Por Júlia Melibeu e Sofia Lopes*
Inaugurada em 2012, a Biblioteca-Parque da Rocinha C4 se transformou em muito mais do que um espaço de leitura. Localizada no coração da maior favela do Rio de Janeiro, ela se tornou um centro cultural e social multifuncional, que acolhe moradores de todas as idades. Atualmente, o espaço realiza 17 atividades gratuitas, coordenadas por voluntários, que vão de aulas de yoga e cursos profissionalizantes a atendimento gratuito de médicos e nutricionistas. Além disso, oferece sessões de cinema, café literário e estúdio audiovisual.
Mais do que prateleiras e livros, a biblioteca representa um lugar de convivência, aprendizado e inclusão. Para o atual gestor, Aloisio de Jesus, de 55 anos, o papel da instituição é justamente esse: devolver o espaço à comunidade.
– A biblioteca passou por um período meio fechado, meio elitista. Então a gente abriu as portas, trouxe o povo de volta. Agora ela é ocupada por grupos que não se falavam antes e agora trabalham juntos. O pessoal começou a entender que o espaço é realmente para todos – explica Aloisio.
Desde que recebeu a indicação da Secretária Estadual de Cultura, Danielle Barros, para a gestão, Aloísio quis fazer diferente. No começo, ele achou que não estava preparado, mas depois da insistência, ele não resistiu e abriu a biblioteca para todos.

O teatro da Biblioteca atende a comuniade
As atividades realizadas na Biblioteca-Parque promovem a diversidade e o desenvolvimento da comunidade para um bem maior. A secretária da Biblioteca, Jaqueline Katana, de 46 anos, diz que o teatro, por sua beleza, é muito procurado para realização de eventos.
– Nós trabalhamos com uma agenda e facilitamos o operacional para tudo que é relacionado a cultura ou ação social.Hoje somos um centro de atividades sociais – afirma Jaqueline.
Essa visão é reforçada por Mônica Medina, de 53 anos, coordenadora da Parada LGBTQIAPN+, um dos projetos mais importantes realizados no espaço. Ela destaca que a Biblioteca é um dos poucos lugares na comunidade que oferece estrutura e acolhimento real aos artistas e cidadãos.
– Esse é o único local que eu conheço dentro da Rocinha que tem uma estrutura completa para o artista se expressar, com teatro, sonorização e tudo funcionando de verdade, O espaço é aberto a todas as etnias e aos movimentos de diversidade – reforça a coordenadora.
Todo ano, a Biblioteca abre suas portas para o “Viradão Cultural”, promovendo 43 atividades culturais e sociais, estabelecendo uma relação com o território, a cultura e os moradores.
– O meu papel é prestar serviço e trazer esclarecimento. Quanto mais esclarecimento você tem, menos você é desviado do seu rumo. É isso que dá sentido ao nosso trabalho – completa Mônica.

Todo ano o Viradão Cultural ocupa o espaço (Foto: Chris Martins)
A arte de devolver para a comunidade
Com uma rotina que mistura livros, arte e solidariedade, a Biblioteca-Parque se consolida como uma ferramenta de transformação. Foram criadas hortas em 50 pontos na comunidade, com aulas para o morador implementar também cultivos em suas casas, de modo simples e acessível. Aloisio conta que sua principal motivação vem das crianças da comunidade.– Eu sou fruto de um projeto social. Na minha época, a gente tinha mutirão, as pessoas se ajudavam, construíam as coisas juntas. Quero resgatar isso, trazer as famílias e atender mais gente. Há crianças com dificuldades de aprendizado, e tentamos correr contra a maré. Com esse esforço, incentivamos os grupos a se envolverem – diz.
Enquanto o gestor planeja novas ações para ampliar o alcance do espaço, o sentimento predominante é o de pertencimento e esperança. Ele afirma que o local está aberto para receber mais projetos voluntários que se envolvam com a comunidade.
Moradora da Rocinha há 25 anos, Luciane Aparecida Alves, de 56 anos, frequenta a biblioteca com seu filho. Ela conta que a C4 transformou a relação da comunidade com a cultura. O local se tornou parte da rotina da mãe e do filho: enquanto a artista independente desfruta das aulas oferecidas, seu filho fica na Casa Digital, um espaço com computadores acessível para todos.
A moradora afirma que seu amor pela arte e pela cultura é o que a faz frequentar o local. Além disso, sugere que haja mais professores voluntários para aulas de diferentes linguagens, além das aulas de idiomas que já existem e das quais a mãe participa.
– Ficamos bem ocupados aqui com atividades para educação e para a vida. Sempre aprendemos muito – comemora Luciane.

Para o mês de março, a programação da Biblioteca inclui aulas de teatro (para crianças e jovens) e de iogas, todas com entrada gratuita. No dia 3 de março, às 10h30, acontece “Reuso criativo” um encontro voltado para o público feminino, especialmente para empreendedoras criativas.
Serviço
Endereço: Estrada da Gávea, 454 – Rocinha, Rio de Janeiro – RJ, 22451-264
Horário de funcionamento: de segunda a sexta, de 9h às 21h
Telefone: (21) 2334-7097
Instagram: @c4bibliotecaparquedarocinha
*Conteúdo produzido pelos alunos Júlia Melibeu e Sofia Lopes, por meio da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania – ministrada pela professora Lilian Saback – , do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.




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