26 de fevereiro de 2026
O CINEMA DA ROCINHA PARA O MUNDO

Por Camila Guanabara, Isabella Carvalho e Rafaella Albuquerque*

Foi em dezembro de 2023 que o casal Marcos Braz e Michelle Estevan tiveram a ideia de criar a Academia de Cinema da Rocinha (ACR). O objetivo principal  foi criar uma representatividade de pessoas da comunidade na indústria cinematográfica. O projeto é gratuito e  busca promover a inclusão e valorizar o potencial artístico local para ampliar as múltiplas faces da favela, rompendo com visões estereotipadas e, muitas vezes, pejorativas.

A Academia ocupa uma sala da Biblioteca Pública da Rocinha C4, de segunda a quinta, das 18h às 21h, e oferece aulas de fotografia, edição, roteiro, iluminação e direção de arte, a ACR. Em março, o espaço promove a Semana do Audiovisual, com uma série de encontros de 13 a 24. Na programação tem as oficinas Realização Cinematográfica, com a diretora Julia Moraes; e “A memória é uma olha de edição”, com o documentarista Vinícius Nascimento.

Para Marcos Braz,  a escola de audiovisual tem relevância para a comunidade. Apesar dos desafios individuais de cada aluno e da falta de equipamentos para produções cinematográficas, Marcos acredita que o futuro da ACR é se tornar um polo de cinema na Rocinha.

–  A gente olha para o futuro pensando na sustentabilidade dentro do projeto. Temos mais de dez roteiros prontos e muitos filmes para rodar. Precisamos ter equipamento e recurso para profissionalizar os alunos e mandá-los para o mercado. Queremos fazer disso aqui um Polo de cinema, que é o nosso sonho A  ideia  é oferecer um espaço criativo para que as pessoas possam realmente acessar e continuar.  – – garante o diretor.  

Marcos Braz, o co-fundador da ACR (Foto: Crédito Rafaella Albuquerque)

O espaço está sempre aberto para receber doações de equipamentos, como luz, tripé, câmeras fotográficas, microfones, computadores e câmeras de filmagem. Além disso, a Academia também precisa de professores voluntários em diversas áreas como fotografia, edição e montagem.  Quem tiver interesse pode fazer contato através do perfil no Instagram.

Segundo Luís Nachbin, professor da Academia e da PUC-Rio, um dos principais desafios é despertar o interesse dos alunos, devido às suas diferenças. O documentarista tinha dúvida da procura  pelo segmento, mas se  surpreendeu com o interesse genuíno dos alunos, suas observações e percepções únicas. Para ele, as diferenças de contexto, lugares frequentados, trajetória de vida e vivências, acabaram gerando uma percepção audiovisual muito marcante.

– As conversas com essa turma são muito diferentes das que tenho com alunos da PUC. Não é melhor ou pior, mas com outra perspectiva. Quando apresento um documentário, os pontos que eles trazem são únicos, e isso me estimula muito. – destaca Nachbin.

As aulas acontecem em uma das salas da Biblioteca (Acervo pessoal)

Na busca por criar oportunidades para os moradores de comunidades, a Academia de Cinema da Rocinha teve papel fundamental na trajetória de Teodoro Garrel, de 28 anos, graduado em Letras na UFRJ. Ele integra a equipe de roteiro e montagem de “Crônicas Marginais”, produzido de forma coletiva dentro da Academia, que retrata o cotidiano e os desafios de moradores da Rocinha. O foco do curta são os personagens diversos que enfrentam a dura realidade da favela com coragem e criatividade. O filme sendo exibido na mostra Première Brasil Curtas Hors Concours  Première Brasil do Festival do Rio 2025, um dos maiores festivais de cinema da América Latina e será exibido em Paris, no Cinemá de femmes, em março.

O primeiro contato de Teodoro com a Academia foi de forma inesperada. No início, ele achou que por ser um curso na zona sul carioca, seria um projeto caro, mas logo  descobriu que era gratuito. A insistência e o gosto pelo cinema fez com que ele fosse convidado a participar mesmo depois que as aulas já haviam começado.

– Se hoje eu posso dizer que eu sou um cineasta, é por conta da Academia de Cinema da Rocinha.  Antes, eu era apenas um cinéfilo, mas a relação evoluiu e atualmente sou extremamente grato e me entendo como cineasta. – confessa o jovem diretor.

Teodoro Garrel é cineasta por conta da ACR (Acervo pessoal)

Paola Vieira, 62 anos, cineasta e professora de cinema, se surpreendeu positivamente com a diversidade de histórias que emergem desses territórios: narrativas ricas, potentes e ainda pouco representadas no audiovisual. Para ela, embora existam movimentos de inclusão, eles ainda são insuficientes, e capacitar essas pessoas é um passo essencial para ampliar suas vozes. Segundo a cineasta, a solidariedade está presente em todas periferias, especialmente na Rocinha.

– A convivência diária nas favelas fortalece os laços de solidariedade e o senso de ajuda mútua, tornando a comunidade mais unida. E é com essa união que o cinema periférico ganha forma dentro da ACR.  – resume Paola.

*Conteúdo produzido pelos alunas Camila Guanabara, Isabella Carvalho e Rafaella Albuquerque por meio da parceria do JB em Folhas com a disciplina de Jornalismo e Cidadania – ministrada pela professora Lilian Saback – , do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio.

 

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados