoal de grandes nomes da MPB, como Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil, além do saudoso Tom Jobim, para citar alguns. A carreira teve início no departamento de imprensa da Gravadora PolyGram. De lá, saiu com o sócio Marcos Vinícius para abrir sua própria agência de comunicação e, ao longo de mais de 30 anos, atendeu quase todo o cast nacional e fez amigos internacionais, como o ator norte-americano Willem Dafoe e o diretor espanhol Pedro Almodóvar. Na juventude, Gilda morou em vários países e acabou conhecendo o Poetinha em Paris, no final da década de 1970. Atualmente, ela é diretora e curadora do Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, em Ipanema, que herdou do produtor e amigo. Há 16 anos, instalou-se no Humaitá e sua rotina antes da pandemia incluía caminhadas na Lagoa, shows e encontros com amigos pela noite carioca.

Habituada aos bastidores desde o final da década de 1970, Gilda passou à frente dos holofotes no ano passado, quando fez seu primeiro talk show – baseado em seu livro “Assessora de encrenca”, lançado em 2006 – e, agora, está se reinventando nas redes sociais, maneira que encontrou para estar junto dos amigos na quarentena.

Gilda sempre foi boa contadora de casos, mas, no palco, as histórias vividas por ela ao longo de tantos anos acompanhando astros da MPB no Brasil e no exterior ficam ainda mais divertidas ao vivo: “Muitas histórias ficaram fora do livro, seja por discrição, seja porque perderiam a graça sem imitações, sotaques e trejeitos”, explica. Com prefácio de Caetano Veloso e depoimento de Almodóvar, os primeiros 10 mil exemplares de “Assessora de encrenca” estão esgotados e Gilda está em negociação com a editora Máquina de Livros, que demonstrou interesse em relançá-lo, em breve, incluindo novos casos dos últimos 14 anos de estrada.

– Nunca tinha pensado em apresentar um talk show. A ideia foi do estilista mineiro Ronaldo Fraga, que, ao ouvir, alguns casos durante um jantar, sugeriu que eu montasse um espetáculo – conta Gilda, que convocou o ator e diretor Aloísio de Abreu para dirigi-la no palco.

A primeira vez que a assessora assumiu o microfone foi em junho de 2019, em Belo Horizonte; a segunda aconteceu em outubro do ano passado, em Niterói, onde nasceu. Em fevereiro deste ano, ela se apresentou duas vezes no Dumont Arte Bar, na praça Santos Dumont, mas a temporada foi encurtada pela pandemia. Veja um trechinho da apresentação aqui.

Habituada a estar sempre cercada de amigos, o isolamento social é um desafio para a assessora, que costumava frequentar os restaurantes Gula Gula, Capricciosa e Mama Jamma com sua turma do bairro, sempre que não estava viajando ou acompanhando os shows dos artistas com quem costuma trabalhar, como Gilberto Gil, Frejat e Elba Ramalho. A Lagoa Rodrigo de Freitas – caminho mais curto entre sua casa e o escritório – é um dos lugares de que mais sente falta neste período. Ela costumava caminhar ou ir de bicicleta para o trabalho, sem falar das missas de domingo, ao meio-dia, na Paróquia de São José.

Apesar de ser do tempo da máquina de escrever e dos LPs, Gilda está atenta ao mundo digital. As lives entraram no radar da assessora, que já participou de uma com os amigos Aloísio de Abreu e Anna Ramalho, na página do Facebook da jornalista. Gilda gostou do teste e estuda produzir uma live própria, em seu canal no YouTube, criado recentemente para abrigar sua homenagem aos 40 anos de morte de Vinícius (9 de julho de 1980) com Geraldo Carneiro, Antonio Cícero, Marcos Valle, Joyce Moreno, Wanda Sá, Mariana de Moraes, Toquinho, Maria Creusa e Gilberto Gil, entre outros amigos.

Ainda que não ache “tranquilo” estar à frente dos holofotes, Gilda já pensa em voltar a apresentar seu talk show: “Uma possibilidade é o Manouche, no Jockey, que está estudando um novo modelo de apresentação, ao ar livre, com mesas espaçadas”, adianta.

VIVA OS AVÓS!

Vinte e seis de julho é Dia das Avós. A data foi criada em Portugal devido ao esforço de uma avó, Dona Aninhas, como era conhecida a portuguesa Ana do Couto, de Penafiel. Foi em 1980 que ela começou a se movimentar para o reconhecimento de um dia para homenagear as avós em Portugal, que, em seguida, passou a ser celebrado também no Brasil. Já a escolha da data está relacionada à religião, quando a Igreja Católica celebra o dia de São Joaquim e Santa Ana, pais de Maria e avós de Jesus.

Aqui no JB, a Dona Letícia de Araújo Garzon é um exemplo e tanto de avó, com seus cinco filhos, dez netos e quatro bisnetos! A simpática senhorinha pegou coronavírus, mas já se recuperou e não vê a hora de poder comemorar do jeito que mais gosta: com a casa cheia e a família reunida num daqueles tradicionais lanches da tarde.

Dona Letícia de Araújo Garzon


Veja a entrevista completa no canal do JB em Folhas no YouTube. A seguir, trecho da homenagem da imortal Rachel de Queiroz aos avós:

A Arte de ser avó

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade.

Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixados pelos arroubos juvenis.

Rachel de Queiroz

LACERDA – A ALMA DO BG

Alguns garçons são a cara do bar, mas Eronildes Lacerda é o melhor representante do espírito do que foi – e sempre será – o Baixo Gávea, como ficou consagrado o entorno do Bar Hipódromo, onde ele trabalhou por 34 anos. O anúncio do fechamento do tradicional e querido estabelecimento esta semana espalhou uma onda de tristeza e saudosismo nas redes sociais. Não houve tempo para homenagens, muito menos para uma saideira. O que não para desde então é o telefone do Lacerda, com os amigos-clientes querendo saber dele e de seu futuro.

O paraibano chegou ao Rio de Janeiro em 1972 e seu primeiro emprego foi numa churrascaria. Entrou como copeiro, saiu garçom. Em 1986, Lacerda começou a trabalhar no Hipódromo e sua simpatia e atenção foram fundamentais para a consagração do bar na boemia carioca. Como até 2005 o lugar não tinha hora certa para fechar, funcionando até o último cliente, era muito frequentado por artistas, jornalistas e intelectuais. Ao longo dos anos, sempre que surgia uma oportunidade, essa turma escalava Lacerda para entrevistas, comerciais de marcas de cerveja e até clipes de música, como “Garçom”, sucesso de Reginaldo Rossi.

A fama nunca mudou a maneira de Lacerda atender seus clientes. Para ele, todo mundo é famoso e merece o mesmo carinho e atenção. Não à toa, suas mesas sempre foram as mais concorridas do bar, não importando o dia da semana.




Foto de André Arruda, no livro “100 coisas que cem pessoas não vivem sem”

-Houve um tempo que era uma loucura, recebíamos grupos com mesas fixas todos os dias, principalmente da PUC, tanto de alunos como de professores. Teve a época da “Segunda-feira sem lei” e das quintas-feiras lotadas. A frequência caiu mesmo a partir de 2012 – lembra Lacerda, que sabe o nome de seus clientes mais assíduos, de 18 a 70 anos.

Como conhece muitos dos frequentadores desde o tempo que precisavam de cadeirinha alta para comer, Lacerda costumava receber ligações de pais à procura de seus filhos ou de namorados querendo confirmar se o/a cara-metade estava por lá, sem falar nas inúmeras vezes que fazia companhia para alguém, em pé ao lado da mesa, enquanto sua turma não chegava. A discrição sempre ditou as regras nessas horas e, por isso mesmo, os clientes sabiam que podiam contar com ele. Por tudo isso, Lacerda foi homenageado inúmeras vezes pelos fregueses: recebeu presentes, bolo de aniversário pelos anos de casa e até placa de “Melhor garçom”, cuja entrega foi imortalizada numa foto que por anos ficou pendurada na parede do Hipódromo.

Com 68 anos, Lacerda já se aposentou pelo INSS e pensava em parar de trabalhar no final deste ano. Por enquanto, ele não tem nenhuma proposta concreta de trabalho. Certo mesmo é sentar à mesa com seus clientes favoritos e brindar as amizades que conquistou do outro lado do balcão assim que as confraternizações forem possíveis.

HERÓI DO CORAÇÃO

Quem costuma frequentar a loja do Zona Sul, na rua Pacheco Leão, já se acostumou com a presença de João Simões de Araújo. Há três anos, ele trocou o trabalho de segurança no Aeroporto Tom Jobim pelo de agente de proteção na rede de supermercados. Com mais de um metro e oitenta de altura e fala mansa, ele está sempre circulando pela loja, cumprimentando e atendendo os clientes com gentileza. João é um dos Heróis do Coração, campanha criada pelo Zona Sul para estimular seus funcionários durante a pandemia.

KATIA B – ALIVE

Viva, muito viva! É assim que a cantora e compositora Katia B está se mostrando durante a quarentena. Há seis semanas ela apresenta sua “Alive”, todos os domingos, às 17h, em seu perfil no Instagram @katiab.oficial. A primeira vez que Katia participou de uma live foi em maio, na homenagem do JB em Folhas a Moraes Moreira, um mês após o falecimento do artista. A Live in JB foi o primeiro teste de Katia B no formato, mas a cantora e compositora já vinha estudando e buscando soluções para garantir um som com qualidade técnica capaz de apresentar seu trabalho da melhor maneira possível. Com estúdio equipado em seu apartamento, Katia conta com a ajuda de seu filho Vicente, de 17 anos, que tem se revelado um cuidadoso produtor musical “em formação”. Para a artista, o mais importante é criar um ambiente adequado, que garanta as diversas camadas sonoras de sua obra.

– A quarentena está me dando a ótima oportunidade de me debruçar sobre minhas próprias músicas – admite Katia.

As Alives mostram as influências de Katia, seus ídolos e suas canções. Em suas “matinês” de domingo, como costuma chamar suas lives, a artista canta e toca violão, instrumento que aprendeu ainda na adolescência. Para completar, ela faz uso de bases pré-gravadas em algumas canções, como o piano de Antonio Saraiva em “Que horas não são?”. Na edição de 5 de julho, por exemplo, Katia festejou o lançamento de seu álbum “Espacial” (2007) nas plataformas digitais e conversou com o amigo Vitor Ramil, além de cantar músicas compostas por ele.

No plano pessoal, Katia sente “gratidão por poder ficar dentro de casa e morar numa área com uma floresta linda”. “A maneira pela qual as autoridades brasileiras estão lidando com a pandemia é aterrorizante e me angustia. Nesses momentos, acabo voltando a atenção para mim mesma”, reflete a artista, que há 20 anos mora no mesmo prédio do qual, atualmente, é síndica.

A produção das lives ocupam Katia, especialmente, de quinta a domingo, e, por isso, ela tenta concentrar as tarefas de casa no início da semana. Na cozinha – onde não faltam produtos da padaria Grano & Farina e alguns dos inúmeros ingredientes das Casas Pedro -, um prazer a mais é contar com a companhia do filho, que está curtindo ajudá-la no preparo das refeições quando não está em aula.

Com formação de bailarina, Katia sabe a importância de manter atividades físicas em sua rotina. Enquanto aguarda a retomada das aulas de Tai Chi Chuan do professor Mário Gusmão no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, ela segue as aulas de pilates on-line do Studio Mariana Lobato e recorre ao método Feldenkrais e às técnicas de alongamento de Cristina Heydt pelo Zoom, além de fazer pequenas caminhadas pelas ruas tranquilas de sua vizinhança.

*Foto: Lê Pagliaro e Branca Bronstein

GUSTAVO FALCÃO

“Para quem não tinha muita clareza da importância da arte e da cultura na vida das pessoas, a pandemia e o confinamento acabam por evidenciar como elas podem abrir novas janelas para se ver, pensar e inventar um mundo diferente.”

Morador do Jardim Botânico há 15 anos, o ator Gustavo Falcão estava no elenco da novela bíblica “Gênesis”, da Record, quando a crise se instalou e interrompeu as gravações. Mesmo com as novas produções paralisadas, é possível ver seu trabalho na TV. Ele esteve no ar na TV Globo até o final de junho, na série “Aruanas”, e, agora em julho, volta à telinha com Seu Jujuba (foto abaixo), assessor do prefeito Olegário, vivido por Matheus Nachtergaele, na série “Cine Holliúdy”, que se passa numa cidade fictícia no interior do Ceará.

Natural de Recife, Gustavo identifica traços de sua cidade natal no JB, que, na sua opinião, ainda guarda um clima gostoso, em que todo mundo conhece todo mundo: “O Rio de Janeiro parece ter várias cidadezinhas dentro da cidade grande”, observa o ator, que, mesmo antes da pandemia, já costumava privilegiar o comércio local. Atualmente, ele segue cliente dos vizinhos Mercado Afonso Celso, Rede Varejão hortifrúti, padaria Grano & Farina e Bar Jóia. Nesse último, porém, o consumo diminuiu, pois Gustavo passou a cozinhar mais:

“Eu já gostava de cozinhar, mas não tinha muitas oportunidades de praticar. Tenho curtido muito fazer feijão, e minha mais nova especialidade é nhoque de grão de bico”.

Gustavo na Praça Pio XI (out/19) e, em casa, na comemoração de seu aniversário com a família (maio/20)

As refeições têm garantido bons momentos de envolvimento com a família: a esposa Juliana Féres e o filho Antônio, de seis anos, que adora suas aulas de culinária. Os três estão respeitando a orientação de isolamento social e, apesar da flexibilização que começa a ganhar as ruas, ainda não têm previsão de retomar a rotina normal familiar nem a do Espaço Lunático, criado em 2007 e ainda sem previsão de reabertura.Gustavo lembra que, inicialmente, ficaram atônitos com a nova situação, mas alguns professores logo migraram suas aulas para o ambiente virtual e, assim, estão conseguindo manter a maior parte de seus alunos. O maior desafio foram as aulas de acrobacia área, modalidade na qual são referência na cidade. Elas precisaram ser adaptadas e, agora, chamam-se Condicionamento Físico para Aéreos. Aos poucos, os professores de circo, yoga, balé clássico e demais atividades estão descobrindo novas formas de interagir com suas turmas e até coreografia estão criando via o aplicativo Zoom.

PEDRO MIRANDA

Pedro Miranda é daqueles que não sabe ficar parado e não ia ser uma “gripezinha” que iria parar sua inventividade. O cantor, compositor e percussionista apelou para a internet para aquecer o coração e a alma de seus fãs durante a quarentena. Começou participando de projetos de amigos, uma semana após o início do isolamento social fez sua primeira live oficial e, em abril, criou o Samba da Gávea On-line. Ao todo, ele acredita que já fez cerca de 20 lives, quatro só dele, sem falar de saraus no Zoom.

– As lives viraram uma forma de você estar com as pessoas.

O Samba na Gávea On-line é uma adaptação do evento presencial, que era realizado semanalmente na Da Casa da Táta, reunindo vários cantores e músicos. “Uma roda de ‘caciques’”, como Pedro gosta de dizer. São sete convidados, que vão sendo chamados pelo anfitrião da vez. Uma limitação das lives é o delay, que não permite cantar junto, pois fica tudo desencontrado. A solução no caso da roda de samba é cada um cantar uma música, ou partes dela, mas sempre um de cada vez. Durante o evento, rola uma vaquinha virtual para ajudar o pagamento dos salários dos funcionários do restaurante parceiro desde o início da empreitada. O Samba da Gávea On-line acontece toda segunda-feira, cada vez no perfil de um dos convidados. Para saber a hora e o anfitrião da semana, é só ficar ligado no perfil de Pedro Miranda no Instagram no dia do evento.

Com dez discos na bagagem (três deles solo, incluindo “Samba Original”, que conquistou o Prêmio Música Brasileira 2017), Pedro Miranda surgiu nas rodas de samba da Lapa, nos anos 1990, quando integrou os grupos Semente – do qual Teresa Cristina era vocalista – e o Cordão do Boitatá. Mais de duas décadas depois, ele trouxe os amigos e parceiros para se apresentarem perto de sua casa, na Gávea. Em 2017, formou a roda de samba acústica Samba da Gávea. O projeto deu origem a outros dois: o Choro na Rua e o Forró da Gávea. Aliás, quem estiver com saudades das famosas festas juninas da região, pode passar no perfil do artista e escutar alguns de seus registros de músicas do mestre Dominguinhos.

JOYCE MORENO & ZÉ RENATO

Ela tem mais de 50 anos de carreira; ele, um pouco menos. Ela é natural do Rio de Janeiro; ele, do Espírito Santo. Ela mora entre o JB e a Cobal há mais de 20 anos; ele mudou-se a apenas dois para lá do mercado. Mas isso são detalhes. Os trabalhos de Joyce Moreno e de Zé Renato são reconhecidos nacional e internacionalmente, incluindo inúmeros parceiros de peso e até meia dúzia de canções que levam a assinatura dos dois.

Em março, quando toda essa loucura começou, Joyce estava na Europa.  Chegou a fazer shows na Finlândia e na Alemanha, mas as apresentações da Itália foram canceladas, e ela retornou ao Brasil.  De seu apartamento no Humaitá, Joyce começou a fazer lives, seja para o projeto SESC ao Vivo seja para o International Jazz Day, organizado pelo Blue Note de Tokyo.

Na época em que foi entrevistada pelo JB em Folhas, em 2017, a cantora já incentivava o comércio local. O hábito foi reforçado durante a quarentena, com ajuda da página Compre do Pequeno, que divulga o comércio do bairro. Graças ela, Joyce fez compras diversas, de bolo de aniversário a itens de papelaria. Sem falar no Carioca Zen, do qual já era cliente.

– Estou comprando tudo pelo sistema de delivery. Não sairei de casa enquanto as coisas não mudarem. No momento, o objetivo é sobreviver e manter a saúde física e mental, o que não é pouco – afirma.

Zé Renato também estava com a agenda cheia de shows, quando a pandemia se instalou. Em dezembro de 2019, ele lançou o álbum “O amor é um segredo”, uma homenagem a Paulinho da Viola. O repertório – que reúne pérolas raras do Paulinho, algumas delas, até então, gravadas somente pelo próprio compositor – começa a ser incorporado às lives que Zé Renato tem feito, como o Festival Ziriguidum em Casa e a Live in JB.

O intérprete morou em alguns lugares na Gávea, bairro onde tem vários amigos e sua feira preferida, na praça Santos Dumont. No novo endereço, Zé Renato gosta da possibilidade de encontrar amigos e parceiros, eventualmente: “Sem dúvida, é estimulante”. Caseiro por natureza, ele acredita que sua rotina não mudou muito na quarentena. Ele continua, basicamente, cozinhando, lavando louça (com um pouco mais de frequência, é verdade) e tocando violão. O que alterou foram as caminhadas pela Cobal e outros lugares da vizinhança, cafés e restaurantes.

– Acho que, dificilmente, isso passará totalmente, mas, de qualquer maneira, quando a situação melhorar e tivermos segurança para andar pelas ruas, a primeira coisa que farei será retomar minhas caminhadas na Lagoa – afirma.

FERNANDA ABREU

O ano de 2020 é um marco importante para Fernanda Abreu, que está completando 30 anos de carreira solo. A pandemia, porém, atropelou os planos de comemoração da cantora e compositora. Ela lembra que estava com tudo preparado para gravar o DVD “Amor Geral”, no Imperator, no dia 13/3. Às 19h, toda a equipe já estava lá e chegou o decreto do governador determinando o fechamento de tudo.

– Acabamos gravando sem público mesmo. Brinco que a primeira Live dos tempos de COVID foi esse DVD.

Passado o susto inicial, Fernanda tem se mantido ocupada com a edição do DVD. Ela aguarda o melhor momento para lançar tanto ele, como um CD com remixes de suas músicas, gravadas por 13 DJs: “Como é música de pista, agora não é o melhor momento para isso”, admite ela, que, durante esse período de isolamento social, tem trabalhado muito em casa, no estúdio que o marido, Tuto Ferraz, montou num quartinho.

A cantora e compositora foi uma das primeiras moradoras ilustres a ser entrevistada pelo JB em Folhas, em 2004. Na época, ela já somava 14 anos de sua carreira solo, sem contar os tempos da banda Blitz, que surgiu em 1982.

Fernanda veio para o Jardim Botânico em 1965, quando a rua em que morava tinha apenas outras duas casas. Viveu com seus pais até os 20 anos e, depois de um breve período em Laranjeiras, voltou para o bairro de onde nunca mais pretende sair.

Caminhar é uma das coisas que lhe dá prazer, mesmo de noite. Sempre que pode, Fernanda pega a Pacheco Leão e sobe até o Solar da Imperatriz: “Adoro. Quando minhas filhas eram menores, frequentei muito o Clube dos Macacos, onde elas fizeram natação, e eu, hidroginástica”, conta.

– Eu amo o JB. Montei um estúdio pertinho de casa e, em geral, consigo resolver toda a minha vida aqui mesmo, com raras exceções. Sinto falta mesmo de um teatro, de um cinema e de uma casa de shows. Não precisa ser grande, mas faltam lugares de cultura, em vez de tantos restaurantes – idealiza.

– A data redonda merece ser celebrada, mas como 2020 está passando de forma estranha, já adianto que a comemoração será estendida até 2021 – completa.

VIVA OS PORTEIROS!

Dia 9 de junho é Dia do Porteiro, grupo de trabalhadores essenciais, que estão sempre prontos a ajudar. Por sua importância, a ocupação já foi até tema de livro, muito antes da pandemia se instalar. “Da minha porta vejo o mundo” (de Aydano Motta, com fotos de Paulo Marcos de Mendonça Lima) narra a vida de 12 porteiros, que chegaram ao Rio de Janeiro em busca de oportunidades. A edição traz Edvaldo Cândido, antigo porteiro de um edifício da Lopes Quintas, que estampa a capa do livro e foi entrevistado pela edição 73 do JB em Folhas (novembro/dezembro de 2017). Mas há muitas outras boas histórias no bairro.

Gente como Clodoaldo de Oliveira, mineiro de Barbacena, há 19 anos no JB, que, atualmente, toma conta de três prédios na rua Nina Rodrigues. Ele faz questão de dizer que é zelador, pois cuida de várias coisas, principalmente da limpeza, item sempre fundamental.
Para Paulo Coelho, porteiro e zelador é tudo a mesma coisa. Paulo veio de Nossa Senhora dos Remédios (MG) há mais de 30 anos. Antes de se tornar zelador do Edifício Irebel, ele rodou bastante e foi até mordomo da família Marinho, onde aprendeu a servir e a limpar a prataria. No dia a dia, ele pode ser visto passeando com cachorros na região.
Já Célio Rodrigues chegou à Praça Pio XI, vindo do Ceará, há 23 anos. Para ele, ser porteiro é um trabalho bom, que exige disciplina e dedicação. E, como toda profissão, tem as coisas boas e outras chatas, mas que não merecem ser comentadas.

Nem o IBGE sabe ao certo quantos porteiros existem no Brasil. A estimativa é de que sejam 120 mil. Quem tiver interesse no livro “Da minha porta vejo o mundo” –edição com capa dura – pode entrar em contato com Raphaela, via WhatsApp: 99951- 7160. O valor é R$70, já com a taxa de entrega na Zona Sul incluída.

FRANCIS HIME

Em 2020, Francis Hime completa 80 anos de idade, 55 de carreira e 50 ao lado da esposa, Olívia Hime, parceira com quem divide palco, estúdio e a vida, metade dela passada aqui no Jardim Botânico. Há mais de 20 anos, começaram a construção da casa onde vivem, que foi projetada pelo amigo e arquiteto Sérgio Rodrigues, em etapas. Integrado à natureza, o lugar é agradável e aconchegante, perfeito para esses tempos de isolamento social. É de lá que, neste período de pandemia, Francis apresenta os encontros virtuais “Trocando em miúdos as minhas canções”, todas as quartas-feiras, às 19h, em seu perfil no Instagram @francishimeoficial.


A casa, na verdade, sempre esteve no centro de seu dia a dia. A diferença é que, antes, ela servia de ponto de encontro para os amigos, e, agora, só Francis desfruta um outro talento de Olívia: a comida. O cardápio atual do casal inclui mais peixes e crustáceos do que antes, graças a um peixeiro maravilhoso descoberto pela chef. Para manter a forma, ele tem até uma esteira, mas, como exercício físico não é o seu forte, entre ela e o piano, o segundo quase sempre vence.
O silêncio, que tanto atraiu Francis Hime para o bairro, continua sendo ponto forte do JB. Dos passeios que costumava fazer, sente falta de caminhar no Jardim Botânico do Rio de Janeiro:


“Gostava de ficar até escurecer e, muitas vezes, me escondia dos seguranças para aproveitar, ao máximo, a paz do lugar”, recorda com um misto de traquinagem e nostalgia. Inspirado naquela época, Francis compôs a canção “Jardim Botânico”, lançada em 2007 no álbum “Choro rasgado”, que narra um encontro imaginário dele com Tom Jobim, personagem que, na sua opinião, é o maior representante do local. A letra da música reflete bem a saudade de um tempo que passou: “Ah, pudesse eu te rever / Amigo, a percorrer / Aleias do nosso jardim…”. Porém, para Francis, a trilha sonora do momento é “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia…”, de Chico Buarque:

– Nunca imaginei passar novamente por uma onda conservadora como esta. Temos que reagir! – convoca o parceiro de Chico Buarque em “Vai passar”, que em 1984 já avisava: “Num tempo / Página infeliz da nossa história / Passagem desbotada na memória / das nossas novas gerações / Dormia / a nossa pátria mãe tão distraída / sem perceber que era subtraída / em tenebrosas transações”.

ROSANE SVARTMAN

A roteirista Rosane Svartman é habituée da coluna Ilustre Morador e também do horário das sete das novelas da TV Globo. Coautora de “Bom Sucesso” com Paulo Halm, que saiu do ar em janeiro, Rosane está de volta com “Totalmente demais”, que está voltou à grade durante a pandemia. As referências literárias fazem parte das duas tramas. Se em “Bom Sucesso” elas permeavam toda a história, em “Totalmente Demais”, elas estão presentes em algumas falas do personagem de Fábio Assunção.
O horário da novela, aliás, é um momento leve do dia para Rosane: “Apesar de ser uma obra fechada, é especial assisti-la, acompanhando os comentários nas redes sociais. Estou curtindo de uma maneira diferente”, garante. Mesmo não gostando de trabalhar em casa, Rosane tem estado bastante ocupada, traduzindo sua tese de doutorado sobre convergência das mídias para publicação na Inglaterra e preparando uma série musical para o canal infantil Gloob/Globosat. “Sem falar na faxina, claro”, completa ela, que não vê a hora disso tudo passar.

Rosane participou da primeira edição do Bloco da Pracinha e ajudou a organizar um plebiscito para delimitação das áreas do parquinho infantil e do campo de futebol no local, em 2003.

– Um lugar que torço para que continue a mesma coisa é a pracinha Pio XI. Ela era o melhor ponto de encontro de moradores, um cantinho que parece fazer parte de uma outra cidade bem menor do que a nossa.

Outro lugar do qual tem saudades é a Livraria Ponte de Tábuas, onde fazia reuniões de trabalho e levava sua filha mais velha. Ela lembra-se com carinho da gerente Mariana, “uma moça tatuada que fez toda a diferença ao despertar, em meus filhos, o interesse e o cuidado com os livros”, reconhece a autora de quatro títulos voltados para o público infantil, que gosta de presentear os amigos com livros.

– A literatura é pop. Quando a gente escreve uma novela tudo o que queremos é contar uma boa história.

DICAS DE ALIMENTAÇÃO DE GABRIELA KAPIM

Longe da TV neste período de pandemia em que as famílias estão confinadas e, na maior parte do tempo, preparando suas próprias refeições, a nutricionista Gabriela de Mattos Gonçalves tem se dedicado a alimentar o Canal da Kapim no YouTube e a fazer três lives por semana em seu perfil no Instagram. Às segundas-feiras, o papo é voltado para a alimentação de bebês, crianças e adolescentes. As quartas são temáticas, abordando questões como alergias e intolerâncias. Já nas lives de sexta, ela recebe um convidado diferente, que pode ser um pediatra, um psicólogo ou um dentista.

A agenda está cheia. Na última semana de maio, Kapim, como é chamada, apresentará o Conexão Saudável – comida e afeto – 0 a 2 anos, uma série de 4 programas em que vai falar e mostrar a melhor forma de amamentar, alimentar e desmamar bebes de 0 a 2 anos de idade.  Quem tiver interesse pode se inscrever aqui. Em junho, a novidade será um curso de culinária para pais e filhos, no qual a professora enviará os ingredientes e a receita com antecedência para que os alunos deixem tudo esquematizado para a hora da aula.

Estas lives e ações reunindo pais e filhos estão sendo um novo aprendizado. A dinâmica é outra, completamente diferente.

Gabriela Kapim morou quase toda sua vida no Humaitá. Há um ano e meio, ela se mudou de mala e cozinha para o Jardim Botânico, onde logo sentiu-se acolhida. Pudera! Sua relação com o JB é antiga: é amiga da turma do Último Gole e frequentadora – quando isso era possível – das cachoeiras e das antigas festas juninas da praça Dag Hammarskjoeld – na sua opinião, “as mais legais”.

Para ela, o melhor lugar para comer é em casa mesmo, até por uma questão econômica:

Meus filhos adoram tomar açaí no Bibi, mas sai muito mais em conta comprar umas coisas no Zona Sul e preparar uma refeição, com jeito de banquete”.

ABEL SILVA REVELA A HISTÓRIA DE “FESTA DO INTERIOR”


Em tempos normais, quando caminhava pelo bairro, o compositor Abel Silva costumava ser chamado nas ruas – seja pelo porteiro, pelo jornaleiro ou pelo apontador do jogo do bicho – de poeta.  Quem olhasse para aquele discreto senhor, de óculos escuros e boné, não imaginaria a bagagem musical que ele carrega. São 300 músicas, dezenas de poemas em três livros publicados e vários parceiros, do porte de João Donato, João Bosco, Moraes Moreira e Roberto Menescal, para citar apenas alguns. Sem falar de sucessos como “Festa do interior”, “Quando o amor acontece”, “Alma” e “Quando chega o verão”. Com a parceira mais antiga, Sueli Costa, completou 40 anos de gravação de sua primeira música, “Jura secreta”, eternizada nas vozes de Simone e Fagner.


O amor entre Abel Silva e o Jardim Botânico foi à primeira vista.  Ou, melhor, à primeira visita.  Ele e a mulher, a fotógrafa Lena Trindade, foram à casa do amigo Jards Macalé, lá pelos anos 1980, e se encantaram com o lugar. Pesquisaram e acabaram comprando um imóvel disponível no mesmo condomínio, com ajuda da gravadora. “Estava em um momento bom, com músicas em novelas, mas fiquei apavorado.  Naquela época, a gente não pensava no amanhã”, reflete o compositor, nascido em Cabo Frio e formado em Letras pela Faculdade Nacional, atualmente Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao todo, já são 35 anos na vizinhança verde e musical.  Aos poucos, o letrista descobriu que também morava ao lado de onde Vinícius de Moraes havia nascido e perto de Tom Jobim.

Um dos programas favoritos do artista no bairro – do qual ele vem sentindo muita falta na quarentena – é caminhar.  Seus passeios matinais no JBRJ ou na orla da Lagoa foram substituídos por voltas no terraço, mas, infelizmente, não contam mais com paradas para bate-papo na padaria Século XX ou no bar Joia Carioca. O que o conforta é saber que continua cercado por três áreas reservadas extraordinárias: o Jardim Botânico, o Jockey Club e o Parque Lage. Deste último, guarda uma memória afetiva do aniversário do filho e do neto.


Neste período de isolamento, Abel tem escrito bastante, de letras de música – sozinho ou com o amigo Roberto Menescal – a poemas. A produção é tamanha, que ele garante já ter suficientes para um livro, cujo título provisório é “Nas trincheiras da poesia”. Por falar em trincheiras, Abel sentiu muito a partida do amigo e parceiro Moraes Moraes, principalmente por não ter conseguido se despedir.  “Ainda não liguei para a Cecília e o Davi, estou muito triste com tudo o que está acontecendo. Moraes era uma pessoa especial”, afirma.  Ele lembra exatamente quando surgiu a ideia da letra de “Festa do Interior”, que fizeram juntos.

Estávamos na ditadura, logo depois do episódio da bomba do Riocentro (em 1981). Eu ainda morava em Ipanema e estava levando meu filho para a creche, pensando no ocorrido. Fui escrevendo mentalmente a letra, como uma forma de passar pela censura. Na verdade, a letra é totalmente política.  Nas trincheiras da alegria o que explodia era o amor! Ao chegar em casa, liguei para Moraes, e, no mesmo dia, a música estava pronta.

GARIS DE PRIMEIRA
A equipe da Comlurb no Jardim Botânico conta com 30 profissionais, atuando do viaduto Abelardo Lobo até o final da rua Pacheco Leão. Nesses tempos de pandemia, eles estão se revezando para manter as ruas e os pontos de ônibus higienizados. Eis algumas caras conhecidas no bairro e os trechos onde trabalham, agora, de máscara!

CARLA ESMERALDA

Moradora da Gávea há quase 30 anos, a produtora Carla Esmeralda é idealizadora e curadora do Rio2C, maior evento de criatividade e inovação da América Latina. Este ano, o desafio de manter o compromisso de realizar um evento atraente e agregador foi ainda maior, devido à pandemia do COVID-19. A inventividade e resiliência de quem criou também o laboratório de roteiristas Novas Histórias e o Festival Internacional de Cinema Infantil foi fundamental para adaptar o Rio2C à nova realidade e torná-lo totalmente digital, com conferências e reuniões virtuais, ratificando a nova ordem mundial: ficar em casa e conectados!
Para Carla, a nova regra não chega a ser difícil de ser cumprida. Boa parte de seu trabalho é concebido, desenvolvido e articulado no que ela chama de “bolha”, incluindo sua casa, sua produtora Copabacana Filmes e, em tempos normais, as ruas, os vizinhos e os inúmeros “escritórios” do bairro disfarçados de restaurante, do tradicional Guimas ao Talho Capixaba, passando pela simpática Da Casa da Táta.

Natural de Volta Redonda, Carla diz sentir-se segura na região, definida por ela como “um caldeirão de criatividade, que transpira cinema”. Como não tem carro, ela anda bastante a pé e, quando pode ir mais longe, vai de ônibus ou de metrô: “Muito triste que a estação Gávea não tenha saído do papel”, lamenta a curadora, que, mesmo antes da pandemia, costumava fazer encomendas do restaurante japonês Origami e comer assistindo novelas.  Quando tudo isso passar – e vai passar –, Carla já sabe o que vai fazer:

“Mesmo nas maiores adversidades, a cultura não morre. Pretendo bater ponto na recém-inaugurada Janela Livraria, voltar a frequentar as salas dos cinemas Estação Net Gávea e Espaço Itaú de Cinema, visitar as exposições do Instituto Moreira Salles, assistir a peças do teatro Poeira e passear no Jardim Botânico, ritual semanal do qual sinto muita falta.”

MÚSICOS HOMENAGEARAM MÉDICOS DO HOSPITAL DA LAGOA

Assim como aconteceu na Itália e em outros países, o cuidado e a atenção dos profissionais de saúde inspiraram o JB em Folhas a promover a primeira Live in JB, reunindo músicos da região para homenager os médicos brasileiros, especialmente os do Hospital da Lagoa. A data não poderia ser mais adequada: o Dia do Trabalho, tradicionalmente comemorado com música no Brasil. Lembrando que o evento produzido e realizado de forma totalmente voluntária.

CARLOS LISBOA

Figura marcante nas rodas de samba do bairro e um dos fundadores do bloco Último Gole, Carlos Lisboa fará uma homenagem à sambista Beth Carvalho, defensora ferrenha dos direitos dos trabalhadores, que faleceu na véspera do dia 1º de maio, no ano passado. Carlinhos, como é conhecido no bairro, vai cantar “Mas quem disse que eu te esqueço”, de Dona Ivone Lara, e uma surpresa do repertório da Beth.

LEILA PINHEIRO

Às vésperas de completar 40 anos de carreira, Leila Pinheiro aceitou, de pronto, o convite para participar da Live in JB. Acostumada a se apresentar ao lado de músicos como Chico Buarque, Francis Hime, Ivan Lins e João Donato, entre tantos outros, a intérprete, compositora e pianista estará sozinha desta vez. A causa, como ela mesma atesta, é nobre:
– É momento de rendermos todas as homenagens àqueles que, brava e incansavelmente, se dedicam a tratar pacientes com COVID-19. Levar um pouco da minha música aos profissionais do Hospital da Lagoa – meu vizinho tão próximo – é minha forma de gratidão e admiração. Assim como a medicina, a música nos salva e opera milagres! – justifica Leila, moradora do JB há 30 anos.

RODRIGO SANTOS

Baixista do Barão Vermelho por 25 anos, Rodrigo Santos tem trabalhado tanto durante a pandemia que, para ele, os dias têm parecido um mês. Desde que começou o isolamento social, Rodrigo compôs 40 letras, 25 delas já musicadas; finalizou seu segundo livro, um diário do cotidiano de suas turnês; gravou um clipe com Os Britos, cada um em sua casa; tem participado de várias Lives; e está remarcando sua agenda de shows solo, com o Call the Police e o Tributo a Cazuza, que serão retomados apenas a partir de dezembro. Além de tudo isso, ele garante que, como todo mundo, está limpando e arrumando muito a casa, além de procurar fazer exercícios físicos diariamente.  Trabalhador compulsivo, Rodrigo topou participar da Live in JB com a música “Heróis de carne”, que compôs com seu amigo e cardiologista Gustavo Gouvêa em homenagem aos profissionais que combatem a COVID-19.

LAURA FINOCCHIARO

O ano de 2020 ficará para sempre na memória da cantora gaúcha Laura Finocchiaro, que viveu mais de 30 anos em São Paulo e há cinco mudou-se para o Rio de Janeiro, em endereços no Jardim Botânico e Humaitá. Antes da pandemia provocada pelo coronavírus, Laura sofreu a perda do amigo e parceiro Jorge Salomão. Inspirada na energia do poeta baiano, Laura está lançando seu novo trabalho em todas as plataformas digitais. Na Live in JB, no feriado do Dia do Trabalho, Laura vai mostrar, em primeira mão, o single “A vagar”, uma parceria dela com Salomão, composta um pouco antes da morte daquele que ela definia como “o eterno poeta do caos e do futuro”.

LUIZA CASÉ

Uma das artistas mais promissoras do pop atual, a cantora e compositora Luiza Casé estreou ano passado com o álbum “Mergulho”, produzido por Arto Lindsay e Thiago Nassif. Na live do JB em Folhas, Luiza se apresentará ao lado de Pedro Sá, autor de “Purpurina”, e mostrará a nova “Coração na mão”, de sua própria lavra. O multi-instrumentista, aliás, nasceu no Hospital da Lagoa e mora no JB. Uma relação de muitas parcerias, histórias e de amor com a nossa região. Ouça o álbum “Mergulho“.

LEO JAIME

Morador da Gávea, o cantor e compositor Leo Jaime escolheu a dedo a música que cantará na Live in JB em homenagem aos médicos do Hospital da Lagoa e de todo o país, que estão à frente da batalha contra o coronavírus. A letra de “Mensagem de amor”, que Herbert Vianna compôs em 1984, resume bem o sentimento dele e de muita gente por aí que não vê a hora de encontrar um amor, os amigos, “nem que seja só para estar ao teu lado”. Esse dia vai chegar, por enquanto, fique em casa!

ILUSTRE MORADORA – NATHALIA DILL

Entrevistada para a coluna Ilustre Morador da edição 72 (agosto/setembro 2017) do JB em Folhas, a atriz Nathalia Dill sabia exatamente o que queria quando escolheu o Jardim Botânico para morar, há 10 anos. Ainda que o bairro não influencie seu trabalho, ela admite que seu estilo de vida tem muito a ver com o JB, tanto pelos vizinhos, como pela economia colaborativa local, voltada para a sustentabilidade e a coletividade, que encontra na vizinhança.

Protagonista de várias novelas da TV Globo, sua agenda costuma ser apertada e não permite que Nathalia se envolva tanto quanto gostaria em ações e atividades do bairro. Mas isso não invalida pequenas iniciativas, como fazer compostagem de seu lixo com apoio do Ciclo Orgânico. Consumidora consciente, Nathalia separa seu lixo, compra produtos orgânicos, usa coletor menstrual de silicone para evitar os poluentes absorventes higiênicos e frequenta a Junta Local, na Gávea ou no Humaitá.


– Adoro tomar café da manhã no Empório Jardim, é quase meu quintal. Quando precisei fazer obras na cozinha do meu apartamento, fazia praticamente todas as refeições lá – destaca ela, que aderiu à campanha de distribuição de quentinhas “Ajude quem precisa”, do JB em Folhas em parceria com o bar Jóia Carioca.


Para a atriz, a rua do Empório tem ainda outros atrativos dos quais sente falta neste período de isolamento social, como o Benta Studio. Além de prestigiar os restaurantes do JB, Nathalia adora quando food trucks invadem o Parque dos Patins: “É bem o estilo carioca de usar a rua. Mostra que a cidade está viva”, avalia ela, saudosa de andar a pé e de bicicleta pelo bairro. Como a maioria dos moradores, ela gostaria de mudar o trânsito da rua JB. Filha de engenheiro de transportes, Nathalia idealiza soluções para o problema, passando sempre pelo transporte coletivo, com estação de metrô no Jardim Botânico e barquinhos cruzando a Lagoa. Enquanto essas soluções não estão disponíveis, Nathalia não se intimida com as distâncias e já sente falta até de dirigir para o Projac.

ACABOU CHORARE Se tivesse a oportunidade de se despedir, o cantor e compositor Moraes Moreira – que faleceu no dia 13 de abril, vítima de um infarte – escolheria uma canção alegre para tocar nas rádios dos corações de seus fãs. Morador da Gávea, Moraes estava sempre circulando pelo bairro e estava na nossa lista de Ilustres Moradores a serem entrevistados. Não deu tempo, mas ele deixou seu recado em cordel.

HOMENAGEM AOS JORNALISTAS

Em homenagem ao Dia dos Jornalisas (7 de abril), destacamos dois profissionais entrevistados em nossa última edição impressa: Chico Regueira e João Pimentel. O primeiro, que ocupou a coluna Ilustre Morador, pode ser visto diariamente na Globo, incansável na apuração sobre o Covid-19 na cidade. Já João Pimentel, personagem da coluna Meu JB, trabalhou anos em O Globo, cobrindo, especialmente, a área musical, na qual marca presença como compositor. Janjão, como é conhecido, foi um dos autores do samba do bloco Simpatia é quase amor em 2020. Leia aqui.

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